A 10 Km da Civilização

Todos se lembram da balbúrdia e das dezenas de estaleiros a perder de vista de Ponte de Lima a Valença. Por cá, entre os que tinham habilitações ou algum jeito para os ofícios associados à empreitada, a taxa de desemprego roçou o zero. Também alguns proprietários, contando-se nesse rol as Juntas de Freguesia do sul do concelho, cujas expropriações, pessimamente tratadas ao que consta (não houve capacidade negocial e o comprador conseguiu quase sempre fechar os acordos com as suas propostas iniciais), permitiram que enchessem primeiro os bolsos e desbaratassem o dinheiro depois, em poucos anos. Foram dois anos dourados, ainda mais agitados nos últimos meses, porque Maio de 1998 estava já ao virar da esquina e tudo tinha que ser perfeito para que nuestros hermanos e meia Europa chegassem a Lisboa a tempo e horas. Nesses meses laborou-se noite e dia porque como bons portugueses, sem pressão e uma boa derrapagem à mistura, o prometido não fica cumprido. Mas a verdade é que o troço mais caro de qualquer auto-estrada jamais feita em Portugal, viu a luz do dia mesmo em cima da abertura daquela que prometia ser a maior exposição mundial de sempre.

E Paredes de Coura, depois de dois anos de fartura, passou (para sempre?) ao lado de uma oportunidade histórica! Primeiro, foi a possibilidade do nó no alto de Romarigães, depois a famigerada ligação rápida a Sapardos, um objectivo pelo qual o anterior autarca Pereira Júnior se bateu estoicamente ao longo de década e meia e que esbarrou constantemente nas promessas dos sucessivos governos, começando em Guterres e acabando em Passos Coelho. A verdade é que houve vários projectos, estudos de impacto ambiental e até a contar com a ligação que se avizinhava, uma avenida que acelera a entrada na vila e que celebra a cidade irmã de França.

Hoje, as promessas governamentais vão sendo cada vez mais desleixadas, afinal Paredes de Coura está a perder mais de meio milhar de habitantes por década e para quê investir num concelho que parece condenado ao desaparecimento? Foi-se o tribunal, a ameaça paira sobre outros serviços públicos e os mais agoirentos dizem que até se perder a comarca será só uma questão de anos, ou décadas! Mas isso são contas de outro rosário. Voltemos à distância que nos separa das principais urbes e dos grandes centros de decisão e centre-se a discussão no essencial: será que falta a Paredes de Coura uma ligação mais rápida às principais vias rodoviárias que atravessam o norte-galaico para poder crescer a olhos vistos e afirmar a sua identidade para além das suas fronteiras? Para responder a esta pergunta deveremos talvez perguntar a João Carvalho e aos seus camaradas se os maus acessos estancaram o crescimento e a internacionalização do festival e se esse facto atrapalha muito a chegada de 100 mil visitantes a cada ano? Talvez devamos questionar também o atual executivo se os constrangimentos rodoviários tem impedido a renovação do tecido industrial (com a criação de mais de uma centena de postos de trabalho) e a capacidade de se apostar nos apelidados produtos de mais valia tecnológica? E tem prejudicado a afluência de pessoas de fora nas iniciativas culturais que têm sido realizadas? E poderíamos ainda perguntar aos comerciantes, aos hoteleiros, aos animadores turísticos…

Agora pergunto eu: e se tratássemos primeiro daquilo que depende de nós e que podemos controlar e só depois do resto? Fora da festa da truta, há sítios bastantes onde se possa comer truta? E tirando os dias da feira mostra, onde há o bolo do tacho? E fora das jornadas micológicas ou dos encontros organizados das associações que lá estão implantadas, há quem nos guie pelas potencialidades da área da paisagem protegida? E tudo isso está promovido? E a coesão e entreajuda entre agentes turísticos existe? Para já, a Câmara tratou, por exemplo, de beneficiar as zonas industriais, tentando atrair mais alguns empresários e segurar aqueles que lá estão! Fez algo que estava sob o seu controlo e não perdeu tempo em anunciar que esperava agora que o governo fizesse a sua obrigação! Mas não foi este executivo que disse que a ligação à auto-estrada estava longe de ser a coisa fundamental para o desenvolvimento de Paredes de Coura (ao contrário do que sempre disse Pereira Júnior)? Bem, o que nos vale é que vem aí o António Costa e com ele o nosso tribunal de volta, as freguesias desagregadas e de regresso à velha forma e de certeza que finalmente galgaremos os 10 Km que nos separam da rota civilizacional, ligados à auto-estrada, pois claro!

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