A apologia da ruralidade

Miguel Nogueira

 

Depois de décadas e décadas de um fluxo migratório constante e de grande expressão, que conduziu inevitavelmente famílias e aldeias inteiras do campo para a cidade e do interior para o litoral, a tendência começou a atenuar-se há cerca de duas décadas, com muita gente a procurar fazer o caminho inverso, através da compra de uma segunda casa em meio rural para passar férias, havendo mesmo os que se mudaram, de armas e bagagens, para o ambiente mais bucólico do campo.

Entretanto, uma breve radiografia do Portugal profundo mostrava a desertificação pungente a que tinham sido votadas extensas partes de Trás-Os-Montes, da Beira Interior e do Alentejo.

Não obstante a crise económica e laboral que se fez sentir no país e que tem levado mais de cem mil pessoas a procurar melhores condições de vida em outras latitudes, cá dentro um novo fenómeno é cada vez mais observado: a tentativa que pequenas vilas e concelhos têm ensaiado no sentido de atrair pessoas que aceitem engrossar a população que neles reside. Exemplos como os protagonizados por Idanha-a-Nova e Oliveira do Hospital tem-se sucedido. No primeiro caso, o município tem-se promovido na capital, prometendo condições excepcionais aos jovens casais que estejam na disposição de recomeçar uma nova vida na localidade que está no limite que separa a Beira Interior do Alentejo. Do lado da vila do distrito de Coimbra, a pretensão é mais ousada e não isenta de polémica, na medida em que o presidente de câmara oliveirense, chocado com a realidade que leva milhares de imigrantes africanos a desembarcarem todos os dias na costa italiana, assegurou que o seu concelho receberia três dezenas desses emigrantes ilegais de braços abertos e que os mesmos seriam albergados nas freguesias mais desertas com o intuito de dar nova vida a essas aldeias. Para além de mais residentes, os concelhos periféricos tem apostado, de igual modo, na atracção dos visitantes, mostrando que quase todos os ambientes rurais tem potencialidades à espera de ser descobertas e exploradas.

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No Alto Minho temos um caso paradigmático desta realidade, que é Ponte de Lima, a vila mais antiga de Portugal. A vila limiana tem sido, nos últimos anos, uma das localidades do norte do país que mais visitantes têm recebido. Os números não deixam dúvidas. Mas o que tem assim de tão atraente Ponte de Lima e que não tem Paredes de Coura, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Monção ou Melgaço? Mais património edificado? Melhores museus? Maior beleza natural? Melhor gastronomia? Melhor promoção da etnografia local? Melhor oferta cultural? Maior oferta hoteleira? A oferta ao nível do ensino superior, que tem contribuído para fazer de Ponte de Lima a vila mais jovem do Alto Minho? Melhores acessos? Maior influência política? Claro que, comparativamente aos restantes concelhos alto-minhotos, estará nos lugares cimeiros em muitos dos aspectos que ajudam a marcar a diferença e são sobejamente conhecidas as fortes e sustentadas apostas na gastronomia (sarrabulho), na etnografia e nos produtos da região (as feiras novas, o folclore, o comércio do gado ou o vinho verde) e na preservação do ambiente e no desporto associado às condições naturais (as lagoas; o parque de ciclismo nas proximidades da Serra de Arga ou as actividades náuticas no Rio Lima). Claro que se trata também de um concelho com problemas, com algumas assimetrias, podendo referir-se as muitas freguesias e lugares serranos bastante isolados e quase abandonados.

Mas será que a sua receita poderia ser transplantada com sucesso noutros locais? Parece que não, porque não haverá duas terras iguais, por muitas semelhanças que partilhem! No entanto, Paredes de Coura, tal como Ponte de Lima, apenas poderá fazer a apologia da ruralidade, algo que as entidades oficiais já começaram a ensaiar, faltando agora trilhar o longo caminho que separa as palavras e os actos! É evidente que Paredes de Coura não voltará a ser o celeiro do Minho. Mas poderá rentabilizar a loja rural, maximizar a aposta em novos produtos agrícolas que o solo courense possa fazer medrar. Trabalhar e promover isoladamente cada vertente e potencialidade do território não parece ser o caminho. Teimar na aposta, e isso acontece há mais de duas décadas, numa feira de produtos regionais nos moldes em que se realiza e que deixa muito a desejar no propósito de mostrar o que é nosso, poderá também não conduzir aos resultados desejados! Mas em todos estes aspectos, o associativismo e a iniciativa privada terão uma palavra decisiva na afirmação das potencialidades courenses. E é aqui que reside o grande problema. Porque nenhum poder político, por mais dinamismo e ideias que apresente, pouco conseguirá se não for capaz de espicaçar aqueles dois pilares do desenvolvimento rural.

geral@minhodigital.pt
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