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Emigração clandestina para França por via marítima em 1964 (1ªparte)

Emigração clandestina para França!

José Rego

Na companhia de outros 20 vianenses na madrugada do dia 13 de Julho 1964, por via marítima “embarcamos” clandestinamente no porto de Leixões. E três dias mais tarde demos à costa na praia em Saint Jean de Luz, país Basco francês, já o sol raiava na manhã do dia 16 de Julho 1964.

De 21 vianenses, 10 eram chafenses:

António Matias, José Rego, José Laranjeira, Abílio Dias, Manuel Neiva, Augusto Cruz e filho, Manuel Lima, Manuel S. Lima e filho.  

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Quem é que quer ir para França?

O chafense Manuel Matias, exercia o ofício de pescador em “motoras” e traineiras ao longo da nossa costa marítima minhota, ou seja, era um “habitué” da faina no mar alto. Um dia teve a intenção de emigrar e pensou percorrer as casas da sua aldeia Chafé, propondo o caminho marítimo como a melhor rota com destino à santa França.

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Naquela Primavera de 1964, eu tinha 17 anos, num sábado à tarde do mês de maio eu ajudava meus pais na sachada do milho no campo do sítio da Ribeira.

Manuel Matias ao passar no carreiro daqueles campos de milharal, propõe a meu pai a possibilidade de eu puder emigrar para França. A viagem custava “apenas” 2 500$00 escudos. Meu pai passou-me a intenção.

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Combinei então, com Manuel Lima, por alcunha o Manel do Xareto, companheiro nos anos da escola primária por ele ser também um jovem mas já era um “habitué” da faina da pesca, que me aportou confiança. E, assim aconteceu. Ele mora em Toulouse.

 

                       

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Lembra-me a memória, esta imagem nos tempos de como sachávamos os campos milho na década dos anos 50 e 60, no século passado.

O adeus de meu pai ao portão.

Era ainda noite escura, pelas 3 horas da madrugada do dia 12 de Julho de 1964, bateram ao portão da casa de meus pais. Agarrei a mala de cartão que meu pai me tinha comprado por 7$50, (3,7 cêntimos – era muito dinheiro) dias antes na Casa Ferros na rua Mateus Barbosa em Viana. Num adeus triste e muito duro a meus pais, meus irmãos dormiam, lá fui eu, na companhia de alguns conterrâneos a pé pelo caminho do Campinho e seguintes iluminados pelas estrelas até ao monte da Ola, e por um carreiro chegamos à gare de Darque.

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Foi na madrugada do dia 12 Julho 1964.

E, lá vou eu para a santa França.

 

Há 51 anos com a mala de cartão na mão, segui caminho até à gare de Darque

A Partida da gare de Darque

Reunidos a vintena de pretendentes, 21 à partida, incluindo 10 chafenses, compramos o bilhete individualmente. Esperamos pelo primeiro comboio Viana-Porto.

Nele entramos e nos levou à gare de São Bento.

Dai, entramos no elétrico que nos transportou até Matosinhos como “gente normal”, a maioria com os sacos às costas “à pescador”. Apenas eu levava como bagagem uma mala de cartão.

Era verão. À tardinha, aproximamo-nos do cais do porto de Leixões. Mas, alguns do grupo cedo “embarcaram” na traineira enquanto outros passearam “à turista” pelas ruas de Matosinhos. Para a maioria deles fora da sua aldeia natal, era a primeira Cidade visitada.

Para recuperar forças e resistir ao caminho marítimo “por mar nunca dantes navegado, destino que todos desconheciam, muitos deles petiscaram nas tascas de Leixões.

Pois, nas lidas do mar, tanto eu como muitos outros nunca tínhamos navegado no mar alto. Pior ainda, eu, …nem sequer sabia nadar. Somente, aprendi a nadar, em 1965 na piscina municipal de Pantin, Leste de Paris.

 


Naquela manhã de 12 julho 1964, na estação de Darque, entramos no primeiro comboio que nos levou ao Porto

Logo à saída da barra foi o Cabo das Tormentas

Naquela noite estrelada ao alvor do dia 13 de julho, entre as 3 e as 4:00 horas, a traineira largou as amarras do cais do porto de mar em Leixões, e a todo o vapor pelo estuário fora, fez-se ao mar alto.

Não levou muito tempo que muitos como eu começássemos a vomitar. Tudo provocado pelo ondear das vagas que pareciam ameaçar a traineira logo nas primeiras milhas.

Era dia alto, reconhecemos as margens das praias da Amorosa e do Cabedelo. Se, alguns “passageiros” não se atiraram ao mar para fugir nadando para terra, foi graças ao mestre Matias, que, numa voz imperiosa lhes prometeu uma lição de paulada, se algum tentasse prejudicar a vida dos outros.

E assim, continuamos como “pescadores” sobre as águas salgadas do Atlântico, nada amenas, em “velocidade cruzeiro”, num mar nunca dantes navegado até ao escurecer desse dia.

