Alvarinho: Produtores de fora da sub-região reticentes no momento de apostar

Latada de uvas alvarinho

Arcas, Aveleda e Lixa entre as principais quintas influenciadoras no momento de escolher o que plantar.

A 13 de Janeiro de 2015, em reunião realizada na Estação Vitivinícola Amândio Galhano, em Arcos de Valdevez, era assinado um acordo polémico e que ainda hoje não é consensual.
No mês em que se completou um ano desde a a aprovação do documento que determina o alargamento da Denominação de Origem (DO) Vinho Verde Alvarinho a toda a região dos Vinhos Verdes, quisemos saber que impacto teve esta alteração na intenção produtiva dos agentes económicos de uma região determinada em tornar-se competitiva no mercado dos vinhos.
A casta alvarinho (ou alvarinha, segundo os documentos mais antigos), ex-libris da sub-região de Monção-Melgaço pelos vinhos monocasta daí resultantes, despertou interesse em alguns dos maiores produtores/engarrafadores da região dos Vinhos Verdes, que garantem manter o carácter de excelência dos vinhos, somando-se assim à lista de certificados com DO Vinho Verde Alvarinho, até agora limitada aos concelhos de Monção e Melgaço.
O processo e condições negociadas pelo grupo de trabalho gerou diferentes entendimentos: Justo e “inevitável” para uns, “ruinoso” para outros, os contestatários do acordo prometem trazer o assunto novamente à discussão.
N
o entanto, a ‘libertação’ das garantias qualitativas a toda a região parece não ter gerado a corrida às plantações que se poderia prever. Os produtores de fora da sub-região de Monção-Melgaço avançaram com algumas “experiências”, mas reticentes em apostar numa casta de volumes de produção ligeiramente inferiores aos registados em castas mais comuns no território como são as Loureiro e Fernão Pires. Noutro patamar de confiança avançam já alguns dos produtores das quintas mais expressivas a nível regional e nacional, nomeadamente a Quinta da Aveleda, Quinta das Arcas e Quinta da Lixa, que tem fomentado a reconversão de vinhas através de candidaturas agrupadas de produtores a quem compram uva.
Reunimos, junto dos técnicos das cooperativas agrícolas das principais sub-regiões da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, algumas percepções do impacto das plantações de Alvarinho em áreas tradicionalmente vocacionadas para outras castas.

Em Penafiel e Paredes (Sub-Região do Sousa), é atribuída aos principais produtores/engarrafadores a mudança do paradigma vitivinícola local, com um passado ligado aos Loureiro, Trajadura e Arinto. Alvarinho e Fernão Pires são as castas que se seguem no momento de plantar.

A engenheira Helena Meireles tem acompanhado os novos projectos no concelho de Paredes e dá nota de um interesse moderado dos produtores locais, ainda que o programa VITIS, que apoia a reconversão de vinhas, tenha permitido algumas experiências. “Ainda não houve muita gente a optar pela casta Alvarinho. Como não estamos na zona dele não lhes é devidamente compensada e esta produção de um modo geral é mais baixa que noutras castas”, nota. 
Ainda assim, o rumor e o valor acima da média praticado por quilo na sub-região de Monção e Melgaço terá despertado a vontade comercial dos produtores. “Quem está a fazer plantação está na expectativa que seja valorizado como na região dele”, diz Helena Meireles, confessando que, até há pouco tempo, esta “era uma casta que nem passava pela cabeça”.
Apesar de algum interesse dos produtores de uva da sub-região do Sousa, os produtores de Monção e Melgaço não deverão ter razões para temer afronta destes a curto prazo, já que as áreas estão a ser investidas em Fernão Pires, uma casta consideravelmente mais produtiva. A variedade, com um passado mais ligado às regiões centro e sul do país, tem subido no mapa vitivinícola e firma-se agora, essencialmente devido ao interesse e consequente estímulo que a Quinta da Aveleda colocou nesta casta entre as mais plantadas no Vale do Sousa.

Produtores/engarrafadores querem Alvarinho, viticultores preferem Fernão Pires

Na sub-região de Basto, as novas plantações de Alvarinho são alegadamente mais expressivas, mas ainda em desigualdade com outras mais rentaveis em volume de produção. Os novos projecto não ultrapassarão os 30 hectares na sua totalidade, considera o engenheiro Freitas Costa, da Adega Cooperativa de Celorico de Basto.
“Graças ao programa VITIS e principalmente devido à abertura que virá a haver para a designação Vinho Verde Alvarinho fora de Monção e Melgaço, os produtores tem optado por plantar áreas maiores de Alvarinho. Principalmente os de maior dimensão, que são produtores/engarrafadores, têm incrementado mais a casta alvarinho”, realça o técnico.
Para quem vende a uva à adega, a aposta continua a ser nas mais produtivas, deixando a aventura do Alvarinho para quem já tem nome e mercado. “Regra geral, as castas são outras, não o Alvarinho, agora, é evidente que com a possibilidade, tem mais atractivo”, reitera.

