Entrevista – Beatriz H. Ramos Amaral: a literatura como arte, pensamento e transformação

BEATRIZ HELENA RAMOS AMARAL, paulistana, escritora e ensaísta, é Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e Mestre em Literatura e Crítica Literária pela mesma universidade. Graduada em Direito pela USP e em Música pela FASM.

Publicou quinze livros, entre os quais Encadeamentos, Primeira Lua (em colaboração com Elza A. Ramos Amaral), Poema sine praevia lege (finalista do Prêmio Jabuti), Planagem, A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga, Cássia Eller – canção na voz do tempo, Alquimia dos Círculos, Peixe Papiro (Prêmio Literatura ZLBooks), Os Fios do Anagrama (Prêmio Literatura ZLBooks) e O Avesso do Arquipélago (2019, Lisboa). Lançou o CD Ressonâncias, de voz e sitar indiano, em parceria com o músico Alberto Marsicano, com poemas de sua autoria e poemas de Haroldo de Campos. Coordenou ciclos literários na Secretaria Municipal de Cultura, Centro Cultural São Paulo, Biblioteca Mário de Andrade e também na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura – dedicados a Clarice Lispector, Edgard Braga. Coordenou o ciclo POESIA 96, de poesia e crítica. Ministrou curso sobre a poética de Edgard Braga na Casa das Rosas. Recebeu o Premio Internazionale di Poesia Francesco de Michele (Caserta, Italia, 2006). Prêmio Literatura ZLB 2018 e 2019, finalista do Prêmio JABUTI (CBL) em 1994 e finalista do Prêmio ANPOLL 2008. Integrou o Conselho de Orientação Cultural da Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo de 2018 a 2022. Foi membro do Ministério Público de São Paulo de 1986 a 2016, Promotora de Justiça e Procuradora de Justiça. Integrou o Órgão Especial do Colégio de Procuradores da instituição. Foi Secretária-Geral e diretora da União Brasileira de Escritores – UBE-SP – de 1996 a 2005. É diretora cultural da APMP desde 2015. Atualmente integra o corpo docente do Curso de Especialização (pós-graduação) em Processos de Criação do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC-SP/Universidade do Algarve.

 

Boa Leitura!

 

 Escritora Beatriz H. Ramos Amaral, é um prazer termos você conosco. Conte-nos, você estreou na literatura aos 19 anos. Que memórias guarda desse início precoce e como ele influenciou a trajetória literária que viria a seguir?Beatriz Amaral –

GOSTA DESTE CONTEÚDO?
Manso Preto

 Guardo excelentes memórias: a da descoberta da literatura e da palavra, de sua sensibilidade, amplitude, beleza e também de sua força, de sua potência. E da descoberta das minhas próprias potencialidades inventivas e criativas, da palavra e da linguagem como o mais pleno e o mais legítimo modo de expressão de minha essência. Na verdade, comecei a escrever quando me alfabetizei. Dos 5 aos 15 anos, escrevi muitas pequenas histórias, contos, roteiros. Eu era uma boa leitora, adorava livros e logo senti vontade de criar personagens e histórias. A partir dos 12 anos, senti a necessidade de me expressar também por meio de poemas. Comecei e não parei mais. Aliás, curiosamente, um de meus primeiros poemas da adolescência tem o nome de Descoberta. Com relação ao meu primeiro livro publicado, um romance escrito em mais de cinquenta capítulos, faço nele a narrativa de vida de um cientista, desde a infância, abordando sua trajetória profissional e, principalmente, os conflitos interiores, pessoais, psicológicos. Escrevi entre os quinze e os dezesseis anos. Publiquei-o aos 19 e houve boa apreciação da crítica,  matérias em jornais e algumas entrevistas na TV. Fui também convidada para fazer palestras e o livro foi adotado para leitura em alguns colégios de São Paulo. A boa acolhida de leitores, jornalistas, professores, deu-me segurança para seguir em frente. Mantive alguns procedimentos em meu processo de criação, outros foram naturalmente se alterando.

