Encontrou uma vaca-loura? Ótimo!

A vaca-loura, o maior escaravelho da Europa, está a ser alvo da maior monotorização alguma vez feita em Portugal, com o objetivo de decifrar a sua biologia e, consequentemente aplicar as respetivas medidas de conservação. Nesse sentido, organizou-se a “Rede Portuguesa de Monotorização da Vaca-Loura (Lucanus cervus)”, que pretende conseguir o registo presencial desta espécie, através da participação voluntária de cidadãos-cientistas.

Este inseto, também referido comummente como cabra-loura, carocha ou ainda carroucha, está presente em praticamente toda a Europa, no entanto, a área de distribuição ocupada e a abundância de indivíduos são dados incertos.

Consultando o site de biodiversidade online Naturdata, este é o mapa de distribuição da vaca-loura em Portugal, atualizado pela última vez em 2011. A cor verde indica que a espécie foi observada, documentada e validada por especialista ou existe em coleção privada que permita confirmar a observação em caso de dúvida. No entanto, não há dados disponíveis que permitam inferir sobre a tendência populacional, embora em áreas de distribuição da espécie as populações locais tendam a dizer que no passado era muito mais abundante.

A identificação não apresenta dificuldades uma vez que os machos destes escaravelhos apresentam mandíbulas em forma de pinça. O seu comprimento pode variar entre 2,7 e 5,3 cm (sem contar com as mandíbulas). As fêmeas são mais pequenas, variando entre 2,6 e 4,1 cm. São brilhantes, com a cabeça e tórax negros e abdómen e pinças acastanhados. Existem outras espécies semelhantes, mas que se podem distinguir pelo tamanho, cor e segmentos nas antenas.

O habitat desta espécie está associado a bosques e florestas de caducifólias, podendo também ser encontrado em parques e jardins, dependendo de árvores antigas como o carvalho (Quercus robur) ou castanheiro (Castanea sativa). É uma espécie protegida, constando no Anexo II da Diretiva Habitats, no Anexo III da Convenção de Berna e está classificada como Vulnerável pela IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza.

Estes animais são noturnos/crepusculares, principalmente na zona norte do país, embora também hajam registos diurnos. É principalmente entre Junho e Julho que podem ser avistados nos troncos das árvores, período em que os machos e fêmeas acasalam (E). Logo de seguida, o macho morre, e a fêmea deposita os ovos em fendas na madeira podre (A). Os ovos dão origem às larvas (B) que se vão alimentando da madeira em decomposição durante 1 a 5 anos, para depois formarem a pupa (C). Sofrem depois o processo de metamorfose (D), dando origem a uma fêmea ou macho.

 

A nível ecológico esta espécie é importantíssima no funcionamento dos ecossistemas florestais, sendo responsável pela decomposição da madeira. No entanto, existem vários pontos de ameaça que podem comprometer o seu papel ecológico:

          • Perda e fragmentação do habitat.
          • A destruição/substituição da floresta autóctone naturalmente bem desenvolvida resulta na redução de abrigos e de áreas de alimentação disponíveis, através da eliminação de árvores mortas ou decrépitas.
          • A utilização de fertilizantes, pesticidas e herbicidas alteram a dinâmica do ecossistema florestal por fitocontaminação, passando de seguida para os restantes elementos da cadeia trófica, como a vaca-loura.
          • Coleções para venda podem ser consideradas uma ameaça adicional.
          • A mortalidade em estradas que atravessam habitats favoráveis para a espécie pode ser significativa, chegando a atingir centenas de indivíduos.

 

Em resumo, de modo a contribuir na monotorização desta espécie, pode consultar o site do projeto http://biodeadwood.wix.com/lucanuspt, consultando toda a informação necessária e os procedimentos a tomar nesse sentido. Para tal, basta efetuar o registo fotográfico do exemplar que encontrar, e adicionar o local e a hora do registo.

Este é um projeto dinâmico e exemplar, que promove o espírito científico e participativo de todos nós, contribuindo ao mesmo tempo para uma causa maior.

analagesminhodigital@outlook.pt
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