À Aventura das Palavras

Desde jovem que me lancei ao trabalho com as palavras.

Primeiro em jornais diários, no desempenho de funções específicas, depois, aos poucos, dando vida às minhas crónicas e outros textos sempre sintéticos, todos eles fruto da minha observação da vida da sociedade – da portuguesa e das de outras latitudes – que, por um motivo ou outro, se me iam afigurando merecer um simples apontamento ou uma análise critica mais profunda.

Mais tarde, já ultrapassados os primeiros anos do novo século, pude então debruçar-me com mais tempo sobre a poesia, que até aí lera ocasionalmente, mas nunca me atrevera a escrevê-la. Lembro-me como nasceu em mim esse emergente impulso. Ora vejam como o descrevi num texto que produzi uns anos depois a bordo do meu barco:

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 Foi no mar que tudo começou;

 A mão que me pedia para escrever,

 os olhos, cheios de brumas,

que revelavam os versos que a alma ia vertendo,

os cheiros da maresia e de peixe acabado de pescar,

e o embalo da mansa perturbação da água

pela brisa do norte, chegada em murmúrios.

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 Foi neste mar de Portugal,

 ao largo das alcantiladas penedias da Roca,

 onde a terra penetra fundo no Atlântico,

 que me senti, pela primeira vez, Poeta.

 (…)

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Começava aí o que viria a ser a minha verdadeira entrega «À Aventura das Palavras».

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Na realidade, enquanto que para escrever uma crónica, um conto, um artigo de qualquer natureza, é preciso amadurecer um ideia-âncora, para fazer nascer um poema ou um texto poético basta-nos uma palavra, uma emoção, uma visão, uma fugaz memória para que logo surja uma inspiração que nos leva ao desfrute de uma dos maiores prazeres que um amante das letras pode experimentar. Falo por mim, naturalmente. Depois, tudo depende de onde nos leve a imaginação, que vai servir-se de um razoável domínio do vocabulário do nosso idioma e, sobretudo, do talento do autor para enriquecer os seus versos com as metáforas mais adequadas à comunicação que se pretende, sim porque escrever boa poesia é também saber fazer dela uma boa peça de comunicação.

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Quantas vezes me bastou um passeio no terraço do apartamento em Bogotá, uma palavra escutada na rádio ou na televisão brasileira, a visão de algo que aconteceu na rua frente à minha janela, em Sintra, para que logo me surgisse a tão suspirada (e bendita) inspiração.

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Mas, para que nos apetrechemos da bagagem suficiente para levar por diante esta aventura, é preciso, é mesmo indispensável ler poesia, aprender com os mestres, com os imortais e também com os melhores contemporâneos, e fazer dessa prática um hábito quotidiano. Assim o fiz durante anos, e ainda hoje o faço sempre que me é possível e que a disposição a tal me leve.

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Para que hoje tenha o à vontade de continuar esta aventura com as palavras muito tem ajudado o que aprendi sobre as técnicas de comunicação, a minha capacidade de observação dos sentimentos e comportamentos humanos, que fui desenvolvendo, de par com as reflexões a que me fui habituando, e, naturalmente, todos estes anos de experiência e de convívio com a escrita, sem que jamais tivesse de recorrer-me de alguma musa artificial com o fazia no século XIX o grande Arthur Rimbaud, esse prodígio da poesia que usava o absinto para viver mais intensamente os seus êxtases criativos.

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Assim me despeço de vós:

Para lá da vidraça, a noite mostra-se indecifrável como a bruma que paira rasando a grama do parque e os vultos das árvores recortados na lua. Comigo, a querer adormecer, está o medo de reviver memórias que não quero reviver, enquanto a alma permanece genuflectida junto à cama que me aguarda.

meugesa1@gmail.com
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