 

Com mais de 15 livros publicados, em gêneros como poesia, romance, conto, crítica literária e ensaio, como você enxerga a ligação entre essas formas de expressão? Há um gênero que a representa mais profundamente?

Beatriz Amaral –   Existe uma profunda conexão entre todas as obras, claro, gerada pela minha visão de mundo e pelos interesses que manifesto em literatura: o trabalho com a linguagem, com o léxico, a experimentação das sonoridades, a subversão eventual da sintaxe, a metalinguagem, a forte presença de um ritmo interno, a relação com a música e também o gosto temático de abordar as questões próprias da vida interior das personagens, em procedimentos de mergulho de consciência. Também emprego a ironia e utilizo toques de humor, em pinceladas de olhar crítico sobre o cotidiano, tanto na prosa quanto na poesia. Em suaves toques. Estas características estão presentes na minha linguagem em geral, fazem parte do meu modo de expressão em todos os gêneros. Os primeiros livros que publiquei são o romance (ficção) e vários livros de poemas, sendo um deles inteiramente dedicado ao haicai. Mas àquela altura, de meus vinte e poucos anos, eu já praticava contos, que é um gênero de que muito gosto. Recentemente, participei de mais uma bela exposição de haicais no Museu de Arte Contemporênea de Campinas. Publiquei somente em 2016 o meu primeiro livro de contos, Os Fios do Anagrama, que foi muito bem recebido e  premiado em âmbito internacional. A partir de meus trinta e poucos anos, surgiram as resenhas críticas e críticas, depois os ensaios, que comecei a escrever a convite de editores e jornais. O primeiro convite foi do Jornal da UBE-SP – União Brasileira de Escritores, da qual, mais tarde, acabei me tornando Secretária-Geral e Diretora. Alargou-se, então, a movimentação do meu olhar crítico e passei a analisar com frequência obras de outros autores, principalmente poetas. É claro que é uma experiência extremamente enriquecedora. Respondendo à sua indagação: eu não posso dizer que exista um gênero que mais me represente, porque vários deles me encantam e me chamam para a escrita, entretanto, de modo quantitativo, tenho maior quantidade de obras publicadas em poesia – Encadeamentos, Primeira Lua, Planagem, Alquimia dos Círculos, Luas de Júpiter, Peixe Papiro, O Avesso do Arquipélago, portanto, tive oportunidade de ir afinando bastante os meus instrumentos e recursos de expressão, de depurar mais a linguagem.

 

O livro A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga recebeu prefácios de nomes consagrados como Augusto de Campos. O que essa obra significou em sua formação e produção crítica?

Beatriz Amaral –  É um livro muitíssimo especial em minha trajetória. Conheci a poesia de Edgard Braga em minha infância, em livros de meus pais, autografados pelo poeta, e, desde cedo, senti grande afinidade com as camadas sensórias de sua linguagem estética, principalmente nos livros que ele publicou a partir dos anos 1960, quando o emprego da visualidade se ampliou e foi se tornando indispensável em sua poética inventiva e arrojada. Embora tenha nascido em Maceió, Alagoas (1897), Braga fez seus estudos no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde se formou em Medicina. Casou-se em segundas núpcias com uma das tias de meu pai e nosso contato cresceu ainda mais na minha adolescência. Ele foi um pioneiro, um poeta-artista inventivo, sempre navegando além do convencional, indo além. Sua obra é inspiradora para mim e para muitos leitores de todas as gerações. Como diz Augusto de Campos, no prefácio, a poesia de Braga influenciou a obra de Tadeu Jungle, Arnaldo Antunes, Walter Silveira. Considero um privilégio este convívio que tive a oportunidade de manter com Braga, até o final de sua vida. Quando ingressei em meu curso de mestrado em Literatura e Crítica Literária, na PUC-SP, em 2002, eu já havia escrito vários artigos sobre Edgard Braga e também havia idealizado e coordenado uma grande homenagem multimídia, em seu centenário de nascimento, em 1997, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, da qual participaram Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Omar Khouri, Lenora de Barros, Arnaldo Antunes, Tadeu Jungle e Walter Silveira. Portanto, escolhi a obra de Edgard Braga como tema de minha dissertação de mestrado, optando por realçar a vertente metalinguística, que o leitor encontra em constante transmutação em seus poemas. Posteriormente, em 2013, publiquei o livro A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga (Ateliê Editorial), que é minha dissertação de mestrado ampliada  e tive a alegria de belos prefácios: as palavras especiais do extraordinário Augusto de Campos, amigo de Edgard Braga, de Olga de Sá, minha orientadora na dissertação e de Maria José Palo. Posso dizer que o livro foi o resultado, a consequência de meus estudos sobre a obra bragueana, que continua a me encantar e precisa ser cada vez mais conhecida no Brasil, pela sua inventividade, por seu arrojo e pioneirismo. Na minha produção crítica, o livro foi um marco também pela satisfação que me trouxe, confirmando, de maneira inequívoca, o prazer que sinto em analisar análise literária.

