Editorial

CARTA DE UM FURRIEL AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Manso Preto

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Director / Editor
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Carlos Ferreira

Furriel Miliciano

 

Há mais de seis meses que enviei esta carta ao Senhor Presidente da República portuguesa, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa. E sabem qual foi a resposta que tive? Foi ZERO!

Por tudo isto e por muito mais, acredito que perdemos o comboio, enquanto éramos novos e andámos a tratar das nossas vidas particulares. E agora, que todos temos mais tempo, é que nos lembramos de que fomos combatentes.

Exmo Sr. Presidente:

Permita-me que o trate sem grandes “salamaleques”, mas cordialmente, como aliás V. Exa tem feito, para já, com todos os portugueses.

Aproveite ao máximo a oportunidade que os seus compatriotas lhe deram quando o elegeram para “passear” cá dentro e até lá fora, divirta-se e cante, dance dê beijinhos a brancos, pretos, vermelhos e amarelos, vá assistir ao final da “volta”, aos jogos da selecção, à romaria da Srª da Agonia, às Olimpíadas no Brasil, aos festivais da Zambujeira do Mar e do Super Bock Super Rock, vá ver as cagarras das desertas e as gaivotas das Berlengas, desfile no Sambódromo, veja o concerto da Mariza no Meo Arena, os saltos para a água, nas Cataratas do Niagara, a peregrinação anual dos emigrantes a Fátima, a corrida de cangurus no norte da Austrália e vá à canonização de Madre Teresa.

Sabemos, pelo que o senhor nos disse (embora não acreditemos muito), que só quer permanecer cinco anos em Belém. A ser assim, tem de aproveitar bem o tempo, pois cinco anos passam depressa para quem tanto preza o “folguedo” (como diz o povo que o elegeu). “GOZE À GRANDE E À FRANCESA” mas, POR FAVOR, QUANDO PUDER — e aqui é que está o problema, pois não sabemos se alguma vez PODERÁ —, pare um 1 dia (UM), ou até UMA HORA, que seja, para PENSAR na situação de muitos daqueles, que em plena pujança, das suas vidas, quando poderiam decidir que rumo dar às suas carreiras profissionais, ou até se deveriam ou não casar, foram OBRIGADOS a “PARTIR” rumo ao desconhecido para SERVIR A PÁTRIA e que hoje, com mais de 65 anos, estão esquecidos e votados ao abandono por TODOS os governos, pós 25 de Abril, os mesmos governos que TODOS OS DIAS assistem, com POMPA E CIRCUNSTÂNCIA, à chegada, ou à partida de meia-dúzia de profissionais, ou de “mercenários”, que servem em zonas de guerrilha no planeta e que “voluntariamente” se oferecem para outras “comissões”, num vai-vem patriótico ou de dólares, e que até têm “por lá e no Natal”, a visita “consoladora” de um ministro, ou de um secretário de Estado qualquer!

Tudo o que esta democracia inventada, em Abril de 1974 conseguiu, até agora, para “compensar” os milhares de jovens “atirados” para a guerra do Ultramar, foi atribuir-lhes uma certa ESMOLA ANUAL (somente uma vez por ano), de 150 € aos que estiveram em zonas de “conflito”, já que a maioria recebe apenas 75 €, ou mesmo 50 € e, REPITO, uma vez por ano. De certeza absoluta que a maioria dos portugueses não sabe disto!

Senhor Presidente, o dinheiro que o Estado despende NUM ANO, com estes combatentes que “ainda estão vivos” mas que são cada vez menos, se calhar é inferior ao que o senhor gasta em dois dias com a sua “pandilha de lateiros”, quando vai de “negócios” à Grande Muralha da China, a Nova Iorque, às pirâmides de Gizé, a Paris ou a Machu Picchu — isto já para não falar nos milhares de subsídios atribuídos a umas etnias e outras tantas gentes para não “mexerem uma única palha”. E 150 € por mês só para falar nos que, como eu, têm esta pensão “máxima”, que dá 41 cêntimos POR DIA, o que significa termos de pedir “algum” emprestado se nos apetecer tomar UM café.

Tudo isto, caro Senhor Presidente, são histórias que V. Exa bem conhece e sobre as quais PEÇO P.F. que se debruce, já que TODOS os seus antecessores se estiveram pura e simplesmente MARIMBANDO para elas, dada a nossa idade. Como disse, somos cada vez menos e chegará o dia, em que, já não “pesaremos”, porque deixámos de existir!

Não lhe venho pedir qualquer tipo de condecoração ou comenda. Essas, deixo-as para os atletas pagos a peso de ouro, ou para empresários, políticos e ex-ministros de reputação “muito duvidosa”. Será que já é pedir demais para que seja atribuído um subsídio mensal, de pelo menos 100 €, a todos os combatentes que vivem no limiar da pobreza, com pensões de reforma abaixo dos 500 € e que tudo DERAM, ao País?

Senhor Presidente, havia muitas personagens, de vários quadrantes políticos, que o apelidavam há bem pouco tempo de ser um ‘fala-barato’. Não votei em si, mas reconheço a sua simpatia e o seu esforço para tentar agradar a gregos e troianos. O senhor é o Presidente de Todos os Portugueses, chefe supremo das Forças Armadas e figura máxima do nosso País. Ao exemplo de outros países e outros presidentes, é TEMPO de puxar dos galões e “AJUDAR” quem tudo à Pátria Deu… DEU A SUA VIDA! Um país sem memória, é um país morto.

Carlos Ferreira, Furriel Miliciano, com 37 meses ao serviço da sua amada Pátria, 13 na metrópole (Portugal) e 24 na então Província Portuguesa de Moçambique.

P.S.: Peço a quem ler esta mensagem, combatente ou não, que esteja de acordo quanto ao seu conteúdo, o favor de a partilhar com os seus amigos e conhecidos. Muito Obrigado.

 

jornalista.manso.preto@gmail.com

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