BICADAS DO MEU APARO – Professor: material escolar barato

Embora seja aposentado pelo Estado, não o fui como professor, mas gostaria de ter sido. Desde sempre admirei os professores pela dedicação dispensada e por uma certa dose de prestígio que tinham: prestígio testemunhado pelos alunos e pelos pais dos alunos.

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Em qualquer profissão há excelentes profissionais e há os outros. Conhecem-se os grandes Mestres do Ensino, da Saúde e da Ciência, da construção civil ou dos oleiros que trabalham o barro. O mundo tem de tudo: excelentes, bons e maus profissionais.

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Pelo que, o professor – é sobre estes profissionais que hoje escrevo – é, a par dos mais responsáveis da Igreja católica, o mais badalado, o mais ostracizado, o menos admirado e aquele a quem tudo se exige e nada se lhe dá.

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Quem não recorda a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, que desrespeitava permanentemente os professores, que sonsamente os desautorizava, que implementou medidas nas escolas e nas carreiras dos professores e que tiveram impactos negativos nesses profissionais e nos alunos?

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Quem desconhece a concretização da reforma antecipada de professores, para fugirem à Ministra? Quem desconhece o nulo interesse pelo Ensino em Portugal, por parte dos alunos universitários? Quem desconhece a burocracia que é imposta aos professores, os inventários e os contactos que têm de fazer aos familiares de alunos, serviços que não me parecem de quem ensina, mas serviços que seriam do foro administrativo?

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Como pode o professor ensinar, preparar aulas e testes se lhe é exigido que seja, além de professor, seja ainda “material escolar” do mais barato que há? Maria de Lurdes Rodrigues, que colocou os professores a rastejar como as cobras na selva, escorraçou-os, desvalorizou-os e, tal falta de senso deu origem a que os alunos não “sintam o professor”, o agridam física e verbalmente, como acontece assiduamente e não haja professores para todos. A senhora ministra referida, alertada de os professores estarem contra si quando governava, respondeu: “perdi os professores, mas ganhei a população”. Está tudo dito desta democrata socrática.

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Não há professores para todos os alunos e há professores que não conseguem ser colocados para exercerem. Mas então os alunos não têm pais? Os pais dos alunos pactuam com esta forma de ensinar, com este ambiente de desolação e não exigem aos governantes que ponham fim a tanta anormalidade? Os pais dos alunos em Portugal marimbam-se para que seus filhos tenham professores desiludidos, desinteressados e sem incentivos para progredir na carreira para a qual se especializaram?

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Nuno Crato, que também foi ministro da Educação, limitou-se a colocar panos quentinhos nos problemas do Ensino, prometeu mundos e fundos e percorreu milhares de quilómetros pelo país a sorrir e a fazer promessas. Foi o ministro que mais falhou na colocação de professores, que nada fez pela valorização da classe e pelo interesse dos alunos na aprendizagem, ganhando até a mais baixa popularidade, em comparação com todos os seus antecessores. Marques Mendes, do PSD, referindo-se a Nuno Crato, foi peremptório: “porque é que Nuno Crato não se demite?” E vários partidos perguntaram o mesmo, quando de início do seu mandato havia toda uma esperança de que Crato iria ser dedicado, justo e competente.

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Pelo que se afirma e pela realidade que se respira na vida de professores e de alunos, como incompetência dos governantes desde há quinze anos, como violência nas escolas por parte dos alunos contra professores e funcionários, não é de estranhar ouvir-se os pais dos alunos dizerem que o professor é jovem, não tem experiência; dá muita matéria, não tem dó; dá pouca matéria, não prepara os alunos; Exige, é rude.

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Os alunos, estes alunos do século XXI – salvo as devidas excepções – vendo os seus professores serem material escolar barato na óptica e na política destes governantes de segunda, de uma terceira categoria, também dizem que o professor não conversa, é um desligado; conversa muito com outros professores, está a malhar nos alunos; está constantemente a chamar a atenção, é um grosseiro; não chama a atenção, não se sabe impor, etc. e por aí fora.

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Para estes políticos-de-feira, os professores não merecem respeito e muito menos serem acarinhados. Fazem-me lembrar estes senhores de esse pequeno, o que o povo diz dos actuais políticos jactantes: “eram piolhos a viver entre o lixo – agora são piolhos a viver numa camisa lavada e, não há quem os segure”.

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Eu teria gostado de ter sido professor, porque nunca esqueci que foram eles que me ensinaram a ler.

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* (O autor não segue o novo Acordo Ortográfico)

asoares@minhodigital.pt
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