 

Seus livros Os Fios do Anagrama e Peixe Papiro foram premiados como os melhores de conto e poesia, respectivamente. Como você percebe o reconhecimento da crítica e do público em sua obra?

Beatriz Amaral –   É verdade. Tive esta alegria com dois livros relativamente recentes.  Os Fios do Anagrama (RG Editores) é um livro de contos, está indo para a 3ª. edição, e a primeira edição é de 2016. E Peixe Papiro (Scortecci Ed.) é uma obra poética que também está em 2ª. edição, sendo que a 1ª.edição é de 2018. São livros que também lancei em Portugal, em Lisboa e outras cidades portuguesas. O reconhecimento de leitores manifesta-se por meio de corespondência, antes eram as cartas manuscritas (recebi várias nos anos 1980, a respeito dos primeiros livros); hoje, são os e-mails, e os comentários nas redes sociais. E o reconhecimento da crítica se materializa principalmente nas resenhas e comentários críticos de revistas e jornais e na outorga de prêmios literários, que muito nos alegram, por representarem uma apreciação positiva importante sobre um trabalho realizado com vocação, dedicação, empenho, técnica e, naturalmente, emoção. O reconhecimento também gera convites para palestras, para integrar coletâneas, para escrever prefácios, tenho recebido cada vez mais e procuro atender, sempre de acordo com as minhas possibilidades.

 

Beatriz, a sonoridade tem papel fundamental na sua escrita. Como foi unir poesia e música no CD Ressonâncias, em parceria com Alberto Marsicano?

Beatriz Amaral –  Sim, a música é relevante no processo criativo das outras artes e, para mim, de modo especial. Gosto de trabalhar os recursos fônicos, as aliterações, as assonâncias, as rimas internas, as anáforas, o meu ritmo interno. Ao batizar o meu CD de Ressonâncias, quis, na verdade, fazer alusão a este elo, a esta conexão íntima entre poesia e música. Os poemas escolhidos pertencem a meus livros Alquimia dos Círculos (2003) e Luas de Júpiter (2007) e também escolhi dois poemas belíssimos de Haroldo de Campos, que fazem parte de seu livro Crisantempo (1998) para abrir o disco: A poesia explicada em Tenerife 1 e A poesia explicada em Tenerife 2. Convidei um músico especial para estar comigo neste trabalho: Alberto Marsicano, que, além de citarista, foi poeta, tradutor, filósofo, escritor, um artista com a sensibilidade imensa e sempre aberta e que captou muito bem o clima dos poemas, executando ragas magníficos. O resultado ficou muito bonito realmente. O CD é de 2010, mas há alguns clipes que podem ser encontrados na internet, em videoartes feitas por Grima Grimaldi e por Fábio Vietnica, no Youtube: Tecido, Peixes, entre outros. 

