Desilusão no Largo do Rato e em Paredes de Coura

 

Miguel Nogueira

A gigantesca e esmagadora vitória que foi prometida há cerca de um ano atrás, foi transformada na noite de 4 de Outubro numa amarga derrota. O desastre eleitoral protagonizado por António Costa foi-se desenhando ao longo dos últimos meses com um percurso errante de alguém que era visto, quase consensualmente, como um dos políticos mais hábeis e experientes do país. Uma sucessão de erros, tão primários quanto inconcebíveis, adiou o regresso dos socialistas ao poder. Quantos não se terão lembrado domingo passado da fábula da lebre e da tartaruga? A ânsia e a bazófia foi tanta, a premonição de uma vitória anunciada era tão clara que António Costa repetiu vezes sem conta que estava investido da missão de “correr” com os “lobos maus” que lá estavam.

A arrogância e a confiança foram tão mal doseados que António Costa revelou, antes de o conhecer, que não viabilizaria qualquer orçamento de outro partido que não o seu e jamais se sentaria para conversar acerca de um consenso alargado que resolva os 600 milhões de prejuízo anual da Segurança Social. O líder que acusa o antecessor de só saber ganhar por “poucochinho”, perde agora por mais que “poucochinho” e agarra-se à cadeira de secretário-geral. Sem dúvida que é irónico e revelador de graves contradições, por muito que se diga que vem aí as presidenciais e que não há um concorrente interno à altura. Devemos agora esperar que o intransigente Costa se torne no aliado e dialogante Costa que permita pontes e acordos, possibilitando algum tempo de estabilidade política? Parece improvável, até porque aquilo que António Costa revelou até agora foi voragem pelo poder e será duvidoso que tenha agora a paciência e a humildade para esperar pela sua vez, trabalhando afincadamente para merecer a oportunidade que desta vez não mereceu. Por outro lado, a pressão interna no sentido de apressar o regresso dos socialistas aos centros de decisão será quase insuportável, sendo indisfarçável o modo como algumas das figuras do partido estão sedentas da governação e de voltar a repartir, entre elas, os cargos que tem ocupado ao longo das duas últimas décadas.

No meio deste imprevisto, reinará a desilusão em Paredes de Coura e no seu executivo, acreditando que terão visto fugir por entre os dedos o regresso do tribunal, assim como a possibilidade de decidir se querem a organização do território como está ou a anulação do processo que conduziu à união de algumas freguesias. Claro que a presença de Tiago Brandão Rodrigues, fosse no governo ou no grupo parlamentar que o iria suportar, concederia teoricamente ao concelho uma capacidade de influência e reivindicação jamais vista e a expectativa seria de que essa conjuntura fosse um verdadeiro motor de progresso. E se assim fosse, a celebração da derrota eleitoral averbada pelo PS, seria mesquinha por parte de qualquer courense que se preze. A menos que se acredite que a coligação fará mais e melhor por Paredes de Coura e por concelhos periféricos como o nosso, o que também me parece questionável. Mas, por outro lado, penso que esta derrota de António Costa terá poupado Vítor Paulo Pereira a tempos de muito incómodo e embaraço, na medida em que seria bastante incerto que o líder socialista, mesmo que ganhasse as legislativas de forma confortável, se apressasse a corrigir a reforma do quadro judiciário e da administração do território, que terá prometido ao executivo courense.

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