Um travão “legal” na produção: Portugal só pode crescer 2400 hectares por ano

Na sub-região de Monção e Melgaço, as entidades contestatárias já não olham para a suposta ameaça da produção de Alvarinho da restante região demarcada dos Vinhos Verdes com o mesmo alarmismo, mas promete manter os mecanismos legais de defesa contra o alargamento da DO Vinho Verde Alvarinho.
O presidente da Associação de Produtores de Alvarinho (APA), Miguel Queimado, indica que o volume de plantações registado em 2015 seguiu a tendência de anos anteriores, sem que os factores proporcionados pelo programa VITIS e o alargamento da DO Alvarinho tenham motivado uma corrida aos viveiros.
O fim do regime de direitos à plantação, tendo passado, desde 1 de Janeiro de 2016, para um sistema de autorizações, representará uma oportunidade para novos produtores que se submetam a concurso mas os níveis de plantação sofrerão, à luz do que estipularão as novas regras, algum abrandamento.
Este novo sistema de quotas não transmissíveis, já que não será possível vender, como acontecia com os direitos, vem estipular níveis de crescimento ao sector do vinho. Portugal estará por isso limitado a um crescimento anual de 1%, o que representará cerca de 2400 hectares neste período.
Sujeitos às novas normas que obrigam os viticultores a candidatar-se, em concurso a nível nacional, para aceder à licença de plantação e as limitações nos apoios (via ProDeR – Programa de Desenvolvimento Rural), “que nunca irão ultrapassar os 40%”, o presidente da APA prevê que estes factores sejam um “travão” natural à instalação de novas plantações e não haja “inundação” da casta.
O autarca de Melgaço, Manoel Batista, diz aguardar ainda um estudo “sério” sobre o impacto do alargamento, mas nota que, em período de transição, a sub-região “aguçou o engenho” e tem vindo a ganhar qualidade e notoriedade nos mercados nacional e internacional devido à “capacidade criativa” dos produtores.
“Ainda ninguém tem números do impacto que a medida teve ou poderá ter na sub-região. Esse foi um dos nossos grandes argumentos, precisávamos que alguém fizesse um estudo sério”, sublinha o autarca.
“Neste momento, até porque estamos na fase de transição legislativa, não me parece que se sintam impactos”, observa o autarca, congratulando os esforços dos produtores e entidades envolvidas numa campanha promocional dos vinhos da sub-região de Monção e Melgaço que tem dado resultado. “A sub-região tem conseguido aumentar volumes de venda e a sua notoriedade no território nacional e nos mercados externos. Os produtores têm sido capaz de melhorar a qualidade dos seus produtos e tem sido capazes de produzir com qualidade”, salienta
Ao aperfeiçoamento de técnicas e estratégias de quem vende, o edil enumera também a aposta de ambos os municípios da sub-região, um investimento que Melgaço continuará a fazer a par da luta para que se reverta o acordo assinado há pouco mais de um ano. “O município, conjuntamente com a adega “Quintas de Melgaço”, continuará a lutar no sentido de forçar a continuidade da situação que tínhamos, que era a produção exclusiva”, esclarece.

Exclusividade: Recomendação do PSD foi ajuda ou presente envenenado?

A questão não passará, é certo, pela Assembleia da República, um palco onde a questão da exclusividade foi defendida e atacada… pelos mesmos, garante o autarca.
“A [votação da recomendação da manutenção da exclusividade na] Assembleia foi um momento provocado pelo PSD do distrito [de Viana do Castelo], alertado pela Adega Cooperativa de Monção. E foi a Adega de Monção que espoletou junto dos deputados do PSD do distrito a questão do alargamento para que esta fosse levada ao parlamento, secundada depois por todos os grupos parlamentares, que permitiu a votação de uma recomendação de não alargamento ao Governo. Por muito irónico que pareça, foi precisamente esse grupo parlamentar e esse Governo que depois veio a aprovar a alteração da legislação. E num curto espaço de tempo, no espaço de seis meses. É uma coisa difícil de entender”, atira.

Perante a mudança de entendimento em tão reduzido espaço de tempo, o autarca diz desconfiar das intenções “benévolas” que à altura o PSD distrital teria para com a sub-região. “Aquilo que se lê à partida é que a intenção era benévola, mas não sei se alguém tinha outras intenções quando levou a questão a esta discussão”.

O que teme a sub-região de Monção-Melgaço? Um mercado que no futuro terá mais opções, obrigando a ajustar preços, ou a perda de padrões qualitativos dos alvarinhos produzidos na região dos Vinhos Verdes? “O que é mais temível é aquilo que está no acordo que foi celebrado há um ano. As forças vivas da sub-região serem capazes de darem um tiro no pé, ao fecharem a venda da nossa uva da forma como fecharam neste acordo. As plantações feitas fora poderão ser relevantes e trazer uva e vinho de valor mais baixo do que o praticado na sub-região, mas aí a qualidade será capaz de distinguir e fazer a diferença. Não é por acaso que as grandes empresas acautelaram, no negócio ruinoso que foi celebrado, continuar a comprar uva no nosso território. Não foi pelos nossos olhos bonitos, é porque a nossa uva é diferente. Não temos a temer na confrontação da qualidade, temos a temer é no negócios que foram feitos”, aponta Manoel Batista.

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Nuvem do Minho
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