 

A poesia brasileira contemporânea vive um momento de pluralidade estética. Como você avalia esse cenário e onde sua obra se insere nesse panorama?

Beatriz Amaral – A poesia brasileira tem muitas vozes interessantes e instigantes atualmente. O ideal seria que essas vozes pudessem ser melhor e mais conhecidas pelo grande público. É preciso encontrar canais de distribuição mais eficazes. Os eventos, feiras e festas suprem um pouco esta lacuna, mas o quadro ainda está longe do desejável. Porém, não há dúvida, como você bem disse, a pluralidade é inegável. Vejo a pluralidade como uma característica positiva da contemporaneidade, pelo necessário alargamento de fronteiras. O meu trabalho poético permanece valorizando a espacialidade e a sonoridade, ampliando o campo de invenção, conectando-se com outras linguagens estéticas e também com outros gêneros literários, dialogando com as novas tecnologias, realçando as interações com as demais expressões artísticas e buscando, sempre, penetrar na essência de nossas questões existenciais, contemplando a o tema da transitoriedade e da finitude, as angústias, o êxtase, os limites e os deslimites, o tempo dos infinitos, a migração das luas e das estrelas, quer no plano lírico, quer no plano concreto.  Também tenho como uma forte característica gostar de escrever sobre o ato de criar e compor, realizando, pois, sempre algo no plano da metapoesia. Nas minhas narrativas, além deste conjunto de temas que mencionei, gosto de inserir interposição ou sobreposição de ações e de personagens, gerando estranhamento, outras vezes apresentando o meu pensamento crítico. Alguns trabalhos têm viés social, outros pendem mais para as questões existenciais.

 

Você coordenou ciclos literários importantes na Secretaria Municipal da Cultura. Como essas experiências moldaram sua visão sobre o diálogo entre literatura e políticas culturais?

Beatriz Amaral – Foram experiências confirmatórias de meu pensamento, de que a literatura está presente em nossa vida, em nossa existência e temos de reconhecer este fato, dando a ela o seu lugar de direito. Nas instituições, nas secretarias de cultura, nos museus, nas escolas, nas universidades e onde mais for possível. O idioma português é belíssimo e temos de reavivá-lo e expandi-lo constantemente. A literatura brasileira está entre as mais ricas do mundo. Creio ser de muita importância, também, celebrarmos, constantemente, ao lado dos escritores contemporâneos, os extraordinários autores que já tivemos no século XX, com profundidade, com relançamentos de obras clássicas, documentários, debates. Eu tive oportunidade de celebrar, na Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo os 50 anos de estreia literária de Clarice Lispector. Fizemos uma semana inteira com evento multimídia na Biblioteca Mário de Andrade, com mesas de palestras, projeção de filmes inspirados em seus livros, exposição de fotografias e debates muito proveitosos. Também tenho feito, sempre que possível, algum ciclo dedicado à obra de Edgard Braga, e tenho proferido palestras sobre ele. Também gosto de explorar as relações entre a poesia e a crítica, entre a literatura e a música e o cinema (o audiovisual em geral).

 

Seu romance de estreia foi adotado em escolas e motivou palestras. Que importância você atribui ao contato entre a literatura e o ambiente escolar?

Beatriz Amaral –  Considero extremamente relevante este contato, precioso, não só para despertar a vontade de ler e formar leitores – o que, obviamente, é de suma importância, é básico, é fundamental – como também para atrair novas vocações para a escrita e para todo o conjunto de atividades diretamente relacionadas com o livro, como a edição, a tradução, a revisão, a docência em português, em gramática e em literatura, o jornalismo literário e cultural, a produção literária, a organização e a coordenação de bibliotecas, a formação de livrarias, a atuação nas distribuidoras. A presença de escritores, de tradutores, de livreiros, nas escolas, em contato com os estudantes, é um estímulo vivo para a melhor compreensão das atividades literárias propriamente ditas e as conexas com elas. Todo este universo precisa estar disponível para o conhecimento dos alunos, para que vejam, perguntem, conheçam, e possam refletir sobre seus próprios caminhos vocacionais com mais segurança.

