Apresentação de duas obras literárias de David F. Rodrigues em Ponte de Lima

Pela sua profundidade e qualidade, revelamos a intervenção que o Prof. Doutor José António Gomes (João Pedro Mésseder, nome literário), crítico e escritor, proferiu na Biblioteca Municipal de Ponte de Lima, em 19-11-22 https://minhodigital.pt/apresentacao-dos-livros-o/, na apresentação dos livros de poemas ‘O rito do pão’ e de ‘O que é feito de nós’ da autoria de David F. Rodrigues, outro nome incontornável da nossa literatura e cultura.

Entre ‘O Rito do Pão’ e ‘O Que É Feito de Nós’ – David F. Rodrigues, uma voz poética singular

Usarei aqui duas categorias que não são estéticas mas que me servem para situar um pouco a poesia de David F. Rodrigues. Passo a explicar: assim como existem pessoas «muito dadas» e outras, mais fechadas, mais reservadas, tenho para mim que existe uma poesia moderna e contemporânea que se  mais e outra que, em contraste, reclama do leitor um esforço maior de leitura e releitura, considerando que nitidamente esta segunda apresenta mais pontos de indeterminação semântica do que a primeira. Vou dar exemplos. Dão-se mais, permita-se a expressão, as escritas dum Régio ou dum Joaquim Namorado, dum Sebastião da Gama ou dum António Gedeão, duma Sophia de Mello Breyner Andresen ou dum Manuel Alegre; dão-se menos a escrita paùlista e interseccionista de um Pessoa, os Poemas Surdos de um Edmundo de Bettencourt, o surrealismo de um António Maria Lisboa, a poesia dum António Ramos Rosa ou mesmo dalguns poetas de Poesia 61, como Fiama Hasse Pais Brandão, isto para não falar no Carlos de Oliveira de Pastoral ou em Herberto Helder. Esta espécie de asserção introdutória não envolve, sublinhe-se, um juízo de valor crítico nem a em relação a uma tendência nem em relação à outra.

A poesia de O Rito do Pão (2.ª ed. reescrita e acrescida, 2021) e de O Que É Feito de Nós (2.ª ed. actualizada, 2022), cujas primeiras edições datam de 1981 e 1988 respectivamente, está mais próxima desta segunda categoria de poetas, até por razões geracionais. Embora jovem de mais para pertencer ao tempo do grupo de Poesia 61, certo é que David F. Rodrigues (n. 1949, Ponte de Lima) colhe ainda destes poetas certa obsessão pela opacidade da linguagem, na procura duma não discursividade, numa escrita contida e depurada que acabará por ser levada a um limite por poetas duma geração posterior (como é a de David F. Rodrigues), também por alguma influência dum poeta admirado pelos de Poesia 61, ainda que mais velho do que eles: António Ramos Rosa – talvez não por acaso convocado, por via duma pequena epígrafe a modos que posfacial, para fechar O Rito do Pão. Em alguns destes poetas a que me refiro, o cuidado posto na combinação da sintaxe poética com o ritmo e a dicção tornará a sua linguagem mais opaca e antidiscursiva ainda, nomeadamente pelo recurso a elementos estilísticos que, em David F. Rodrigues, aliás são recorrentes: o hipérbato, em suas diversas formas, e a elipse, e, ao nível versificatório, o enjambement. No poeta que aqui nos ocupa, o abandono das convenções pontuacionais assim como a opção pela minusculação reforça, é certo, este traço, mas também põe deliberadamente em evidência a palavra na sua nudez cristalina e na sua assumida pobreza (leiam-se os versos já referidos de Ramos Rosa (v. Rodrigues, 2021: 59) e a alusão que faz à «pobreza» da sua própria «escrita»).

Dito isto, importa abrir um parêntese para precisar que se a poesia de David F. Rodrigues, nestes livros, é como estou a procurar caracterizá-la, já o seu autor, esse, considero-o uma pessoa particularmente dada e afectuosa, isto é, um bom amigo e um colega excelente, de temperamento convivial e bondoso. Uma pessoa que muito prezo e admiro. Tal como admiro a sua produção literária, quer como poeta e autor de narrativas quer como ensaísta e investigador.

Voltemos então à poesia para acrescentar que esta espécie de empenho na criação duma linguagem outra, apostada na contenção discursiva, cheia de pontos de indeterminação, de termos e de passos de cariz polissémico e até de ambiguidades de sentido, deriva, por assim dizer, de uma desconfiança – radicada já no simbolismo e nos modernismos, atravessando a segunda metade do século XX e chegando aos nossos dias – em relação à fiabilidade comunicacional da palavra e à correspondência entre pensamento e verbo. Decorre ainda de um cansaço relativamente ao lugar comum, ao desgaste da palavra nos média, no discurso utilitário quotidiano e no discurso político. Por isso, a poesia de David F. Rodrigues pretende ser sempre resgate do cristal da palavra, como se desejasse, assim o queria Mallarmé (referindo-se a Poe) «donner un sens plus pur aux mots de la tribu». É isto que em parte explica a bela epígrafe de Raul Brandão que abre O Rito do Pão: «É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto» (cit. por Rodrigues, 2021: 7).

