«Conflictualidade, arrogância e intimidação», foram para Jorge Fão as características do executivo da Câmara PSD de Caminha

Foram 10 anos como deputado na Assembleia da República e que agora terminaram em virtude dos resultados eleitorais do PS nas últimas legislativas.

Jorge Fão, numa longa entrevista ao Minho Digital, recorda os inícios de um jovem na política, as conquistas em que participou em nome da defesa do distrito de Viana do Castelo. Este ex-deputado também não deixou de referir que a tão falada ponte de ligação de Caminha a La Guardia é incomportável e pelas mais variadíssimas razões. Afirma-se crente de que o ferry-boat pode fazer muito mais.

A sua opinião sobre os anteriores membros do executivo da Câmara Municipal de Caminha são no mínimo pouco favoráveis e é ciente dos adjectivos que utiliza para os classificar. E promete, também, continuar participativo na política local.

Minho Digital (MD) – Vamos recuar aos tempos de juventude. Nesse tempo, o jovem Jorge Fão tinha por ideal seguir uma carreira política?

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Como pode calcular, infelizmente porque os anos vão passando, já não me é assim tão fácil recuar aos tempos da minha juventude, contudo posso dizer-lhe que nesse época e em consequência dos efeitos da Revolução de Abril vivia-se na sociedade portuguesa e em particular na juventude estudantil uma vontade férrea de intervir civicamente, de participar na construção do regime democrático, de afirmar a importância do poder local, de expressar livremente pensamentos, discordâncias e opiniões políticas, de reforçar o movimento associativo e organizar as estruturas de juventude dos partidos políticos. Nos meus 17, 18, 19 e seguintes anos participei um pouco em todas essas dinâmicas sociais e políticas o que muito me ajudou a construir o conceito de cidadania ativa.

Nesse tempo, o meu desejo era  intervir,  participar,  ser parte da associação de estudantes, da juventude socialista, dos movimentos juvenis, das associações culturais, desportivas e recreativas da minha  terra, da Assembleia de Freguesia, etc.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Nessa época não se premeditava a construção de uma carreira política, era genuína e desinteressada a disponibilidade para as causas do interesse coletivo que visassem o bem estar da Comunidade.

Lamentavelmente a prática dos valores morais e éticos, a defesa de ideais políticos e da forma de ser e estar na vida pública tem vindo a degradar-se com o decorrer dos tempos.

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MD- Quais foram as ânsias que o levaram a entrar na política?

Não existiu qualquer ânsia, nem nunca esse foi o meu estado de espírito, relativamente à entrada na vida política, isso tão só resultou das oportunidades que foram surgindo, das solicitações que fui  recebendo e da disponibilidade que fui manifestando para intervir no processo de construção do regime democrático.

Progressivamente, fui trabalhando na organização do funcionamento do Partido Socialista, participando nos vários patamares dos órgãos do Poder Local ao nível da freguesia, do Município e do Distrito até ter sido eleito Deputado à Assembleia da República. A par  da preparação  de uma carreira profissional, este foi um caminho progressivo, vivido e consolidado degrau a degrau mas com muito ainda para aprender e aperfeiçoar nos meus desempenhos como cidadão.

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 MD- Durante quanto tempo foi deputado da Assembleia da República?

Durante as X, XI e XII legislaturas, concretamente entre Março de 2005 e Outubro de 2015.

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MD- A sua saída foi uma opção sua ou do partido?

A minha saída da Assembleia da República foi consequência dos resultados das últimas  legislativas. O PS perdeu as eleições, só elegeu dois Deputados pelo círculo de Viana do Castelo e, por isso, tendo sido opção do meu partido que eu ocupasse o 4º lugar na lista de candidatos, não fui eleito, terminando dessa forma o exercício das funções de Deputado.

MD- Nos tempos de deputado e pelo círculo de Viana do Castelo que conquista para esta região o orgulhou mais?

