Editorial

Disparates
Picture of Joaquim Letria

Joaquim Letria

Hoje ouve-se e diz-se disparates com grande facilidade e impunidade.

É natural. As palavras soletram-se à vontade do freguês sob o manto protector do malfadado acordo ortográfico, a memória transformou-se numa vaga ideia e o rigor da verdade é cada vez mais trémulo e, muitas vezes, jaze mesmo inanimado no ruído das vozes e pensamentos que se cruzam neste atoleiro, sem corresponder à verdade dos factos e em total ausência de raciocínio.

Durante anos combati organizadamente a ditadura mas nunca tive o descaramento de me intitular anti-fascista. Lutei apenas com milhares de outros pela liberdade e pela justiça, submetendo-nos consciente e clandestinamente a uma pena de dois a oito anos de cadeia nos Fortes de Caxias ou de Peniche se fôssemos apanhados. E quando veio a liberdade cheguei-me, feliz, para trás e fiquei a ver, a procurar ajudar e, por vezes, a quedar-me desiludido com o que veio por aí fora .

Agora os anti-fascistas são às dezenas, auto-intitulam-se, organizam-se e marcham pelas ruas não percebendo nós muito bem quem lhes faz o jeito de serem os fascistas contra os quais eles devem estar. Parece mal aproveitarem-se duns tontinhos a quem não se pode levar a sério, assim como não é bonito brandir umas supostas ameaças que não sabemos de quem vêm e que são muito difíceis de acreditar.

Devendo tudo isto, na minha modesta opinião, ser encarado, visto e investigado como um mero caso de polícia, oxalá não venham os investigadores e as secretas a descobrirem que tudo não passa, afinal, duma manobra propagandística que muito bem serve os dois lados e que bem pode ter sido lançada por um moderno Rui Pinto, criaturas agora muito na moda e de grande utilidade para os políticos de ocasião.

Mais
editoriais

Também pode gostar

Junte-se a nós todas as semanas