Editorial

“Ativistas Climáticos”: Tragam mais ativistas antes que seja tarde

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Ativistas precisam-se porque o mundo, a continuar assim, está condenado a chegar a um ponto sem retorno.

Finalmente temos jovens ativistas que saíram da passividade a que muitos os colaram, para se manifestarem contra algo que consideram inaceitável, o que está a acontecer ao planeta.

neste caso, os manifestantes queriam reverter a subida do aquecimento global com propostas concretas, como o fim dos combustíveis fósseis até 2030. Estando ao mesmo tempo a decorrer no Egipto a Cimeira do Clima – COP27. Não há coincidências.

Ficaram conhecidos como “ativistas climáticos”.

Primeiro foi em duas escolas secundárias e depois aconteceu em quatro faculdades de Lisboa.

Primeiro parecia ser uma coisa de miúdos mas depois passou para os mais graúdos.

Ficou por aí mas devia ter contagiado a sociedade civil.

Logo apareceram críticas de muitos lados, a pôr em causa a forma menos ordeira destas iniciativas e algumas incongruências.

Umas bem argumentadas, em nome de um protesto mais civilizado e coerente, mas acredito que a maioria que fez estas críticas tinha como propósito desviar a atenção do centro da questão. Pegaram na forma para desvalorizar o conteúdo.

É claro que sempre podemos arranjar argumentos para estar a favor ou contra.

Nestas manifestações por causa do clima é praticamente consensual, por parte da ciência e dos cientistas, que o mundo está a aquecer e com consequências graves para a população mundial.

O degelo dos pólos e glaciares não mente, a geografia não mente e as novas doenças não mentem. Os satélites, os medidores da tensão arterial ou os cancros da pele não são ideológicos.

Apesar de tudo ou de tantas evidências, há sempre quem arranje razões para criticar estes jovens e quase sempre não se prendem com o motivo do protesto, mas sim como eles se vão contradizendo ao não abdicarem do seu modo de vida.

É um argumento fácil e fácil de observar, mas é preciso perceber que estes jovens nasceram numa sociedade que não sabe viver sem o petróleo ou o lítio. Estes jovens nasceram com o telemóvel no biberão, e ver alguns a protestarem e a tirarem fotos em simultâneo com algo altamente poluente é logo visto como uma contradição. Só que não podemos generalizar e temos que perceber que todos esses apêndices tecnológicos são uma extensão das suas próprias vidas. São hábitos que estão enraizados e que muitos nem dão conta de onde e como se obtiveram os materiais para os construir.

Se assim fosse todos neste mundo perdíamos a legitimidade para falar fosse do que fosse, porque a maior parte daquilo que compramos tem uma proveniência imoral. Vem de países onde se explora a mão-de-obra, muita infantil, como o Camboja ou se polui sem regras como a China. Mas foi o mundo dito civilizado que fez desses países as fábricas do mundo e não se importou com isso, porque o dinheiro falou mais alto.

Ninguém de repente pode ficar nu ou faminto para poder sair à rua e dizer que não concorda com os caminhos que o mundo insiste em levar, até porque foi nesse mesmo mundo que nasceram e criaram hábitos que, de forma inconsciente, fazem parte do dia-a-dia. São naturais, tal como o ar que respiramos, e ninguém pode parar de respirar para se achar no direito de protestar contra a poluição atmosférica, por exemplo.

Só que para mim o centro da questão nem são as alterações climáticas, o motivo das manifestações, nem exigências feitas, que não podem ocorrer da noite para o dia, pois o mundo que se move a petróleo pararia.

O centro da questão e que todos devíamos aplaudir é que finalmente há quem não se conforme e não se deixe fazer.

Independentemente de estarem certos ou errados o que me alegra é saber que a passividade pode estar sentada num boião de pólvora.

Um alerta para os governantes que julgam que tudo podem e tudo fazem a seu gosto porque ninguém vai aparecer para os travar.

E há muito para protestar: economia, direitos no trabalho, saúde, educação…

Pena tenho que mais ativistas como estes não apareçam por outras causas, que pouco me importa que estejam certas ou erradas, a não ser que se trate de questões em que se apoie uma guerra imoral como a da Rússia contra a Ucrânia, só para citar um exemplo, em que não se pode ficar do lado de um muro que todos os dias mata inocentes. Também aqui há linhas vermelhas, o que não foi o caso.

Pois a boa notícia é saber que pode sempre aparecer alguém para mostrar descontentamento, principalmente alguém que os governantes tinham dado como adormecido, ou melhor, controlado.

E o mundo nunca seguiu os melhores caminhos com um povo doutrinado e submisso.

Bem haja para quem não se deixa adormecer enquanto o Titanic navega num mar em que ele próprio semeia icebergues.

Bem haja para quem não quer assistir ao barco a afundar-se enquanto a orquestra toca.

Bem haja, mais ativistas precisam-se!

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