 

Como foi ter uma dissertação de mestrado defendida sobre seu livro Encadeamentos? Qual o impacto de ver sua obra também como objeto de estudo acadêmico?

Beatriz Amaral – Foi, evidentemente, uma bela experiência, que me gratificou muitíssimo. Encadeamentos é o meu terceiro livro publicado e o primeiro editado pelo Massao Ohno. Foi publicado em 1988. Tive um trabalho diferente neste livro, porque fiz a seleção de fragmentos, de poemas breves, de somente duas ou três linhas, alguns haicais, alguns dísticos, poemas de uma palavra só. Também inseri sinais da grafia musical em um dos poemas, justamente no que encerra o livro, o poema Ritornello, que está na última página e propõe uma volta ao começo, numa espécie de ciclo, de eterno retorno, subvertendo a concepção de começo, meio e fim. Espalhei esses fragmentos, em quadrados de papel sulfite impressos,  pelo tapete de minha sala, e depois de várias experimentações, colhi e ordenei 63 poemínimos. Outra ação diferenciada que tive neste livro foi fazer sua capa: eu mesma concebi e executei, com letraset e pautas musicais. Senti que era o meu primeiro livro com uma linguagem estritamente minha. Pensei no projeto como um todo: o livro como um objeto estético, que é, como deve ser. Pois, publicado o livro, ocorreu que, dois anos depois, ele chegou às mãos de uma mestranda da PUC-SP, a hoje Dra. Anna Luiza Campanhã de Camargo Arruda Bauer, que estava justamente procurando um livro de poesia brasileira de algum autor ou autora relativamente jovem para transformá-lo em objeto de sua dissertação de mestrado. Eu possuía e possuo o caderno de manuscritos, e duas versões de dactiloscritos com correções. Ela fez uma longa entrevista comigo e copiou todo o material do processo de criação. Para minha surpresa e também para minha alegria, recebi, três anos depois, em 1993, um telefonema com convite para assistir à sessão pública de defesa da dissertação sobre o processo de criação de Encadeamentos, na PUC. A dissertação se chama Dos rascunhos à obra editada: um irinerário poético. Também é muito interessante mencionar que Anna Luiza trabalhou em duas áreas de atuação, com dupla orientação. De um lado, na teoria crítica dos processos de criação (com a orientação de Cecilia Almeida Salles, no programa de Comunicação e Semiótica), e, de outro, na teoria do discurso (com Ana Maria Marques Cintra, em Língua Portuguesa), o que, evidentemente, enriqueceu bastante a análise e ampliou o campo de pesquisa. Fiquei sabendo que foi o primeiro livro de poesia estudado no Brasil sob esta ótica. Esta experiência trouxe-me um impacto altamente positivo. Tomei conhecimento da Crítica Genética e, depois, da Teoria Crítica dos Processos de Criação, erigida por Cecilia Salles e, quase uma década depois, tornei-me sua aluna, fazendo o meu curso de mestrado na PUC de São Paulo. Utilizei, naquela época, conceitos da teoria dos processos de criação no estudo da obra de Edgard Braga (2002-2005). E, agora, recentemente, adotei esta ótica para o meu doutorado, que cursei de 2020 a 2024, analisando o amplo processo de criação do extraordinário Paulo César Pinheiro.

 

Estou sabendo que, em breve, teremos lançamentos de novos livros. Conte-nos, o que podemos esperar das novas obras que você está preparando para publicação? Pode nos dar uma prévia dos temas ou caminhos que pretende explorar?

Beatriz Amaral – Tenho várias surpresas, dois livros na linha crítica, também tenho um novo livro de poemas, um conjunto de ensaios e resenhas escritas desde o ano de 1995 e um romance em andamento. Aos poucos, eles virão à luz. E há outros projetos nascendo.

