BELEZA E ARTE NATALÍCIA

José Rodrigues Lima

(Historiador)

No tempo natalício, o filme da vida aviva-nos os momentos de ternura e afetos misturados com gestos simbólicos de dádivas e reciprocidade, de estima e solidariedade…

E a festa acontece no mais íntimo do nosso coração, pois estamos com os nossos e irmanados com todos porque ”ET INCARNATUS EST” – Jesus  encarnou, e mostrou-se a todos, oferecendo a salvação do nosso BOM  DEUS, presente na História.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

 

É fundamental para a fé bíblica a referência a acontecimentos históricos e reais. Ela não narra lendas como símbolos de verdade que estão para além da história, mas fundamenta-se na história que  aconteceu sobre a superfície desta terra.
O “factum historicum” não é, para ela, uma chave simbólica que se pode  substituir, mas base constitutiva: “ET INCARNATUS EST” – Jesus  encarnou. (In “Jesus de Nazaré”, J. Ratzinger, 2001, 16).
Porque é Natal, há sinais de festa nas cidades, nas aldeias, nas  povoações isoladas, nos sítios ermos, nos lares,…
As iluminações natalícias já estão acesas e as lâmpadas multicores  brilham nos espaços públicos, nas habitações, nas árvores. Os  presépios ocupam um lugar de destaque nos templos, nas praças e nas
residências familiares.
Os sons natalícios invadem os ambientes de tudo e todos. As partituras  de compositores clássicos, contemporâneos e tradicionais são divulgadas pelas estações radiofónicas e televisivas.
Os concertos de Natal congregam orquestras e cantores. Ouvem-se vozes  de crianças e adultos anunciando a grande mensagem – glória a Deus nas  alturas e paz na terra aos homens por Ele amados.
Alegre-se o Céu e rejubile a Terra.

O presépio mereceu atenção de Fra Angélico, Ghirlandajo, Jerónimo  Bosch, Van de Goês, Leonardo da Vinci, Durer e outros notáveis artistas.
Merecem referência os famosos presépios do nosso Machado de Castro,  Alexandre Guisti, e António Ferreira, bem como todos os barristas,  inclusivé os de Barcelos, abundantemente coloridos, onde não faltam os carros de bois e pastores, dando lugar ao imaginário dos artesãos.
Todas as igrejas do Alto Minho armam o presépio na igreja paroquial, contribuindo para o encanto das crianças e dos adultos. As imagens do Menino Jesus para sair no andor, transportado pelas crianças, aquando as procissões festivas, são uma constante em todas as paróquias.
Nas terras minhotas existem diversas manifestações artísticas referentes ao mistério do Verbo Encarnado.
Assim, são de referir o fresco representando os três Reis Magos (Século XIII/XIV) na igreja paroquial de Chaviães, Melgaço, e a Sagrada Família em marfim, na aldeia de Luzio, concelho de Monção.
No concelho de Viana do Viana do Castelo, os presépios de Machado de Castro em S. Lourenço da Montaria, a Senhora do Ó ou Senhora da Expectação no Mosteiro de Carvoeiro, a Senhora do Parto na freguesia de Nogueira e a Senhora do Leite em Vila do Punhe são outros testemunhos.

 

IMAGENS DE MALINES
Segundo Bernardo Távora, a cidade de Malines (Bélgica), a muitos títulos ilustre do Bravante medievo e renascentista, foi com Antuérpia e Bruxelas um importantíssimo centro de artesanato artístico de
imaginária sacra, destinado ao Ducado da Borgonha, aos países  limítrofes e à exportação.
As oficinas de santeiros não só reproduziram os célebres retábulos esculpidos, como sobretudo séries inumeráveis de pequenas estatuetas de madeira policromada e dourada, destinadas ao culto doméstico e conventual da Flandres e estrangeiro.
Os retábulos e as imagens diversas não eram comercializados sem a vistoria prévia dos representantes das corporações de escultores e pintores que, com as suas marcas e punções, abonavam a qualidade do  material e a perfeição artística das obras.

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Foi, de modo especial, após o casamento de Isabel de Portugal com Filipe-o-Bom, em 1430, que comerciantes portugueses se estabeleceram em Antuérpia. Portugal vivia no século XVI dependente das importações da Flandres desde o produto mais comezinho e essencial, à mais rica ou requintada obra de arte, procurando copiar a arte da Borgonha.
A Casa Real, os nobres, conventos e igrejas encomendavam lá as mais famosas obras de arte. Por cá, andaram também iluminadores, músicos, entalhadores, escultores e imaginários, deixando obras notáveis.
Deve-se ao inventário realizado por Willy Godenne o conhecimento de vários exemplares denominados como “Imagens de Malines”.
Entre as imagens sacras propriamente ditas, que Godenne refere, destaca-se a de Nossa Senhora com o Menino no regaço, seguindo-se a conhecida representação, dita de Sant’ Ana Tríplice, tendo ao colo Nossa Senhora e o Menino de Jesus.
Alude-se, no referido Inventário, ao grande número de imagens do Menino Jesus colectados pelo brica-braque no Vale do Lima. Teriam provido de numerosas capelas e solares existentes, importadas através do porto de Viana do Castelo, de grande importância na época e que fazem parte de uma coleção do Museu de Arte Antiga, de Lisboa.
“Nos Meninos Jesus, vincam-se as proporções cunhadas e rebaixadas: são iguais a altura da raiz do pescoço ao púbis e deste aos pés. As anatomias rechonchudas; o ventre proeminente; as coxas exageradamente roliças, femininas. As nádegas, pelo contrário, minúsculas e apertadas, parecem contraídas…” – assim descreve Willy Godenne.
O cabelo, encaracolado, projecta-se em torno da cabeça, numa orla salientada.
As referidas imagens de Malines são de uma beleza impressionante. No antigo Mosteiro Beneditino de Sant’ Ana, hoje Congregação da Caridade, na cidade de Viana do Castelo, podemos contemplar, com olhares artísticos e místicos, um Menino Jesus, uma Sant’ Ana Tríplice e uma imagem de Nossa Senhora com o Menino no regaço, esculpidas segundo os cânones de Malines.

Por certo, recordaremos de Gil Vicente:

Belém, vila de Amor,
Da Rosa nasceu a Flor:
Virgem Sagrada.
Em Belém, vila de Amor,
Nasceu a Rosa do Rosal:
Da Rosa nasceu a Flor,
Para Nosso Salvador:
Virgem Sagrada.
Nasceu a Rosa do Rosal,
Deus e Homem Natural;Virgem Sagrada.

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