Felizmente entre 2005 e 2011, ao contrário do que aconteceu nos últimos 4 anos, foi possível obter dos governos de então respostas para resolver alguns problemas do distrito e satisfazer aspirações da população. Acompanhei politicamente todos esse processos, dialoguei com os nossos Autarcas, sensibilizei os decisores para a importância da concretização de muitos desses investimentos públicos, foi, por isso, um tempo de grandes realizações que contribuíram para o desenvolvimento social e económico da Região e para a melhoria do bem estar dos Alto Minhotos, destaco os mais significativos :

Recuperação da Estrada Nacional 13, construção das variantes de Ponte da Barca e de Arcos de Valdevez,  a ponte de Lavradas entre Arcos e Ponte da Barca, os acessos à Ponte de Vila Nova de Cerveira,  recuperação  da Ponte Eiffel  , o nó de Mazarefes, a rotunda norte de Viana, as passagens desniveladas à via férrea na Areosa e Darque etc. Mas existem muitos outros como por exemplo na área da educação,durante esse período tempo construiram-se  23 novos centros escolares, foi uma revolução completa na qualidade do parque escolar do 1º ciclo no distrito,  uma profunda intervenção na Escola de Monserrate e na Escola de Santa Maria Maior. Construíram-se 7 novos lares para idosos, 6 centro de dia, 11 creches, 2 novos Serviçoes de Urgência Básica em Monção e Monção e Ponte de Lima,  11 unidades de saúde familiar e entraram  em funcionamento 5 ambulâncias de suporte imediato de vida – SIV’s.

A conclusão da obra do Portinho de Vila Praia de Âncora; a recuperação do Hospital Psiquiátrico da Gelfa, 7 novas unidades de cuidados continuados, tudo isto em seis anos. E podia continuar a dar outros exemplos como foi o caso das Escolas Superiores de Desporto e Lazer de Melgaço e de Ciências Empresariais de Valença cuja construção foi decidida nessa época, diversos  campos relvados em vários locais; polidesportivos, etc, etc

MD – E sendo do concelho de Caminha qual foi?

Sem dúvida o prolongamento da A 28 até Lanhelas  e a construção do porto de pesca – Portinho de Vila Praia de Âncora.

MD – Agora que já não está na Assembleia da República qual é o seu objectivo como político?

Como militante do PS continuar a participar e intervir na atividade do meu partido aos mais diversos níveis e como cidadão, avaliando em cada momento a utilidade e o grau do meu envolvimento, desempenhar tarefas, trabalhar em projetos e exercer cargos onde impere o espírito de serviço publico à Comunidade e a promoção do bem estar comum.

MD – Podemos esperar uma candidatura sua à presidência da Câmara Municipal de Caminha?

Esse é um assunto que eu considero totalmente extemporâneo. A questão das próximas eleições autárquicas, que só terão lugar em 2017, é matéria que deve ser tratada no tempo próprio e este não é esse tempo. Dois anos em política pode ser uma eternidade, mas também é verdade que a oportunidade na política tem outros relógios e outros calendários que não são os do tempo comum.

Os mandatos em curso não cumpriram ainda sequer 50% da sua duração normal, há ainda muito trabalho pela frente e muitos objetivos para cumprir pelos atuais detentores dos vários cargos do poder local.

Agora é tempo de acompanhar a rápida formação de um Governo estável e competente para enfrentar os desafios e responder aos exigentes problemas da governação do país e tempo de preparar as eleições do próximo Presidente da República.

Essas é que são as questões políticas que atualmente convocam a minha atenção.      

 MD – Como deputado como viu que foram conduzidos os destinos do concelho?

No anterior executivo da responsabilidade do PSD a conflitualidade, a arrogância e a intimidação pautaram toda a atuação dos seus protagonistas.

