Autor de Melgaço lança obra devastadora sobre a sua experiência no seminário

Claustros de um Seminário

Violações, pedofilia e suicídios numa obra em que o fim, para ser bom, teve de ser ficcionado

Violações, pedofilia e suicídios numa obra em que o fim, para ser bom, teve de ser ficcionado

É de Melgaço, terra de onde saíram muitos e dedicados seminaristas, entretanto párocos, que saiu também uma das obras mais devastadoras das vivências dos adolescentes no seminário, ao longo dos anos de formação.
Francisco Freire é o nome que se assina na capa d’“O Seminarista”, um romance que traça ao longo de 214 páginas o percurso de vida da personagem de Nelo Quintas, o devoto seminarista, mas não é o verdadeiro nome do autor. Já se explica.
O “Minho Digital” esteve à conversa com o autor, que publica sob o nome Francisco Freire um testemunho que diz ser “noventa e nove por cento verdade” daquilo que terá vivido no seminário em meados dos anos sessenta do século XX. Em “O Seminarista”, Francisco Freire pseudónimo conta através de Nelo Quintas uma realidade que “demorou trinta anos” a passar para o papel.
Natural de Melgaço, minhoto na ampla acepção da palavra, o autor revela pela primeira vez, desde o lançamento do livro – edição Clube do Autor – o cenário real dos actos de violência física e psicológica a que alega ter sido sujeito durante os sete anos em que foi seminarista no Seminário Menor de Braga.
Francisco Freire garante que o relato é de uma realidade que se esconde por entre uma fina capa de ficção, e mesmo a liberdade criativa terá sido compilada para libertar a personagem de uma existência demasiado cinzenta. A personagem liberta-se, encontra a sua forma de encarar a fé, já o protagonista desta história não segue as mesmas pisadas.
Mas o que traz de novo “O Seminarista”, num momento em que as seitas religiosas são notícia pela austeridade dos seus ensinamentos e até desvirtuando alguns ensinamentos de uma doutrina que deveriam cumprir?
Para já, é um exercício de purga a que o autor se propõe e que vem amadurecendo ao longo das últimas décadas, ainda os casos religiosos estavam longe de abrir noticiários. Afinal, a história começa, para Nelo Quintas (e para o autor, que não identificamos) em 1966. “Naquele tempo, uma criança da aldeia ia para aquela casa [seminário] a pensar que iria para uma casa religiosa e nunca para um sitio onde fosse maltratado, física e psicologicamente”, indica.
Estes “noventa e nove por cento de verdade” que terá vivido no Seminário Menor de Braga e agora descritos no livro, lançado em Março de 2015, caem com alguma “naturalidade” numa sociedade mais habituada a este tipo de relatos, mas o autor diz que “há que falar disto. É preciso contar e analisar a frio, para percebermos melhor certas coisas”. “Dantes se calhar até era bom, havia que bater nos miúdos para eles serem homens, mas quase cinquenta anos depois do seminarista (as vivências do autor, enquanto aluno do seminário) ainda acontecem estas coisas, portanto ler “O Seminarista” e pensar sobre o tema é muito importante, porque ainda há muitas coisas a corrigir nestas sociedades que embora tenham esta bandeira do apoio humanitário e de bem fazer, não é tanto assim”, sublinha o autor.
O relato é um desfilar de penas, passagens que reflectem a desilusão sentida pelo pré-adolescente que, com 12 anos de idade, imaginava o seminário enquanto templo de “espiritualidade e preservação os direitos humanos” e nunca enquanto antro de violência “física e sexual”. “Demorei trinta anos a escrever este livro, a amadurecê-lo e a perceber se havia em mim uma razão para poder pegar neste texto e propo-lo a uma editora”, explica.
Por isso, o texto/sinopse do livro alerta para o que se vai encontrar: “O Seminarista é a história de um rapaz aldeão, filho de uma família pobre, num seminário. É aí que percebe que a vida santificada, tão apregoada nos pergaminhos da instituição católica que o tinha acolhido, não correspondia à verdade. Descobriu crimes hediondos praticados intramuros: violações, pedofilia, lenocínio, paixões proibídas, suicídios”.
Ainda que o livro ateste uma experiência desencantada na preparação do aluno para a prática religiosa, o autor não se desencantou das suas crenças ou até das bases formadoras da instituição, que a revelação inédita nos situa em Braga. “Eu devo muito ao seminário enquanto instituição, mas não devo nada a todas aquelas pessoas que foram meu inimigos figadais lá dentro. Tive grandes professores, grandes mestres, mas não era com esses que eu convivia, esses não eram os meus inimigos. Aqueles com quem eu convivia todos os dias, que substituíam os meus pais e a minha família é que eram os meus inimigos”.
Quanto pode custar, identificando pela primeira vez a sua origem e o seminário onde alega terem ocorrido práticas ‘pouco católicas’, ainda que a distância temporal possa conceder a tolerância da instituição e da religião visada? “Às vezes diz-se que mais vale um cobarde vivo do que um herói morto, e não pode ser assim. Por vezes, o sangue que jorra da cabeça no cepo também lava muitas feridas e vai curar muitos erros. Há coisas escondidas que não podem continuar escondidas, senão vai continuar a haver violadores, violência domestica, padres falsários, sem sabermos porquê. É preciso isto para que refictamos sobre estas situações todas”, admite o autor.
“Às vezes fala-se da falta de vocações, e para mim a [origem da] falta de vocações está aqui, nisto. Eles não evoluíram, não souberam lidar com as pessoas como pessoas e isto aconteceu”, observa ainda o autor, que admite ainda ter fé, que saiu “inabalada” desta experiência.

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