Editorial

Entregar a saúde aos privados – saúde ou negócio?

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

damiao.velho@sapo.pt

Esta semana fui a uma consulta a um hospital privado e cobraram-me, para além do preço da consulta, uma taxa de 2 euros para higienização.

No programa de alguns partidos de direita pede-se uma maior intervenção dos privados na Saúde, já os partidos de esquerda querem um maior investimento no Serviço Nacional de Saúde.

A questão, para mim, é saber como encontrar o equilíbrio entre a ação de uns e de outros, para que se prestem os melhores cuidados de saúde. Pois, neste momento, ambos dependem uns dos outros.

É óbvio que os privados só existirão se tiverem lucro, e não existe pecado em se fazerem negócios lucrativos. Geram emprego e fazem “rolar” a economia. Desde que cumpram as regras cívicas, pagando os impostos devidos e respeitando os direitos dos trabalhadores e dos utentes.

Ou seja, com o cumprimento escrupuloso da lei e com forte regulação do Estado, já que cabe ao Estado fazer as leis e fazer com que elas se cumpram.

Acontece que tentar fazer da Saúde um negócio pode ser perverso, porque a saúde ou a vida das pessoas não é negociável.

Tão perverso, que os partidos políticos defensores desta ideologia liberal, podem desinvestir no serviço público, para o denegrir ao ponto de nos convencerem que só com os privados a coisa vai lá. E com um tiro matam dois coelhos. Entregam a Saúde aos privados e põe os portugueses a correrem para os seguros de saúde privados. Sendo que algumas empresas são donas de companhias de seguros e também de hospitais privados. Dou o exemplo da Fosun, que é dona da Fidelidade e dos Hospitais da Luz.

Isto de denegrir as empresas públicas por parte do Estado já aconteceu com algumas empresas em Portugal que foram vendidas ao desbarato, e da noite para o dia passaram a dar lucros fabulosos. Não porque os privados tenham feito milagres, mas porque o Estado ajudou a afundar essas empresas, sob a égide dessas ideologias, para nos convencer a entregá-las aos privados.

Com a Saúde não se brinca, não há margem para baixar a guarda ou fazer o que não é necessário. E os privados vão ter, ou já têm, a tentação de obter lucros a todo o custo.

Viu-se com a pandemia, em que muitos hospitais privados se recusaram a receber doentes COVID e cobravam taxas de desinfeção. O Hospital Trofa Saúde em Braga levava 5 euros a mais por consulta para esse efeito, e só tinha à entrada um dispensador de álcool gel de mãos. Ofensivo no mínimo.

A minha experiência pessoal foi bem demonstrativa, para mim, de como os privados rapidamente põe a saúde em segundo plano e só o lucro conta.

Uma vez num hospital particular, por causa de dificuldades respiratórias no nariz, fiz uma ressonância magnética cujo resultado dizia que não tinha desvio do septo nasal. No entanto, o otorrino impôs uma cirurgia para correção de um desvio no septo que não existia. E digo “impôs” porque se recusou a justificar a operação. Imprimiu um documento para eu assinar, já que eu tenho assistência médica da CGD, e praticamente não pago os atos médicos. Mas a CGD paga, e é desse Estado tão desprezado pelos privados que eles vão enchendo os bolsos. Acabem com a ADSE, PSP, GNR, ADM (militares)… tudo do Estado, e logo verão como os privados rapidamente vão à falência.

Rasguei-lhe os papéis na cara e apresentei queixa ao hospital.

E a verdade é que, de facto, não precisava, porque um médico amigo resolveu-me o problema com medicação e até foi bastante simples o tratamento.

Outro caso e ainda mais escandaloso foi quando tive um pequeno chálazio numa vista, também no mesmo hospital.

