Dicionário Crónico [01]

Dicionário Crónico. Artigo de opinião, democrático nas observações, pouco cauteloso nas sensibilidades.
Nesta edição escalpeliza-se o atendimento ao público, a fuga dissimulada dos telefones, os pneus naturalistas e os transportes públicos, esse serviço em extinção. Com Melgaço em fundo, obviamente.

 

João Martinho

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Descrição breve: Há mais de dez anos, o Dicionário Crónico, democrático nas observações, pouco cauteloso nas sensibilidades, ocupava uma página num jornal regional alto-minhoto. Imberbe e inconformado, o autor (este que se assina) atirava à esquerda, à direita ou para o lado que estivesse a embicar. E porque estamos num tempo em que já pouco muda e tudo o que acontece num período inferior a 50 anos é continuidade burocrática, é tão pertinente hoje, como foi há uma dúzia de anos, dicionariar cronicamente a região. Ei-lo, portanto.

A – Atendimento ao público

Quem é que ainda se lembra de José Manuel Coelho? Sim, o ex-candidato à presidência da república, afecto ao PCP, mas que já deu a cara pelo PTP e pelo PND. É confuso sim. Sei de gente que ganha mais afecto a um casaco comprado na Casa das Peles do que o singular deputado da Assembleia Legislativa da Madeira às ideologias partidárias.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Mas não é isso que traz aqui o homem a quem por vezes o ímpeto para a chacota lhe tolda a razão e o discurso. Quando andava por aí a fazer campanha para as presidenciais, em 2011, José Manuel Coelho falava, em entrevista a uma rádio nacional, da sua experiência enquanto vencedor de uma viagem a Moscovo, mérito da sua exemplar divulgação (venda) do jornal comunista “Avante!”, que em inícios da década de 80 completava 50 anos. Pois foi com viagem de avião e hotel pagos pelo Pravda, jornal da ex-URSS, que Coelho formou uma ideia mais concreta daquele bastião comunista, tendo considerado “apático” o atendimento dos serviços moscovitas, por depender tudo do estado e, quiçá, as fracas condições de trabalho.

Se transpusermos para cá, em 2015, salvo a ideologia, que não é comunista muito por culpa dos maus exemplos que vinham de fora, o que não faltam são hipotéticos trabalhadores com genes dessa influência bolchevique. A região está pejada de serviços e atendimento público onde a apatia reina – porque os velhotes são chatos, porque não sabem ler, porque há que fazer tudo, não é sotôr? – e a maior parte dos exploradores do novo ‘prec’, que é o turismo rural e serviços destinados ao bem estar de quem nos visita, precisa obrigatoriamente de gostar do atendimento ao público, delegar a quem goste ou vender a quem queira.

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Senão, a bandeira que os municípios alto-minhotos erguem, promovendo uma região de excelência para o turismo, cai por terra quando o iludido turista entra em casas de turismo rural de aspecto abandonado (fazendo-o sentir-se mais como um refugiado que entrou na primeira casa que tinha a chave debaixo do tapete do que um turista que paga uma casa num dos destinos mais caros do país) ou vai a restaurantes de serviço demorado e sacodem as migalhas de pão para o chão. “Depois o cão passa e limpa”, diria o senhor Ernesto ao ler isto, que tem dois cães e está a comer um pão com fiambre sentado num penedo, enquanto vigia a rês.

C – Cabines Telefónicas

Antigamente (e não é preciso ir muito atrás), as cabines telefónicas tinham algum uso. Com o credifone ou com moedas – e já deixei muito dinheiro em telefones que serviam para pouco mais do que mealheiros, menos para telefonar – era comum usar para telefonar, quando a enrascada não podia esperar até chegar a casa.

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No centro de Melgaço, pudemos assistir a uma retirada tão discreta de um telefone público que Ricardo Salgado devia pôr os olhos nisto, partindo do princípio que preferiria estar em Cancun do que em prisão domiciliária.

Primeiro desapareceu o telefone, num dia que ninguém consegue precisar. Eventualmente, já não funcionaria, sem ser para mealheiro. Recentemente, e também numa operação tão natural quanto mágica, desapareceu a cabine (ou orelhão, como já se ouviu chamar). Quem quiser ligar, ligue do telemóvel ou que vá aos Correios e eventualmente confrontar-se com um atendimento referido na letra A.

P – Pneus naturalistas

Anda o Verão vinha longe, fomos alertados para um depósito de pneus em plena natureza, ainda que em espaço intervencionado, por outras razões, dando a entender que a colocação daquele material não se tratava de um despejo selvagem na natureza.

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Temendo um eventual incêndo – e como sabemos que os incêndios cá por cima têm todos origem na maldita garrafa de vidro que por acção do sol desencadeia incêndios, sobretudo à noite – o informador deste depósito pretendia que as entidades competentes tomassem alguma medida que não deixasse este arquivo de borracha aumentar. Questões de saúde pública, agressão ao meio ambiente, enfim, é verdade que se alguma fogueira deflagrasse naquele amontoado, uma nuvem negra pairaria sobre o “paraíso do minho”.

À altura interpelamos a autarquia, que nos esclareceu que o depósito ali era autorizado, tendo em vista um projecto de cariz turístico. Não sabemos em que fase de implementação vai o projecto mas, feito o balanço, a floresta ardeu sem pegar pela borracha. Foi fogo forasteiro, vindo de Monção. Não descurando a perigosidade daqueles materiais em caso de incêndio, é óbvio que as preocupações ambientais de Melgaço devem apontar mais na floresta e naquilo que tem sido realmente mais combustível, do que o que acontece na periferia dela.

T – Transportes

Para se sair de Melgaço é preciso um carro, um milagre, bastante dinheiro (os taxis não são brincadeiras fáceis) ou então, jogar aos totolotos com os horários dos transportes públicos.

Ah, a mobilidade transfronteiriça, esse sonho tão urbano! Tão defendida nos inúmeros estudos e de um Portugal 2020, num momento em que uma simples viagem Melgaço – Monção em autocarro faz o utente sentir-se numa daquelas épicas viagens da Eurolines, Porto-Paris.

Por outro lado, tanto o turismo termal como os transportes colectivos, precisam de continuidade e uma boa promoção para começar a criar interesse e fidelizar utentes. Ainda há pouco fizemos uma destas travessias Melgaço-Monção numa daquelas horas em que, numa cidade, quase tem de se meter gente no compartimento para malas de mão, e constatamos que só uma meia dúzia, mudando uma ou outra cara, utiliza este transporte. 

geral@minhodigital.pt
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