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Emigração clandestina por via marítima para França em 1964

O barbeiro no Bidonville em 1964

2ª parte –  Emigração clandestina por via marítima para França em 1964

A chegada a terras francesas

Na chegada à praia em Saint Jean de Luz, todos sofríamos horrendo da sede. Todos sujos e de cara bronzeada, parecíamos fugitivos aventureiros do mar. Rogamos água aos veraneantes franceses, na praia àquela hora matinal. “água, água, de l’eau, s’il vous plait”. Momentos depois graças à gentileza dos veraneantes franceses, tínhamos nas mãos algumas garrafas de vidro com água. Enquanto subia-mos a encosta da duna, como que do medo do mar que nos fustigou durante 3 dias e 3 noites.

Era tempo suficiente de nos apaziguarmos do traumatismo para a maioria dos recém-chegados à santa França.  

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Sentados no cimo das dunas, passavam talvez 15 ou 20 minutos desse dia 16 de Julho de 1964, calmamente, apareceram os Gendarmes.

Recuperaram o grupo Lusitano reunindo-nos na relva de um paul por detrás da duna. E daí partimos nos carros da patrulha, para a Gendarmerie.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Porém, como os agentes da Gendarmerie, de tal modo sujos mandaram-nos utilizar a duche da Gendarmaria. Aí foi o momento de muitos de nós tomar banho com água quente. E, de seguida, como também, viram-nos esfomeados a valer, gentilmente, levaram-nos a um restaurante ao lado que nos ofereceram leite, café e croissants à discrição. E aí matamos a fome e a sede. Merci beaucoup, messieurs les Gendarmes, français.

Foi portanto em Saint Jean de Luz que, pela primeira vez na vida daqueles vianenses, todos nós saboreamos os primeiros “croissants”. 

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Depois de passarem a fronteira a salto, por via-férrea milhares de portugueses chegaram aos destinos, algures em França

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O primeiro dia na companhia de um Gendarme

A meio do dia, como eu conhecia o básico da língua francesa, em ter frequentado o seminário, um Gendarme escolheu-me para o acompanhar à motora, que entretanto tinha sido amarrada de improviso a uma rocha. Entrei no barco com o Gendarme, para escolher o que de bom restava, apenas latas de conserva. Recuperado o essencial, ambos fomos ao banco cambiar os escudos em francos, que entretanto eu tinha recuperado as notas de escudo aos colegas. Ou seja, os poucos escudos que todos “os clandestinos” possuíam. As moedas de escudos e tostões, não eram aceites.

Naquela época, eram necessários 3$80 escudos, para cambiar no valor de um franco.

Da parte da tarde, na Gendarmerie, foi-nos entregue um “récépissé”, um salvo-conduto, que nos permitia circular livremente durante 3 meses, em todo o País gaulês.

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Como todos tínhamos no bolso um endereço de um amigo conterrâneo vianense há anos a labutar no hexágono, nesse mesmo dia à noite cada um de nós orgulhosos portadores do “passaporte” temporário, partimos em direção à casa desses familiares e amigos, algures em França. Como numa aventura dormindo no cais até à primeira hora da partida do comboio, seria o início do destino de uma vida integrada na sociedade laboral francesa.

Horas antes, na própria Gendarmarie, os gendarmes passaram horas a contactar empresas nos arredores. E assim, facilitou a vida a 13 sortudos compatriotas que naquele dia encontraram trabalho no sudoeste da França.

 

 

Revejo-me nesta imagem com a minha mala de cartão na mão, como estes nossos compatriotas em 17 julho de 1964, à chegada à gare de Austerlitz, em Paris. Faz, 51 anos.

 A segunda viagem de comboio

Realizada a minha primeira viagem de comboio no dia 12 de julho, entre Darque e o Porto, a segunda viagem de trem passou-se na noite do 16 para o dia 17. Tinha então, festejado os meus 18 anos apenas, há 3 semanas.

Os gendarmes levaram os que não ficaram na redondeza, à gare de Biarritz e aí comprei o bilhete na gare. Entrei no comboio com destino ao norte da França, e cheguei ao término, em Paris, gare de Austerlitz, naquela manhã do dia 17 de julho. A estação fica situada mesmo ao lado da margem esquerda do rio Sena.

