Diário de um médico é revelado em “A  Corveta”

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Shirley Cavalcante

Jornalista / Editora de Lusofonia

 

Glauco Callia nasceu em 1980 na cidade de São Paulo, começou a escrever ainda no colégio onde eram comuns as leituras de seus textos em sala de aula.

Em 2001 inicia os estudos de medicina em Taubaté, onde nas horas vagas publicava seus textos no Jornal Contato. Em 2004 consegue bolsa para estudar na Eslovênia onde tem o primeiro contato com missões humanitárias como ajudandte na Cruz Vermelha. Graduado em 2007 alista-se como voluntário na Marinha do Brasil para servir na Amazônia sendo destacado  como médico de bordo do Navio Hospitalar Oswaldo Cruz após se formar na escola de oficiais em Manaus. Naquele ano lidera a expedição Javari para encontrar e tratar os índios Korubo . Em 2009 publica A Poeira do Armário e em 2012 a primeira edição de A Corveta livro que relata suas missões na Amazônia.

 

“Escrever o livro durante a viagem foi o que me deu força para resistir, levantar do catre, entrar na selva e fazer de tudo para tentar salvar aquelas civilizações da extinção.”

 

Boa Leitura!

Escritor Dr. Glauco Callia, é um prazer contarmos com a sua participação na Divulga Escritor: Revista Literária da Lusofonia. Conte-nos em que momento pensou em escrever um livro baseado em fatos reais, contando as suas experiências como médico no Navio de Assistência Hospitalar(NAsH) Oswaldo Cruz?

Glauco Callia – A Corveta já é meu segundo livro , durante minha vida eu sempre tive a necessidade de escrever sobre os acontecimentos que eu vivia , sou um cronista de formação e por isso ,diariamente após as missões que eu executava na floresta , eu exorcizava aqueles difíceis acontecimentos em textos que eu enviava para meus pais e amigos , eu sentia uma urgente necessidade de contar ao mundo o que estava acontecendo ali. Ao final de um ano de missões eu percebi que tinha um livro nas mãos , e mais do que isso , entendi que contar às pessoas a saga de uma tripulação que tudo fez para salvar uma tribo de índios isolados da extinção ,num dos ambientes mais inóspitos do planeta, era uma maneira de continuar minha missão. As pessoas precisam saber o que aconteceu no Vale do Javari no ano de 2008. Aqueles heróis anônimos não podem ser esquecidos.

 

O que é preciso para ser um Profissional de Medicina Humanitária? Desprendimento?

Glauco Callia – Ao contrário do que todos imaginam, penso que a questão passa longe de um senso de desprendimento, na verdade, o profissional de saúde humanitária dar tanto valor para sua vida, família e amigos que ele decide abrir mão de tudo isso justamente para levar um pouco destes valores adiante e tentar com seu trabalho dar um pouco de dignidade para pessoas como ele que, de repente, se veem  privadas de tudo.

 

Como foi a escolha do Título “A Corveta”?

Glauco Callia – Minha cabine a bordo do Navio de Assistência Hospitalar Oswaldo Cruz ficava logo abaixo da sala de rádio , e apesar do meu sono pesado , existia sempre uma frase que me acordava imediatamente , era um chamado que sempre se materializava dos chiados da fonia do canal 16 do rádio(canal internacional de emergência):  ”Atenção Corveta da Marinha do Brasil , nós precisamos de um médico”. Corveta é como os ribeirinhos chamam os navios da Marinha na região amazônica uma vez que desde o século dezoito são corvetas que patrulham aquelas paragens. Corveta no linguajar e no inconsciente das populações ribeirinhas tornou-se  um substantivo que personifica  ajuda , socorro e esperança.

 

Sabemos que são muitos os momentos vivenciados e escritos, no entanto o que mais o surpreendeu enquanto escrevia o livro?

Glauco Callia – Sou um típico paulistano , amante da noite, da música e um eterno apaixonado pela Avenida Paulista. De repente vi-me no meio da floresta amazônica servindo como militar num navio de guerra da Marinha numa zona de conflito, lidando diariamente com piratas, contrabandistas, tribos de índios isolados, animais perigosos e epidemias. Acredito que o ato de escrever o livro foi uma ancora que me prendia a realidade, eu precisava saber que a miséria , as mortes e a doença que eu vivenciava todos os dias não eram a regra estamental e muito menos que elas não podiam ser encaradas como cotidiano ou normalidade, escrever era um ato de revolta, naquele momento eu exorcizava e entendia melhor o que estava acontecendo ao meu redor, escrever me protegia de ser despersonalizado pelo ambiente violento da ausência do Estado, pela miséria. Testemunhar doenças não tratadas são de tal forma um espetáculo de horror que você pode muito bem aceita-los e ver tudo como se fosse um filme criando assim um mecanismo de defesa, mesmo vivendo aquilo todo dia. Escrever me colocava como um agente daquela história, era o grito em palavras do “nunca desista”. Escrever o livro durante a viagem foi o que me deu força para resistir, levantar do catre, entrar na selva e fazer de tudo para tentar salvar aquelas civilizações da extinção. Percebo hoje que o ato de escrever A Corveta me ajudou a seguir dando atendimento a centenas de pessoas.

