Encontro alternativo para “semear a escola de sonho”

Decorreu, de 4 a 6 de setembro, em Soajo, o primeiro Encontro Ser EducAção, que refletiu sobre a premência de “cultivar uma sociedade mais cooperativa, sustentável e feliz.” Participaram nos trabalhos cerca de 180 pessoas, entre palestrantes, investigadores, técnicos, diretores de agrupamento, professores, educadores, pais e encarregados de educação.

Numa das sessões mais concorridas, o estudioso Jacinto Rodrigues inspirou-se no “pensamento global” do padre Himalaya para lembrar os contributos do cientista de Cendufe, que surpreendeu o mundo por onde passou com propostas visionárias (energia solar, invenção de explosivos, teorias de irrigação, reciclagem dos processo da natureza, luta contra a exclusão social). “O ostracizado padre Himalaya encarou a militância pela ecologia numa ótica social ampla, não esquecendo a atitude e o comportamento individuais”.

Segundo o conferencista, duas das ideias pedagógicas, preconizadas pelo inventor do forno solar, “ainda não estão alicerçadas nem no país nem no mundo”. O “terreno ecológico”, ou seja, a “relação direta da criança com a natureza”, devido ao fenómeno da globalização, ainda não se cumpriu – e está “a perder-se cada vez mais”. Também a “pedagogia direta dos espaços”, através da participação das crianças, na construção ecológica dos edifícios, não está presente na atual “fórmula de ensino”.

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Para responder aos desafios que se lhe colocam, a educação – “um tesouro a descobrir”, como alguém da plateia disse, citando conhecido Relatório da Unesco – deve centrar-se, defendeu o estudioso, nas aprendizagens fundamentais, pilares do conhecimento pela vida fora: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver em comunidade; aprender a ser.

Mas, como referiram vários palestrantes, o atual sistema vive “espartilhado” por tensões permanentes entre a competição e a igualdade de oportunidades; o global e o local; o ter e o ser; o material e o espiritual; o universal e o individual; a tradição e a modernidade; a norma e a “subversão”; a infindável difusão de conhecimento e a limitação da capacidade humana.

Sobre esta incessante “conflitualidade”, as várias correntes e sistemas de organização de ensino expressaram, neste Encontro, o desafio de reinventar o ideal democrático rumo a um paradigma diferente. Evelyne, em representação da educação libertária, frisou que este movimento é um “ato político que preconiza a transformação social”, com base em “aprendizagens espontâneas” – a liberdade da criança é, pois, a “semente” mais importante desta corrente.

Também contra a estratificação e o caráter normativo do “ensino normal”, que “estigmatiza” e “marginaliza” as crianças, os apologistas do ensino doméstico salientaram que este movimento “é uma forma de estar mais perto dos filhos”.

Do diversificado programa, destaque, ainda, para a apresentação, em círculos interativos, de vários projetos educativos, “diferentes formas de ser escola”, como Rede Educação Viva, Serviço Educativo de Serralves, Sementes de Liberdade, Agrupamento de Escolas de Valdevez (AEV) e Movimento Educação Livre. Para o diretor do AEV, os diversos agentes educativos, “apesar das incongruências, das inadaptações, das desorientações e da contra-hegemonia” que acorrentam a escola desde a sua génese, “podem e devem agir […] para o debate de ideias na tentativa de encontrar mais e melhor educação, formação e expressão”, disse Carlos Costa.

Na intervenção mais subversiva do fim de semana, Filipe Jeremias, da Rede Educação Especial, atacou a formação de professores – “um dos problemas do sistema educativo reside na miserável formação” de docentes – e a classe política – “os governantes têm-se esquecido que as pessoas são o fundamental do sistema”. Mas, paradoxalmente, foram os políticos portugueses que conceberam “uma das melhores Leis de Bases do mundo”, considerou.

Apesar do tom crítico, Jeremias deixou uma mensagem de confiança. “A escola, tal como a conhecemos, vai evoluir e implodir, […] porque é possível ensinar tudo a todos de forma diferente”, como, segundo ele, “está demonstrado” no projeto de aprendizagem comunitária que juntou 11 crianças em Monsanto (Idanha-a-Nova), projeto do qual ele foi um dos mentores.

Mas, para essa reinvenção, é “urgente” fazer “prevalecer as questões pedagógicas sobre as administrativas” e tirar lições do passado, deixando de fora a tentação de criar “guetos educativos como aconteceu no pioneiro projeto da Escola da Ponte [Vila das Aves]”, concluiu.

 

 

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Nuvem do Minho
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