Como atrás referi, graças a compreender o básico da língua francesa, com poucas perguntas apanhei o Metro nessa estaçao, fiz correspondência na de Nation e segui até ao término dessa linha em Porte de Vincennes. Esta estação do Metro fica mesmo situada à entrada do bosque de Vincennes.

E daí, parti no “autubus” até à cidade de Champigny, no sudeste de Paris.

 

Aguardando a chegada do familiar à saída da Gare de Austerlitz.

Em terra Champigny

Nesse ano de 1964, na área do “bidonville” em Champigny, no departamento 94, sudeste de Paris, já milhares de compatriotas moravam. E os portugueses em Portugal, desconheciam!

Ao chegar perto do endereço do destino final o cobrador do autobus indicou-me o caminho a seguir. E a pé com a minha mala de cartão na mão, tempo depois encontrei o número da porta do “Foyer du Batiment et des Travaux Publics”, lar dos trabalhadores, em Champigny, departamento 94. Um edifício de 4 andares, como todos os “foyers” especificamente reservados a trabalhadores em estado de solteiros ou como tal.

Muito cansado, esperei deitado na relva do parque, ao lado.

Era o fim da tarde naquele dia 17 de Julho 1964.

A certo momento reconheci ao longe vindo do trabalho, o primo António Silva, por alcunha Tone do Souto.

Acompanhando-o entrei onde ele morava. Com a autorização do chefe do “Lar para trabalhadores”, aí pernoitei deitado no chão em betão, sobre uma manta cedida gentilmente pelos amigos que no aposento moravam. Era verão. Hoje, o primo de meu pai, ainda reside em Chafé. Esta fase da minha vida aconteceu, precisamente, há 51 anos.

  

Quarto de um “foyer” na região parisiense, anos 60. Camas sobrepostas.

 Os primeiros dias na região parisiense.

No dia seguinte muito cedo, às seis da manhã dia 18 de julho, acompanhei o primo António do Souto, até ao seu local de trabalho. Aí passei o dia inteiro olhando à minha volta um mundo desconhecido, que me fazia meditar e ao mesmo tempo sonhar de olhos abertos. Com o primo a repartir “ o conteúdo da “gamelle”, marmita, para matar a fome nesse dia, tanto às 9 horas, à hora da “petite casse-croûte” e ao meio dia, no almoço, “au déjeuner”.

Ao fim da jornada retomamos o trajeto inverso mas na direção ao “foyer” de Bobigny, onde morava um outro primo de meu pai, por aliança, o castelense Manuel Vicente, por alcunha o Manel do Samoca.

No Foyer de Bobigny no departamento 93, a nordeste de Paris, aí pernoitei numa cama como demonstra a imagem, deixada livre por um compatriota que nessa época se encontrava de férias em Portugal.

E, na manhã seguinte dia 19 de julho, foi a vez de acompanhar o primo castelense até ao “chantier” – estalaleiro, onde ele trabalhava como “boiseur” carpinteiro de obras.

 

A partir desse dia 19 de julho de 1964

Foi então, que, a partir do dia 19 de julho, começou para mim, uma nova e grande etapa da vida social, económica e cultural francesa.

Dentro da área do “chantier”, estaleiro, passei parte do dia até à chegada do “Commi” – encarregado geral. Apresentado pelo compatriota à Monsieur le Commi, concretizou-se o pretendido.

No dia seguinte lá fui eu, sozinho, com os planos na mão, pelo Metro e autobus, até ao “bureau” escritório da empresa Périno Frères, de origem italiana. Com o atestado provisório do “récépissé” três dias depois, comecei a trabalhar nessa obra, como “manoeuvre”, ajudante do eletricista de chantier. E mais tarde, obtive a “carte de travail”.

Melhor dizendo, foi a partir do dia 22 de Julho de 1964. Tinha então, 18 anos e um mês.

E, desde esse dia, durante 44 anos labutei no país de Molière, a santa França.

Graças a todos esses anos descontando para o regime da Segurança Social francesa e seguro complementar, alcancei a dita reforma.

…..

Fotos de Gerald Bloncourt e desconhecidos. 

Faz, precisamente, 51 anos que, iniciei a minha labuta em França. 

(a 3ª parte desta epopeia, continua na próxima edição do Minho Digital)

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