 

Quais os principais desafios para escrita de uma experiência tão dolorosa e realista?

Glauco Callia – A Corveta é um livro dinâmico, diversos leitores me relatam que leram o livro em uma ou duas noites. Acho que o principal desafio foi balancear a dor e a ternura dos fatos que aconteciam no dia a dia. È difícil pôr no papel situações de pico emocional altíssimo sem perder o foco de passar ao leitor a grande cena que se desenrola à sua frente, dito isso entendo que o grande desafio foi  conseguir exorcizar os demônios do dia a dia sem deixar o livro pesado , A Corveta é uma leitura onde você intercala gargalhadas e lágrimas, ser bem sucedido neste balanço foi uma tarefa difícil.

 

Vamos falar um pouco da beleza da obra, conte-nos, o que mais o encanta em “A Corveta”?

Glauco Callia – Acho que o que mais encanta em A Corveta é o poder e a força com a qual ela te leva para dentro do ambiente de uma missão humanitária , uma vez que o livro é escrito em primeira pessoa , você vai se emocionar fazendo um parto no meio da floresta , vai sentir a ansiedade e o medo de ser um dos primeiros brancos a fazer contato com uma tribo isolada , estará a bordo de um helicóptero sobrevoando a Amazônia com a missão de resgatar as vitimas de um naufrágio, sendo inevitavelmente tomado por um sentido inescapável de humanidade, repetindo emocionado  o lema no Nash Oswaldo Cruz após o fim de cada capítulo-missão : “ Saúde Onde Houver Vida!”.

Qual a mensagem que você quer transmitir ao leitor através do enredo que compõe a obra?

Glauco Callia – Durante toda a sua vida você vai ouvir dizer que você é incapaz de fazer algo, que você não deveria se meter com tal coisa ou que seus sonhos são inalcançáveis , acredito que a mensagem que eu quero passar é que você tem que seguir o seu caminho custe o que custar e que fazendo isso o resultado será fantástico. Existe uma frase de Joseph Campbell que traduz isso: ”Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para podermos viver a vida que nos espera. A pele velha tem que cair para que uma nova possa nascer”.

 

Você tem feito palestras e lançamentos do seu Livro, tanto em São Paulo como em Porto Alegre . Como tem sido esta experiência?

Glauco Callia – Confesso que tenho ficado extremamente surpreendido com a atenção que tenho recebido das pessoas na forma de e-mails, pessoas que me reconhecem no shopping, na rua e até no elevador do meu prédio, me chama atenção a curiosidade e principalmente com o carinho dos leitores, isso é algo que como escritor eu apenas imaginava que poderia existir e de repente, ter uma fila de autógrafos de quase 100 pessoas e plateias cheias nas palestras realmente nunca passou pela minha cabeça como algo concreto, tem sido uma experiência extraordinária, não tem preç , o sonho de todo escritor é ser lido!

 

Em relação a estas palestras o que as pessoas mais perguntam?

Glauco Callia – Bom, são as mais variadas perguntas das mais diferentes gerações, a maioria gira em torno da dúvida se realmente estamos para perder a Amazônia, como se dá o relacionamento com os índios isolados e o porque eu decidi partir naquela aventura.

E qual é a resposta para estas perguntas?

Você descobrirá lendo o livro. Rs.

 

Onde podemos comprar o seu livro?

Glauco Callia – Eu recomendo comprar o livro pessoalmente na Livraria Zaccara em Perdizes para além de adquirir a obra , bater um bom papo com o Lucio e provar uma fatia de bolo e o café da Cris, ou ainda pode adquirir o livro na Cultura , Saraiva, Martins Fontes uma vez que o livro está sendo distribuído nacionalmente ou no site da Editora Manole:

http://www.manole.com.br/a-corveta/p

 

Quais os seus principais objetivos como Escritor? Pensas em publicar novos livros?

Glauco Callia – Meu objetivo como escritor é proporcionar ao meu leitor um momento único, convida-lo a viver um instante delicado ou intenso, quero que o leitor vivencie o que está sendo escrito e se emocione, é esta conexão que eu busco.

Meu próximo livro é um Romance Histórico que se passa exatamente 100 anos antes de A Corveta, narra a épica expedição do Almirante Ferreira da Silva para desbravar e cartografar a até então inexplorada fronteira com o Peru em 1908 foram aqueles 8 anos da missão que definiram os contornos do mapa do Brasil. Paralelamente estou trabalhando na tradução de A Corveta para o italiano.

 

Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Muito bom conhecer melhor o escritor Glauco Callia. Agradecemos sua participação na Divulga Escritor: Revista Literária da Lusofonia. Que mensagem você deixa para nossos leitores?

Glauco Callia – Saúde Onde Houver Vida!

 

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