A solidariedade nos tempos que correm

” Quando as pessoas se importam umas com as outras, sempre dão um jeito de fazer as coisas darem certo.”

( Nicholas Sparks )

Lembro-me, quando ainda era criança, de minha mãe me levar consigo a visitar uma amiga que morava num bairro antigo e pobre de Lisboa. Naquela casa modesta, mais muito limpa, reinava a harmonia. Via-se que o dinheiro não abundava pois o marido era um simples empregado fabril e D, Emília, a amiga da minha mãe, não passava de uma dona de casa com dois filhos pequenos para criar. De súbito, alguém bateu à porta; foram duas pancadinhas tímidas que fizeram a dona da casa ir abrir. Logo se deparou com uma vizinha que vinha anunciar a morte de um idoso que morava duas portas acima. Pedia para que ajudasse a pagar o funeral, pois a viúva não tinha posses e estava muito aflita sem saber como fazer face a essa inesperada despesa.

Vi a preocupação na cara da cara da D. Emília, mas logo limpou uma lágrima rebelde e correu ao quarto para ir buscar parte das suas certamente parcas economias, que então se guardavam em casa. E lá contribuiu como pode deixando duas notas no saquinho que a outra lhe estendia, e que acto contínuo agradeceu. E lá partiu em demanda de outras ajudas para completar o valor necessário.

Aquilo marcou-me para a vida inteira e aprendi que mesmo do pouco pode fazer-se muito para ajudar os outros, os que ainda menos têm. Comecei então a entender o queria dizer a palavra solidariedade.

São difíceis os tempos que vivemos, por isso muitos dizem que são tempos de crise. Mas uma crise é também uma oportunidade de renovação, de projecção de uma nova oportunidade de vida, de procurar ir mais longe…

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

O mundo está de facto perante a oportunidade de mudar os seus arquétipos que levem à recuperação de valores humanos, e que essa recuperação promovam e assegurem a dignidade da Pessoa e a reencaminhem para a sua condição natural no centro da sociedade.

Entre esses valores avulta a solidariedade, como qualidade  genuína e verdadeira antítese ao individualismo, que assenta no princípio do «salve-se quem puder».

“Eu não acredito em caridade, eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro.

A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas”, escreveu Eduardo Galeano.

Felizmente, longe vão os tempos em que se combinavam acções de «caridadezinha» à mesa de um qualquer chá-canasta de gente bem na vida, que o fazia para sua promoção pessoal, através de iniciativas politicamente correctas mas totalmente desprovidas de reais sentimentos solidários e de empatia para com quem mais deles necessitava. Lá apareciam os jornais e as televisões e lá se projectavam as ditas iniciativas dos tais cidadãos invariavelmente conotados com a política, a alta finança, a indústria, e seus afins.

Que nos lembremos, a melhor definição de solidariedade deu-a João Paulo II ao deixar escrito: “a solidariedade não é um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja; pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”.

Acreditamos que as novas gerações – que, apesar dos muitos defeitos que se lhes apontam –  parecem constituir-se por gente mais sincera e decidida,  num futuro próximo não irão consentir hipocrisias nem aturar manobras que venham continuar a aviltar o relacionamento social, envenenando-lhe a natural bondade e a desejável genuinidade.

Neste mundo ocidental a que pertencemos, é sabido que as populações estão cada vez mais envelhecidas, atendendo à quebra da natalidade. Por outro lado, graças aos avanços no campo da investigação, as populações do hemisfério norte vão ganhando uma maior longevidade, factor que vai envelhecendo a respectiva sociedade, tornando-a mais vulnerável às alterações climáticas, e consequentemente carenciada de maiores atenções e cuidados. Daí, que se espere que a solidariedade não se fique por meras acções individuais, sempre de louvar, mas escassas quando se trata de acudir a largas franjas da comunidade. E assim, cabe naturalmente aos estados, e, a uma escala alargada, aos esforços conjugados de um ou mais conjuntos de nações promoverem a solidariedade, que éo sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”, assim o afirmou Franz Kafka.

Obviamente corroboro dessa definição.

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3 comentários

  1. BOA TARDE EUGÉNIO! Como estás… em PORTUGAL é primavera, aqui no BRASIL é outono, mas ainda enfrentamos temperaturas acima de 30 graus até máximo de 38 graus!
    Como sou paulista estou no ESTADO DE SÃO PAULO onde estamos como num oásis solidário no meio de um deserto de ódio , devassidão e destruição!
    Em relação à sua postagem de hoje meu amigo eu só tenho a dizer o seguinte:
    “NA MATEMÁTICA DE DEUS DIVIDIR É MULTIPLICAR”
    BEIJOS
    BOM FINAL DE SEMANA
    18/05/2024

  2. OLÁ EUGÉNIO ADOREI O TEU TEXTO ESTÁ EXCEPCIONAL. EU CREIO QUE A SOLIDARIEDADE É VOAR COMO O PIRILAMPO, É ILUMINAR O MUNDO COM MUITA PAZ E AMOR. ENFIM É UMA ESTRADA DE LUZ. ABRAÇO E PARABÉNS.

  3. Querido Eugéno!
    Embora esteja bem atarefada, sempre encontro um tempinho pra ler seu excelentes textos e afins…
    O tema à qual se refere é algo bem notável nesse mundo em que vivemos, tudo mudou, a humanidade já não é a mesma, o egoísmo anda à solta e as autoridades, fazem o que lhe convém.
    Moro por vontade numa “comunidade” Monte Alegre, onde ainda existe solidariedade, mas nas cidades grandes , essa palavra só no dicionário, quando muito pra descartar o que não lhes servem mais…
    Gostei e aprecio seus textos!
    Meu abraço!
    Rita

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