Em águas Galegas, metemos âncora até à aurora do dia 14 de julho. Soubemos depois que, era feriado, o dia Nacional da França. “Le 14 Juillet”.

Levantada a ancora o motor da traineira nunca parou de roncar durante aquele dia.

Ao escurecer, a âncora desceu novamente até ao fundo do mar e aí ficamos até ao romper da aurora do dia seguinte, 15 de julho.

 

Um exemplar, da traineira que nos levou de Leixões até Saint Jean de Luz, pais Basco francês.

Esta “motora” foto, era propriedade do avô de António Gomes, atual proprietário do restaurante Tasca do Gomes, na praia da Amorosa.

 As fragatas espanholas passavam ao lado

Em alto mar ao longo da costa espanhola, por várias vezes apercebemo-nos de navios da guarda costeira espanhola. Sempre com 3 ou 4 “pescadores” no convés vestidos à pescador, o nosso barco pesqueiro, além de ter matrícula portuguesa, nunca foi importunado pela guarda espanhola. Se fomos vistos ou não, ninguém o saberá. Quanto ao estado do mar, além de ser alto verão, por vezes durante horas encrespava e as vagas batiam fortemente na coca do “navio”, que por vezes espirravam para cima do convés.

 O óleo do motor esgotou

No dia seguinte, 15 de julho, continuamos a rota até que, o mestre apercebeu-se que o motor queimava muito óleo. No golfo de Biscaia aproximamo-nos junto de barcos de pesca espanhóis e rogamos para nos fornecerem óleo para o motor. E assim aconteceu. Graciosamente um mestre desse barco, prontificou-se com uns 20 litros de “aceite” (óleo em espanhol) e seguimos viagem durante muitas horas no tempo que restava de viagem. A noite caiu e a âncora foi novamente lançada ao fundo do mar. Encontrávamo-nos possivelmente a um quilómetro distante da costa Basca e não muito longe da santa França. Aí passamos parte da noite como nas anteriores, uns no porão e outros no convés, ao relento.

A sede que nos matava

A água que existia a bordo ao segundo dia passou a salobra.

Eu tinha uma garrafa de aguardente na mala para matar a sede. Mas, a dita garrafa, numa hora de sono, “pifaram-ma” da mala de cartão. E a sede apertou tanto que tive que beber água do suor, encostando a boca aos braços como muitos outros, naquele dia quente. Foi horrível!

 

F A praia em Saint Jean de Luz, pais Basco francês, onde “apraiamos”. De pés juntos saltamos da proa da motora para a areia molhada da praia em 16 de Julho de 1964. Todos os ocupantes chegaram sãos e salvos. Sãos, nem tanto. Alguns não tinham sequer obrado durante a viagem

 E a coca da embarcação tocou no fundo

Como sempre em noite estrelada ao raiar do inicio da aurora desse alto verão, a rota foi sempre à vista da costa e continuamos até que, cedo naquela manhã de 16 de Julho 1964, aproximamo-nos de uns barcos de pesca, eu perguntamos a uns pescadores espanhóis se a França ficava longe. Disseram-nos que em menos de uma hora chegaríamos ao destino. Em menos de uma hora de rota, perguntei a uns pescadores se – ici c’est la France? Oui, responderam. Eram gauleses. Merci beaucoup!

Neste preciso momento, mestre Matias e os que estavam no convés todos atarantados, direcionou o leme durante uns longos minutos por entre algumas rochas em maré baixa e com muita sorte a nossa embarcação tocou o fundo na praia em Saint Jean de Luz.

Ao tocar o fundo das areias da praia, o conterrâneo chafense, de alcunha Gusto do Larú, ansioso, atirou-se de imediato ao mar na tentativa de rapidamente chegar à terra firme. Mas isso não foi fácil, sobretudo, até muito assustador.

Teve de ser salvo pelos mais intrépidos que se atiraram à água para o salvar, enquanto outros naquele momento já tinham lançado uma corda para o agarrarem.

Entretanto, e enquanto as vagas empurravam a coca do barco para mais próximo da praia alta, muitos atiraram-se e nadaram até à areia firme da praia. E, assim aconteceu, durante longos minutos. Quanto a mim, que não sabia nadar, fui o penúltimo. Com a minha mala de cartão na mão direita, a motora fixada na areia, esperei que a vaga recuasse e no momento oportuno, prontamente saltei do alto da proa para as areias daquela praia no país Basco francês. Veio a vaga a seguir e logo me molhou-me todo. O último a saltar, atrás de mim, era um jovem da minha idade natural de Viana. Nunca mais o encontrei. Estará entre nós? Alô, amigo da viagem!

 Neste dia 17 Julho 2015, faz 51 anos que eu cheguei a Paris.

(a 2ª parte desta epopeia, continua na próxima edição do Minho Digital)

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