Atualmente o concelho está a ser gerido por um executivo liderado pelo meu camarada Miguel Alves que, de forma empenhada, está a desenvolver um trabalho exigente, numa conjuntura financeira muito difícil, mas que está a seguir um rumo consentâneo com o programa eleitoral com que se apresentaram e ganharam as eleições autárquicas. Este é o primeiro mandato e ainda está a meio. Estou convicto de que muitas realizações irão ainda acontecer. No momento próprio far-se-á a avaliação  e o balanço final adequados.

 MD- Na sua opinião que obra ou obras são importantes realizar em Caminha?

Para além do constante investimento em obras de melhoria dos serviços e alargamento das respostas das infraestruturas de água, esgotos, limpeza urbana e arranjo dos espaços públicos, bem como da progressiva satisfação das Freguesias em termos de qualificação das suas redes viárias e equipamentos coletivos, considero muito importante e necessária a recuperação e modernização do edifício da Escola Básica e Secundária e a requalificação da frente ribeirinha/marginal de Caminha.

 MD -Sendo o actual presidente da Câmara do seu partido que opinião tem dele como líder dos destinos deste concelho?

Tenho uma opinião favorável do trabalho que tem realizado e uma avaliação positiva do empenho que dispensa à procura de soluções para os problemas e aspirações do Concelho.

MD – Sabe que há já algum tempo se ouvem vozes da necessidade de criar uma ponte em Caminha que ligue à La Guardia. O que pensa sobre isso?

A construção de uma ponte para ligação a Espanha/La Guardia é uma já velha discussão que sinceramente nunca me provocou grande entusiasmo porque entendo ser esse um projeto tecnicamente muito complicado, estética e paisagisticamente muito questionável, financeiramente incomportável sobretudo na conjuntura atual das finanças públicas e ainda no meu entendimento de muita duvidosa eficácia no objetivo principal de realmente trazer mais gente, movimento e efetiva animação da economia do concelho. È momento para evocar aquela clássica  dúvida sobre o efeito das pontes…”serão mais as pessoas que trazem ou a quantidade de pessoas que levam ?”

Melhorar a qualidade, regularidade e frequência das ligações por ferry-boat penso que poderá servir bem melhor esse principal objetivo de aproximação a Espanha e de animação da nossa atividade turística.

 MD – é dos que considera que o crescimento de Caminha passa pelo turismo?

A economia que é gerada pela multiplicidade das atividades turísticas é fundamental para alavancar o desenvolvimento do concelho de Caminha, tal como de toda a região do Alto Minho e do país em geral.

Preservar, Promover e Rentabilizar (PPR) da riqueza dos nossos patrimónios ambiental, cultural, histórico e paisagístico, a par da atração de investimento que possa criar emprego é fundamental para gerar riqueza, fixar população e qualificar o território do concelho.

MD – O país vive neste momento um ímpasse, devido ao resultado das eleições. Considera que isso é benéfico para o país e que atitude deveria ser tomada?

Passado o tempo das eleições legislativas, não se pode prolongar mais a indefinição e o impasse. É urgente a constituição e início de funções de um governo competente, com estabilidade política, garantia de apoio parlamentar, que valorize e privilegie a concertação social e que aposte de forma determinada, mas também consciente e realista, na mudança de rumo da austeridade cega e empobrecedora que tem sido seguida e aplicada pelo PSD e CDS-PP.

MD – Não acha que todas estas vicissitudes é que levam ao descrédito da classe política?

Concordo que situações como esta que estamos a viver de indefinição governativa  associada à crise financeira, perda de direitos sociais, escândalos de corrupção, desemprego, emigração, redução dos rendimentos das Famílias, aumento da carga fiscal ,etc, não contribuem em  nada para inverter este crescente  sentimento de desânimo e desilusão dos cidadãos para com o funcionamento das Instituições públicas, de descrédito do regime democrático e de diabolização da denominada classe política.

 MD – quais são agora os projectos do cidadão Jorge Fão?

De imediato  retomar, com a preocupação de ser útil e competente,  a minha atividade profissional, mas,  paralelamente,  manter-me partidariamente ativo, politicamente interventivo e civicamente participante.

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