Constituída por dezassete poemas, a primeira e principal parte de O Rito do Pão é em boa verdade um hino magnífico e sentido ao ciclo do pão, sem dispensar certa implicação erotizante envolvida no maneio da terra, hino em que o poeta saboreia amorosamente não apenas o seu referente mas também os signos de maravilhosa ressonância poética a que deita mão, na sua rigorosa arte combinatória: húmus, semente, leito, alfobre, leira, soagens, relhas, vessadas, leivas, grade, arado, espiga, forno, arcas… Permito-me destacar esse poema belíssimo que é: «o lençol decora as leiras…» (Rodrigues, 2021: 12). A esta parte intitulada precisamente «o rito do pão» segue-se, mais curta, «o vagar da uva», cujos sete poemas se mantêm num registo semelhante aos da primeira parte e com ela, de certa forma, se articulam, nesse binómio de algum modo inseparável e de repercussões bíblicas e crísticas que é o pão e o vinho. Com composições de inegável beleza e sugestividade, o terceiro momento, «o corpo gémeo» – em que o campo léxico-semântico de corpo está representado em quase todos os poemas – reforça a ambiguidade do conjunto, naquela medida em que tanto nos confrontamos com uma sedutora conversão do mar em poema e do poema em mar (e David F. Rodrigues, como aqui se comprova, não é apenas um homem da terra e do rio, sendo também a sua escrita uma adicta da natureza costeira e do oceano) como nos sentimos voyeurs de uma aventura que o desejo tece na forma de palavras em sua ligação a um corpo amado. Dois exemplos belíssimos, neste aspecto, são os poemas oitavo, «o orvalho acende pela manhã…», e nono, «o rio cresce até à boca…» (Rodrigues, 2021: 48 e 49).

 

Avançando pelas mãos de metáforas originais, da vertente aforística e de versos próximos do haiku que já marcam algumas composições de O Rito do Pão, chegamos a O Que É Feito de Nós.

A segunda obra surpreende, desde logo, pela sua natureza de livro de poesia ilustrada (trinta desenhos), tarefa gozosa de que se encarregou o pintor Francisco Trabulo. O traço, as formas e cores, o seu claro-escuro fazem sonhar o texto e, consequentemente, convidam o próprio leitor a sonhar, ao mesmo tempo que destacam elementos concretos do poema e enfatizam sentidos.

Sendo uma obra porventura mais reflexiva e filosófica, sem perder em sensualidade verbal, mais uma vez a polissemia atravessa todo o livro, a começar pelo título, permitindo-nos, como vários críticos antes apontaram, ler nós seja como pronome pessoal sujeito seja como substantivo significando laço apertado e unidade de medida da velocidade marítima/fluvial, entre outros valores semânticos. Esta característica, a par duma ambiguidade controlada, surgem, por vezes, activadas também pela partição de palavras em final de verso ou doutras maneiras. Agora há poemas muito breves que se aproximam ainda mais do haiku do que os do livro anterior, como o texto 2 (Rodrigues, 2022: 12), o 24 («o nenúfar agora seja / consentido barco ou porto / horizontal ao sonho indelével das águas») ou o 26 («um fio azul de fonte e / justo / o suicídio dos salmões») (Rodrigues, 2022: 56 e 60), e confirma-se o que a epígrafe de Saint-John Perse e o primeiro poema do livro, também muito breve, já anunciavam: a presença recorrente da água (esse elemento de forte ressonância materna), nomeadamente por meio de palavras da sua esfera léxico-semântica, como rio, termo aqui relevante.

Mas, à medida que vamos progredindo na leitura, apercebemo-nos de alusões a cenas de infância, à mãe, à descoberta do corpo e do amor, à relação humana com outros e com a natureza, a um desabrochar, se quisermos a um crescimento comparável ao do próprio rio. E começamos a eventualmente compreender o título de uma obra que fala de um nós, logo de um eu e de outrem, ao mesmo tempo que se refere aos nós-laços que ligam o sujeito a outros, ao tempo que é o seu e ao mundo, ou aos mundos. Os que o constroem e os que ele próprio constrói.

Difícil eleger uma composição, tão belas e comoventes várias delas são. Mas fixo-me num dos poemas à mãe («discreta levantas da arca…» – Rodrigues, 2022: 32), um quase-soneto estrategicamente situado num quase-centro do livro, a pouco menos de metade deste corpus textual formado por trinta composições.

Quase a terminar, lembro que também este livro, inicialmente surgido em 1988, sofreu depurações várias, como eliminação de maiúsculas (repare-se que ambos os títulos são, nestas reedições, grafados com minúsculas, tal como na capa o nome do poeta) e supressão de pontuação – aspectos que não o são apenas de grafismo, possuindo implicações semânticas e de identidade estilística e autoral. O escritor quis ainda reunir, numa segunda parte do volume, uma coleção de textos breves produzidos por diversas vozes críticas quando da saída da primeira edição de O Que É Feito de Nós. O conjunto aclara a leitura mas sobretudo dá conta da recepção crítica feliz da obra à época em que veio a lume pela primeira vez. Contudo é principalmente o prefácio de Mário Cláudio, a pp. 5 do livro, o texto que lança luz sobre a série dos trinta poemas, ao afirmar: «é de uma nação tribal que nos conta, sobretudo, esta curta saga, povoada pela frágil meninice portuguesa, a que no “pão terno das camisolas” se reconhece, na genuinidade dos sentidos praticados pela desvairada inocência do homem que em amor os traduziu. Daí que se abracem estas folhas como um corpo verídico, de sangue circulante nas artérias do nevoeiro, tão próximo e tão longínquo como os que ao poeta autêntico foi dado experimentar».

Magnífico «corpo» e espírito, acrescentarei eu, em viagem pelo rio da vida.

Referências bibliográficas

Rodrigues, David F. (2021), O Rito do Pão, 2.ª ed. reescrita e acrescida, Porto: Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Rodrigues, David F. (2022), O Que É Feito de Nós, 2.ª ed. actualizada, Viana do Castelo:

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1 comentário

  1. O meu agradecimento ao jornal «Minho Digital» e, em particular, ao seu diretor, o jornalista Manso Preto. Muito obrigado!

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