Editorial

A justa ira!
Picture of Arlinda Rego Magalhães

Arlinda Rego Magalhães

Partilhar

Duas palavras que por princípio, não aparecem escritas juntas. 

Provavelmente porque o respectivo significado, as auto exclui, desta junção.

Não há memória colectiva, de uma situação grave, resolvida por uma pessoa irada, ou num momento de ira, que tenha tido um desfecho justo,  para ambas as partes.

Regra geral a justiça surge mais frequentemente, através do diálogo e de acordos.

Que implicam, cedências, contrapartidas e a racionalização do problema.

Conforme as respectivas alegações, o perdão, a aceitação do erro, e a ou as respectivas penalizações, terão que ser justas objectivas e reparadoras.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Caso contrário as pessoas, entram em conflito directo, e partem para a  agressão física e psicológica.

A violência através de todos os meios possíveis, intensifica este confronto,  e por fim a destruição do outro através da guerra.

Nos anos sessenta e setenta, a tia de uma amiga, costumava passar férias em Portugal, de dois em dois anos.

Inglesa de nascimento, estudou, cresceu e viveu, sempre em Inglaterra.

Geneticamente era de origem indiana, assim como o seu marido, e toda a sua família. Aprendeu desde sempre, a praticar o hinduísmo, e gostava de aprofundar essas questões.

Tinha nascido em Inglaterra, concretamente em Londres, onde sempre viveu e casou com um médico  e diplomata.

O círculo pessoal e profissional do marido, levava o casal, a ter uma vida social intensa.

Quando vinha a Portugal, visitar uma das irmãs, e as sobrinhas, era sempre uma presença muito apreciada por todas nós. A sobrinha mais velha adorava a tia e os primos, e nós as amigas tivemos verões inesquecíveis.

A tia tinha uma figura elegante e exótica. Usava à epoca cores vibrantes e chamativas, que realçavam o seu tom de pele.

Os tons laranja, amarelo, vermelho, azul forte, lilás, roxo e dourados muitos dourados.

Faziam furor essas cores, naquela fase da nossa vida, em que as nossas mães, vestiam um tailler ou vestido azul escuro, branco, verde, preto e castanho mas nunca laranjas, amarelos e dourados.

A tia falava, falava, sorria e contava imensas histórias preciosas para os nossos sonhos de miúdas dos treze aos quinze anos, antes do 25 de Abril.

Numa das últimas visitas, falou de assuntos mais sérios, falou de ética e religião.

A tia falava algumas vezes da palavra “ainsa”, que é um princípio ético-religioso, também presente no hinduísmo, e que consiste, em não cometer violência contra outros seres.

Partindo da premissa, que todos os seres são divinos, e por consequência, ferir alguém é ferir-se a si próprio.

O “ainsa ” pressupõe a ideia de que qualquer violência tem consequências cármicas.

A palavra Carma muito usada ao acaso, nos nossos dias, tem uma definição muito específica.

Carma é literalmente a ação; a relação entre essa ação, seu resultado, consequências, e responsabilidade das nossas acções.

É o que se chama de “Lei  do Karma”.

A tia que usava com frequência expressões indianas, falava frequentemente em ” good karma”, olhando para nós afavelmente.

Um dia a propósito de uma alusão,  hoje considerada racista, que alguém lhe dirigiu em Inglaterra, numa das muitas recepções onde estava, ela reagiu.

A tia terá usado aquilo a que ela chamava “a justa ira”.

Tomou por seu, o nobre direito da indignação e respondeu, nunca engoliu uma ofensa, segundo ela.

Nunca destruiu nem magoou ninguém, mas não deixava em mãos alheias a defesa da sua origem hindu.

Praticou a “justa ira”, defendeu-se, indignou- se, não baixou a cabeça e fez vingar a sua origem genética.

Não modificou o seu karma, mas sobretudo não prescindiu do seu direito à indignação e à defesa do seu povo e país, apesar de ser por nascimento e criação inglesa.

A sua cor, as suas feições e atitudes mantinham as características hindus.

Ela não se sobrepunha à cultura, onde foi criada, mas também não permitia que a humilhassem.

Praticava, segundo ela, a “justa ira”.

Defendia-se, não agredia, no entanto impunha-se pela sua personalidade, lucidez e inteligência.

Foi todo um processo de aprendizagem e descoberta para nós!

Ter a noção do respeito mútuo,  e das particularidades e características de cada cada ser humano, sem ofensas mas com com grande respeito, pela dignidade individual de cada ser.

Se for essa a solução, pratiquemos a “justa ira”, saibamos aplicar o diálogo, a razão e a indignação na medida certa.

Sobretudo que a destruição de todo e qualquer ser vivo, nunca seja a opção mais imediata!

“GOOD KARMA “.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Mais
editoriais

Também pode gostar

Junte-se a nós todas as semanas