Editorial

Das ridículas cartas de amor ao insípido amor líquido 
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Damião Cunha Velho

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Ao ouvir “Madame Nostalgie” de Serge Reggiani, senti saudade.

A saudade do tempo em que escrevia cartas, cartas de amor, com papel e caneta. Em que, para saber a resposta, tinha de esperar com ansiedade a chegada do carteiro, que demorava um tempo sem fim.

Agora fazem-se e desfazem-se amores por SMS, à distância de um Enter.

Antes havia um tempo para tudo. E a sensação com que fico, quando vejo os jovens a viverem num mundo em que tudo tem de ser rápido e sem muito trabalho, em que o namoro vai ficando adiado, é que o que devia mover o mundo, o amor, se transforme numa mercadoria e o namoro fique menosprezado, fora de moda. Aliás, no amor a paciência é uma virtude e a pressa um pecado demolidor sendo que o encanto está no processo.

De facto, agora o amor é assim. É um produto de consumo, como qualquer outro, que pode ser adquirido e descartado apenas com um click no telemóvel. Um produto pronto a consumir, que já não é construído pelos intervenientes. É o “Amor líquido” como lhe chamou o sociólogo polaco Zygmunt Bauman.

Eu também não sei bem se é amor aquilo que agora os mais novos vivem nos seus relacionamentos. Parece-me que há uma banalização do termo “amor” e uma certa confusão entre amor e sexo, sem custos emocionais, seguro, leve e descomprometido.

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Os jovens prezam a autonomia, a independência e a valorização pessoal, características que aprecio, mas que me levam a questionar se tudo isso não passa de medo dos afetos e das suas consequências como o compromisso, a partilha, a entrega.

A verdade é que, quando apaixonados, fazemos muitas vezes figuras disparatadas e até ridículas, mas que fazem parte da arte da sedução, da conquista… do engate.

Era assim no meu tempo de juventude e hoje também acontece aos jovens e adultos, não cara a cara, mas num mundo virtual. As pessoas não se conhecem verdadeiramente, encontram-se a partir de uma imagem que lhes é oferecida via internet, às vezes standarizada, que pega como uma moda. Os algoritmos das redes sociais, do mundo digital em geral, estão a ditar os nossos gostos e a regular as nossas vidas sem darmos por isso, com sugestões sub-reptícias de possíveis amores.

Porém, o amor encerra características que são intemporais e o sofrimento é uma delas. Como diz o filósofo brasileiro Luiz Filipe Pondé “Quem nunca sofreu por amor, nunca amou”. Eu acrescento que “Quem nunca amou, nunca viveu!”

Para os jovens de hoje, se no pack de eventuais relacionamentos vier “espera” ou “sofrimento” eles carregam em Delete e escolhem outra opção. Como todos querem ser opção, ninguém inclui estas características no seu produto amoroso e então “vendem” um sonho que rapidamente se desfazerá porque, mais dia menos dia, vão encontrar um muro incontornável chamado “realidade”.

E a realidade não é um sonho, mas é onde o amor habita e não sabem. O que o virtual desperta nas pessoas está aquém da realidade por ser irreal. É por isso que nunca um amor virtual vai salvar alguém do vazio, que é não ter vivido um amor real.

Agora mais velho, com um sorriso nos lábios, recordo com saudade essas passagens da minha vida em que o amor não era servido de bandeja e dava luta. Onde esse afeto maior que é o amor, era o lugar da verdade, da incerteza, do sentimento sem calculismos ou razão.

Mesmo observando um mundo bem diferente do da minha juventude, entendo que essas experiências são importantes e necessárias, enquadradas neste novo e inevitável contexto das novas tecnologias que segundo Nelson Rodrigues têm contribuído para a destruição do amor, sob pena de se extinguir.

O virtual no amor nunca será como o real, esse sim vivido através dos todos sentidos. Não nos basta ver a pessoa amada à distância, precisamos de proximidade, de ouvir, tocar, sentir, olhar “Olhos nos olhos”, como canta Chico Buarque.

Para amar, temos de sofrer, conquistar, ceder, fazer figuras ridículas e até escrever cartas de amor como antigamente. Porque tal como dizia Fernando Pessoa: “As cartas de amor são ridículas, mas mais ridículos são aqueles que não as escrevem”!

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