 

Além da Literatura: Outras Faces de Beatriz H. Ramos Amaral#

Beatriz, sua formação inclui Direito e Música, você foi promotora e procuradora de justiça por três décadas. Como essas áreas dialogam com sua produção artística e literária?Beatriz Amaral –

 Com relação à Música, creio que já respondi, ao frisar a importância dos aspectos fônicos, da sonoridade como um todo, da melopeia e da existência de um ritmo interno em tudo o que escrevo. Isto ocorre – a presença deste ritmo – mais intensamente na minha escrita poética – mas também na ficção, na narrativa de ficção (contos, romance) ou nos textos de crítica, nos ensaios, no livro jurídico. É algo fundamental que me acompanha desde sempre. Com relação ao Direito, além da depuração da linguagem, existe, evidentemente, um empréstimo ou uma doação da sensibilidade da poeta e escritora para a atividade jurídica, que considero altamente positiva, pois, estando com os meus canais sensórios mais abertos, pude e posso olhar para os fatos com o olhar de humanidade que eles merecem. Isso não implica maior ou menor grau de liberalidade; ao contrário, pois sempre fui considerada rigorosa em meus posicionamentos. Mas creio que o humanismo é o que realmente se espera possa estar presente em todas as profissões e procurei fazer o melhor neste sentido. Na verdade, há um longo ensaio que escrevi sobre Direito e Literatura, publicado na Revista de Direito Criminal, a convite do Desembargador Marcos Zilli, creio que a publicação é de 2018. Neste ensaio, examino com minúncia as conexões entre as áreas.

 

Hoje você é docente, no entanto, já atuou como editora, gestora cultural e coordenadora de revistas e projetos. Como concilia tantas frentes e o que a motiva a seguir múltiplos caminhos?

Beatriz Amaral – Na verdade, em literatura a minha atividade principal é a de escrever, sempre. Nos caminhos da escrita, surgiram convites que não pude deixar de aceitar, pela afinidade que eu tinha com os temas e por sua relevância. Está aí incluída a edição que fiz, em 2021, de um número especial da Revista Eutomia – da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Pernambuco, a UFPE, inteiramente dedicado à obra de Augusto de Campos. Augusto de Campos é o maior poeta brasileiro vivo, sempre foi um de meus poetas preferidos, cuja obra publicada li na íntegra. Além disso, conheço muitos dos estudiosos de sua obra e pude convidá-los a escreverem artigos e ensaios sobre a obra de Augusto A revista ficou excelente, agradou a todos e ao próprio Augusto. Foi um trabalho extremamente prazeroso para mim. No mesmo sentido, a homenagem a Clarice Lispector, que apresentei `Secretaria de Cultura como ideia e a própria Secretaria acabou por me convidar e a insistir para que eu mesma coordenasse o ciclo. Os ciclos dedicados à poesia e à crítica: POESIA 96 e 97, que reuniu centenas de poetas e de críticos. Os ciclos e palestras dedicados a Edgard Braga. A minha participação como membro da Diretoria da União Brasileira de Escritores, durante um período de 10 anos, sendo o primeiro biênio como Secretária-Geral da entidade. Procurei organizar o tempo e cumprir tudo a que me propus. Mas é claro que, nesta longa caminhada, deixei de atender a inúmeros outros convites, pedidos e sugestões que não podiam ser inseridos em minha disponibilidade de tempo, a quantidade é grande ….

Já o convite que recebi em 2024 para a docência foi realmente irrecusável. É uma alegria fazer parte do grupo de docentes que atua ao lado de Cecilia Almeida Salles neste novo curso de pós-graduação em Processos de Criação – que ocorre na PUC-SP e na Universidade do Algarve, de modo síncrono. Meu foco é a Poesia. O curso é interessantíssimo e tem enfoque transversal. Os professores são todos altamente qualificados. E o grupo de alunos desta primeira turma, muito interessado.

