CULTURA DESPORTIVA

Miguel Nogueira

(Psicólogo)

Cerca de meio milhão de portugueses pratica formalmente desporto, isto é, encontra-se vinculado a uma federação desportiva. Apesar deste número poder ser aumentado através da inclusão dos que fazem desporto de modo informal e regular, o dado estatístico diz-nos que Portugal continua na cauda da Europa, muito longe de países como a Dinamarca (mais de 50% de praticantes em relação à população total) e de Áustria, Alemanha e Holanda (países com taxas de pelo menos 30%).

Ao contrário do que muitos querem fazer pensar, o nível de desenvolvimento de um país, de uma região ou de um concelho não se mede apenas pela qualidade do trabalho e pelo nível cultural ou educacional dos seus cidadãos. O desporto como componente de um crescimento sadio e veículo para o desenvolvimento integral da criança e do jovem é tão importante como os restantes vectores, é um dos indicadores que melhor reflecte o avanço e a qualidade de vida de um povo e continua, entre nós, a ser violentamente negligenciado. Penso não ser necessário lembrar todos os benefícios da formação desportiva enquanto verdadeira escola de virtudes, capaz de incutir valores morais, sociais, físicos e psicológicos. O desporto é o contexto por excelência para a criança se conhecer melhor a si própria, desenvolver a auto-estima, estreitar laços de amizade e companheirismo, percebendo e transferindo para outras áreas da vida a cultura do esforço e a capacidade de superação, transcendendo sempre novos limites. Onde está a salvaguarda da formação desportiva? Quem são os responsáveis pelo facto das nossas crianças continuarem tão tenuemente identificadas e ligadas ao desporto? dos pais?, das escolas?, do movimento associativo?, das comunidades?, das federações?, das autarquias?

Poderão dizer-me que o cenário é mau ainda mas que apesar de tudo a tendência é de melhoria, na medida em que número de praticantes mais do que duplicou nas duas últimas décadas. Sim, é verdade! Mas o ecletismo continua a ser uma triste miragem, que reflecte a nossa cultura desportiva. Basta verificar que cerca de 1/3 dos atletas federados estão no futebol. E eu gosto de futebol, muito! Mas para quem é profissional da área desportiva ou simplesmente acha que o desenvolvimento desportivo da sua terra ou do seu país é importante, talvez devesse pensar um pouco nesta proporção! Afinal, porque acumula Portugal, sistematicamente, resultados globalmente discretos nas modalidades ditas amadoras nas competições internacionais? Porque será que o movimento olímpico no nosso país não tem a pujança e o significado que assume em países da dimensão do nosso? Será que pode haver verdadeiro olimpismo onde não existe cultura desportiva e a formação continua a anos-luz do que se faz nos países do norte e do centro da Europa?

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Há alguns anos atrás tive a oportunidade de trabalhar com atletas de elite, que integram ainda hoje o grupo que prepara as próximas olimpíadas. A mágoa que me expressavam pela impotência de acompanhar os melhores dos outros países, calculo que se mantém em muitos dos atletas mais capazes deste país. Só quem está dentro do contexto sabe aquilo que eles lutam, trabalham, se sacrificam. Para obterem normalmente zero de exposição mediática, pouco mais do que zero em termos de apoios técnicos, materiais ou financeiros, já que o retorno só acontece quando se alcança a medalha. Ou seja, apoia-se e glorifica-se depois, quando a realidade deveria ser a inversa: semear muito e com qualidade, para que a colheita pudesse ser maior! Respeitando que no desporto, tal como nas outras áreas, a alta competição e a profissionalização deve ser a rara excepção. Mas esses têm que ser excepcionalmente apoiados!

A realidade do desporto na nossa região é ainda mais preocupante do que aquilo que se vê no panorama nacional. Ilude-se quem pense o contrário, lá porque temos um medalhado olímpico, alguns clubes de excepção que trabalham bem a formação e são ecléticos e algumas infra-estruturas de qualidade! Basta que se compare o número de clubes e associações que temos no nosso distrito com os existentes em outros distritos da mesma dimensão! Será só porque o dirigismo e o associativismo voluntários estão em crise? Em tempos de aprovação dos orçamentos das autarquias para 2016, basta que se dêem ao trabalho de uma pequena espreitadela aos planos de intenções para o ano que vem. Grave, muito grave, continuam a ser as absurdas distribuições de apoios viradas quase e sempre só para o futebol, a pouco criteriosa priorização de infra-estruturas como a duplicação de ecovias e outras modas protagonizadas por gente que nada percebe de desporto e cuja sensibilidade e visão para a temática é nula, gritante noutros tempos pela proliferação de campos de futebol sintéticos e polidesportivos pelo distrito, só a título ilustrativo. Também salta à vista o gasto em estruturas que nunca foram utilizadas e que precisam mesmo de reabilitação sem quase serem inauguradas, como, por exemplo, um campo de minigolfe em pleno coração alto-minhoto. Quanto custaram esses investimentos ao contribuinte? Mas também o desporto escolar deveria ser discutido. Criado há mais de duas décadas como uma das excelentes medidas implementadas no fortalecimento do binómio escola-desporto, eu tive a oportunidade de fazer parte de equipas da minha escola ao longo de todo o secundário e posso dizer que foi uma experiência marcante do meu percurso escolar e da minha prática desportiva. Será que o desporto escolar, nos dias que correm, continua a ser acarinhado e a receber a importância que verdadeiramente merece?

geral@minhodigital.pt
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