Duna dos Caldeirões … até desaparecer!

Joaquim Vasconcelos

(Engenheiro e Ambientalista)

Mais de um ano passado da ruptura da ‘Duna dos Caldeirões’ em Vila Praia de Âncora, os responsáveis decidiram fazer a sua recuperação, situação que está a decorrer no âmbito da empreitada de “ Reforço e Protecção do sistema dunar e renaturalização de Áreas Naturais Degradadas “ 2ª fase. Aquela é o reflexo dos maus exemplos de planeamento, gestão do erário público, mostrando um desconhecimento ambiental dos responsáveis que projectam as beneficiações do litoral português.

Como é importante que o perfil da praia de V.P. de Âncora se mantenha por questões sociais e ambientais, considero que enquanto não se eliminar a causa da alteração das correntes que originam, quer o assoreamento do Portinho de V.P. de Âncora, quer o emagrecimento da praia, o problema irá manter-se. Existem vários técnicos que já o referiram, só a “tribo política” é que não quer ver isso. Mas aquelas dunas, só estabilizarão, quando o equilíbrio daquela for atingido. Torna-se lamentável que ninguém pretenda ver isso. É certo que estamos em Portugal!…

Ninguém sendo responsabilizado, quem ganha com isso são os empreiteiros de obras marítimas. Por muito que procurem argumentos, podemos garantir que quando vemos parte da recuperação da duna ser feita com areia retirada da praia e outra frontal àquela, ficamos elucidados dos conhecimentos e objectivos daquela gente.

Até parece que desconhecem a dinâmica costeira, esquecendo-se de estudar de onde vêm e para onde vão os sedimentos da praia e da ante praia (restinga), pelo que se conclui que não se apoiaram em conhecimentos científicos.

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 Perante estes factos, permite-nos formular com o máximo de rigor que, brevemente, irão ocorrer consequências desagradáveis, bastando que o mar ganhe um bocado de força e aí começará a acentuar-se a erosão dunar e num curto espaço de tempo (anos) novamente a rotura daquela duna voltará a acontecer.

 Parece que os responsáveis estão interessados em demonstrar a sua ignorância, arranjando soluções para destruir o litoral, principalmente quando o mar estiver sujeito a uma forte ondulação.

Os actores desta estranha democracia e os seus seguidores continuam sem vergonha a executar obras que vão agravar uma “cadeia de asneiras”, que tem sido realizadas no litoral.

Esta situação remeteu-me para um depósito de areia que existia no campo de futebol do Âncora Praia, que estava destinado à recuperação da duna dos Caldeirões, mas que dias antes, daquela empreitada se iniciar, deram inicio aos trabalhos da “Empreitada para Execução das Infra-estruturas associadas à utilização da praia da Gelfa” donde foram retirados dezenas de camiões para parte incerta.

Se caminharmos pela costa Norte, iremos encontrar dezenas de casos semelhantes em que devido a terem sido colocados esporões, os responsáveis, ou por ignorância (!…), ou por factores que não se podem referir, conseguiram eliminar áreas extremamente simpáticas de areais, que todos parecem fazer esquecer, enquanto isso acontece, Amorosa, Castelo do Neiva, S. Bartolomeu, Esposende Ofir, viu grandes quantidades de areia serem levadas pelo mar, onde se tem gasto milhões de euros, que se limitam a fazer obras para transferir o problema para outras zonas.

É extremamente deprimente ver dois milhões de portugueses no limiar da pobreza, a passarem fome, enquanto um grupo de responsáveis deixa que estas situações continuem a suceder. Porque a gastar “uma pipa de dinheiro” em obras para daqui a meia dúzia de anos terem novamente de fazer obras de recuperação do litoral… Oh… mas é verdade tudo tem a ver com o aquecimento global, com o 1,5mm da subida diamé do oceano, etc, etc…..

Na realidade a natureza não se compra, nem se vende. Temos de a respeitar para ela nos servir, retardando com atitudes correctas os seus efeitos.

As meias verdades continuam a satisfazer aqueles que fazem obras mediáticas, mas que colocam em dúvida o futuro ambiental do litoral português. O erário público, mesmo em épocas de crise, gasta-se em obras que no futuro, irão originar mais trabalhos para manutenção do litoral, agravando ainda mais toda a nossa independência económica e colocando em risco a nossa independência, deixando aos nossos filhos uma divida que demonstra a amizade dos seus progenitores.

O Arquitecto Paisagista Ilídio Alves de Araújo, prestigiado especialista português, já referia há mais de meio século que:

“A execução de obras costeiras, sem correcta antevisão da avaliação dos seus efeitos secundários tem originado desequilíbrios na geodinâmica costeira e sujeito alguns troços da costa a uma erosão acelerada”.

Se existe alguém responsável, aconselhamos que consultem o parecer da Comissão de Avaliação do RECAPE do Portinho de Pesca de Vila Praia de Âncora. Pós avaliação nº9, para concluírem, a veracidade de tudo o que se tem dito sobre a duna dos Caldeirões.

Sabemos que isto não interessa à “tribo política”, mas podemos concluir que o que aconteceu é só uma amostra do que irá suceder no futuro.

Fica-se a aguardar que os “velhos do Restelo”, não tenham razão, porque senão os “chefinhos”, vão ficar mais uma vez muito mal na fotografia e os nossos filhos ficam com uma dívida significativa nas mãos, devido à mediocridade das asneiras dos gestores destas obras.

geral@minhodigital.pt
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