 

Tendo representado o Brasil em congressos e festivais internacionais, como você percebe a recepção da literatura brasileira no exterior, especialmente da poesia?

Beatriz Amaral –  Foi uma honra, para mim, naturalmente,participar de algumas edições de Salões do Livro, Feiras do Livro e Festivais, inclusive em Lisboa e nos Açores. Pude perceber o entusiasmo dos leitores com a nossa literatura, que consideram muito viva e vibrante, sentem prazer em constatar a nossa vibração, em conhecer nossos novos autores, ler as nossas construções sintáticas. Ainda conhecem mais nossas obras em prosa. A poesia precisa ser mais conhecida. Também recebi convite de três editoras para publicar meus livros em Portugal e na Espanha. Já publiquei em Lisboa o meu livro mais recente, que é O Avesso do Arquipélago (editado pela In-Finita, em 2019), do qual também participei da concepção da capa, fornecendo a imagem de um mandala construído por mim e utilizado por Julia Mayrink na bela capa que fez para o meu livro. A minha participação em eventos no exterior foi maior a partir de 2011, especialmente em 2018/2019. Seguiram-se vários convites, depois, que não pude atender, por estar concentrada nas pesquisas e na redação de minha tese de doutorado. Tudo tem o seu tempo certo; há um tempo de plantar, outro de colher, como nos diz a lição bíblica dos Eclesiastes.

 

Qual foi o impacto de sua atuação na UBE-SP, na REBRA e em outras instituições culturais e jurídicas para o fortalecimento da presença feminina na literatura e no espaço público?

Beatriz Amaral – Naquele meu tempo de UBE, a partir de 1996, ainda eram poucas as mulheres que participavam da direção da entidade. Este número foi crescendo de modo acelerado, felizmente, nestas últimas duas décadas. Além da REBRA – Rede de Escritoras Brasileiras, eu participei do Movimento de Mulheres do Ministério Público e da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica. Conheci muitas líderes empenhadas neste fortalecimento e na redução completa da desigualdade de oportunidades para mulheres e homens. Participei de seminários, publicações e fiz várias palestras, inclusive fora do Brasil. Fui convidada para participar da Jornada Internacional de Mujeres Escritoras, em várias edições. Acredito ter contribuído e continuo à disposição para, com seriedade, atuar para este fortalecimento da presença feminina em todos os espaços e, em especial, na literatura.

 

Dentre tantos prêmios e homenagens recebidas, há algum que tenha sido especialmente simbólico para você? Por quê?

Beatriz Amaral –  Bem, todos eles muito me alegraram, em especial, o Premio Internazionale di Poesia Francesco de Michelle, que recebi na Itália, os dois Prêmios da ZL Books, que foram realizados em âmbito internacional, nos vários países de língua portuguesa. Senti, nestas experiências, que minha obra estava ultrapassando fronteiras geográficas e sendo valorizada, o que é um presente bastante significativo.

 

Escritora Beatriz H. Ramos Amaral, agradecemos sua participação, conte-nos de que forma o leitor pode entrar em contato, conhecer melhor seu trabalho, comprar seus livros?

Beatriz Amaral – A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga pode ser adquirido diretamente com a Ateliê Ediorial.  Peixe Papiro pode ser adquirido com o Grupo Editorial Scortecci. Os Fios do Anagrama e Escritos Jurídicos podem ser adquiridos com a RG Editores. E em livrarias. Há também páginas minhas no Facebook, no Instagram e no Linkedin. Digitando-se Beatriz Helena Ramos Amaral, Beatriz H Ramos Amaral ou Beatriz Ramos Amaral, as páginas logo aparecem. O endereço de meu site é www.beatrizhramaral.com.br   Agradeço. Grande abraço a todos.

 

LInks para acesso a compra dos livros da autora:
www.atelie.com.br

www.rgeditores.com.br

 

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