Assalto ao poder

Miguel Nogueira

Vivemos tempos que deixam o país suspenso e preocupado e muitos se sentirão perplexos com o que tem acontecido desde 4 de Outubro. Confesso que fiquei surpreendido com a não demissão de António Costa no discurso da noite eleitoral e que nos dias que se seguiram sempre acreditei que o líder socialista estivesse a fazer bluff, esticando a corda até onde pudesse para conseguir o máximo de concessões da parte da coligação de direita e que não lhe passasse pela cabeça ir até ao fim com a ideia de fazer um acordo à sua esquerda, fosse de incidência parlamentar ou um governo que incluísse representantes de PS, BE e CDU. Pois bem, parece que me enganei. Rotundamente.

Muito se tem falado da saga de um homem desesperado em busca da sobrevivência pessoal, uma luta que se poderá saldar em mais alguns meses de oxigénio. Um estudo de caso, revelador das cruezas da natureza humana. Foram muitos aqueles que disseram que um homem desesperado, encurralado, se torna um homem perigoso. 

Alguém que coloca os seus próprios interesses à frente dos interesses do país e até do seu partido, revela o tipo de primeiro-ministro que nos tocará na eventualidade de Cavaco Silva tiver mesmo que o indigitar. Algo que só acontecerá se Costa chegar a Belém com um acordo estável para 4 anos e um programa escrito que revele de forma clara que BE e CDU se comprometem a entrar no barco da governação. Parece-me difícil, atendendo à essência daqueles partidos, marcados por uma linha ideológica dura e ortodoxa. Vão agora passar um cheque em branco ao PS, arriscando-se ao descontentamento dos seus votantes e a serem absorvidos pelos socialistas? O PS sabe que Portugal vive ainda tempos de melindre e por isso será necessário tomar ou continuar algumas medidas pouco populares para cumprir os requisitos do tratado orçamental. Conseguirá o PS colocar aí o BE e o PCP do seu lado? Por alguma razão, partidos como o comunista se tem mantido de fora das opções governativas ao longo dos últimos 40 anos (mesmo das vezes em que o PS teve maioria relativa e teria tudo a ganhar com um entendimento com o PCP). Acredita-se agora que como num qualquer conto de fadas, partidos com esta rigidez ideológica, mudem da noite para o dia?

Posso voltar a enganar-me, mas considero que o cenário mais expectável será o Presidente da República nomear um governo de gestão ou avançar para um governo de iniciativa presidencial, na medida em que mesmo alguém tão encurralado como Costa não quererá correr o risco de fazer implodir o PS, o que acontecerá se não forem bem medidas as prerrogativas da inclusão de BE e PCP numa alternativa de governo. Ambas as opções serão desastrosas. E aí, começará uma das maiores farsas políticas jamais vistas em Portugal, na medida em que todos os partidos de esquerda se virarão com ferocidade e revolta para Cavaco Silva, acusá-lo-ão (já começaram a fazê-lo – palavras como as do deputado socialista João Galamba apelidando a principal figura de Estado de golpista são reveladoras do que aí vem) de anti-democrático e de não respeitar as instituições. E quando isso acontecer e esse bode expiatório for criado, tudo será feito para que se esqueçam as promessas de António Costa de que não inviabilizaria um governo da coligação se não tivesse ele próprio uma formação de governo que fosse garantia de estabilidade. Esquecer-se-ão as promessas de que não iria buscar uma maioria negativa no parlamento. O que não será de estranhar atendendo a todos os ziguezagues e mentiras que nos tem sido contadas desde que Costa defenestrou Seguro. São hoje bem claras as razões porque tal aconteceu. A tralha socrática continuava em força na estrutura socialista e exigia o poder e não vitórias poucochinhas. Portanto, esta derrota nada significa se puder ser transformada numa vitória, custe o que custar. Assim pensará Costa e assim lhe exige a tralha que o sufoca. E mais agora que o mentor lhe viu serem restituídos todos os direitos de cidadão livre e estará sedento de fazer os seus ajustes de contas. Quanto aos outros, que nada tem a ver com isso, os seguristas e os independentes sérios que foram seduzidos para este projecto audacioso, esses estarão por certo sequestrados. Certos que o medo da incerteza será sempre pequeno, basta que seja intenso o cheiro a poder!

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