O oftalmologista disse que isso só passava com uma cirurgia urgente. Ele tinha vaga para a cirurgia no dia seguinte. Pedimos por e-mail uma autorização prévia à CGD e felizmente não chegou nessa tarde. A cirurgia ficou agendada para 15 dias depois. Uma história que dava um sketch de humor. Porque passados os 15 dias, eu apareci para a cirurgia, fui devidamente desinfetado e vestido com roupa própria para o bloco operatório. Já deitado na marquesa, o médico e a anestesista chegaram. Quando a anestesista se preparava para dar a anestesia, o médico observou a minha vista e disse que não fazia qualquer sentido aquela operação, porque eu já não tinha quisto nenhum. O mesmo quisto que ele próprio tinha dito 15 dias antes que só sairia com uma cirurgia urgente. Perguntou, aliás, com espanto, quem tinha sido o médico que tinha prescrito a cirurgia, tamanha era a aberração. Pois, tinha sido ele e havia-se esquecido.

Mais uma queixa ao Hospital que não deu em nada, porque existe uma proteção entre pares que está acima da saúde dos doentes e a Ordem dos Médicos como faz parte do grupo vai fazendo vista grossa.

Enfim, a direita mais liberal em Portugal quer entregar o mais possível a Saúde aos privados. Eu não concordo, pela experiência que tive e por outros testemunhos do género que conheço, e entendo que deve haver uma cooperação entre o público e o privado.

O privado deve existir, tem que existir mas com forte regulação do Estado para evitar abusos e salvaguardar o interesse do utente.

A Saúde e a Educação são os pilares de uma sociedade mais justa e devem estar, maioritariamente, nas mãos do regulador ou sobe o olhar atento do regulador, o Estado. Porque só o Estado pode ser o garante de um acesso igualitário a ambos.

Estas duas instituições, Saúde e Educação, são os pilares da democracia, não dão prejuízo, ao contrário do que se diz.

Dão lucro, porque quanto mais saudável e educada for uma sociedade, mais produtiva é.

Portanto, a Educação e a Saúde são o melhor e indispensável de todos os investimentos.

Num país pobre como o nosso, com clivagens cada vez maiores entre ricos e pobres, se esta ideia vingar muitos irão morrer de doenças com tratamento fácil só porque não têm dinheiro. E muitos subsistemas irão, ou já estão, a ser explorados pelos privados.

Esses privados que nunca querem a intervenção do Estado mas que são os seus maiores subsídio-dependes através dos subsistemas de saúde, neste caso. Os banqueiros também pensam assim mas quando os Bancos faliram quem os salvou foram os milhões pagos pelo contribuinte. Ou seja, o Estado.

O domínio da Saúde por parte dos privados seria um perigo a meu ver.

Nos privados só entra quem tem dinheiro, um seguro de saúde ou um qualquer subsistema de saúde. Não há lugar para os mais desfavorecidos e se a Saúde um dia estiver na mão dos privados muitos morrerão “privados” de cuidados básicos que o SNS dá sem perguntar quanto pesa a carteira do doente.

E isso na hora H não tem preço até porque hoje podemos ter dinheiro e amanhã não!

damiao.velho@sapo.pt

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1 comentário

  1. Concordo com o Damião. Olhando para a assistência médica fico com a sensação que é um partido da esquerda a querer destruir o que já foi um bom serviço de Saúde( SNS). Hoje vemos maternidades a fechar,por horas ou dias, por falta de médicos e outro pessoal. Eu,por exemplo, no dia 123 de Setembro pedi uma consulta para o meu médico de familia. A consulta foi marcada para 12 de Outubro,na véspera telefonaram-me do Centro a dizer que a consulta ficaria para o dia 23 do mesmo mês, porque o médico de familia estava doente e tinha de passar ,no Centro,em Janeiro, para a consulta ser remarcada. O meu problema não é de gravidade, mas a dor num pé é que não me deixa em paz. Eu pergunto não haveria um médico no Centro que me pudesse atender? É por estas pequenas coisas que o serviço particular de saúde vai enchendo os bolsos!

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