Eucalipto: a pirite das florestas

O eucalipto é a árvore que mais área ocupa da nossa floresta, e por esse motivo a que mais polémica provoca – uns defendem as suas diversas utilidades com rápida rentabilidade, enquanto outros recuam face às suas características invasoras.

Numa breve apresentação desta espécie, o nome eucalipto não corresponde a uma única espécie em concreto, mas sim a várias espécies que pertencem ao género Eucalyptus, onde constam mais de 700 espécies, e quase todas provenientes da Austrália. Em Portugal, a árvore comummente designada por eucalipto, diz respeito, maioritariamente, à espécie em particular Eucalyptus globulus. Segundo dados do PEFC Portugal (Sistema Português de Certificação da Gestão Florestal Sustentável), esta árvore ocupa 812 mil hectares num total de 3,2 milhões de hectares, ou seja, 25,4% das florestas portuguesas. Mas qual a razão para tais números?

As espécies do género Eucalyptos são consideradas invasoras, isto é, a sua fácil adaptabilidade a novos ambientes, em conjunto com uma rápida expansão, provoca alterações no equilíbrio dos ecossistemas. No entanto, ao contrário do que se possa crer, a grande dispersão desta árvore não acontece de forma natural, mas sim através de plantações feitas pelo Homem.

O eucalipto carrega consigo inúmeras vantagens, principalmente para empresas produtoras de papel, madeira, produtos desinfetantes, para fins medicinais e higiénicos. Graças ao seu rápido crescimento e forte resistência a pragas, é fácil entender qual o interesse em plantar o eucalipto – pouco investimento, grande lucro. Esse fator levou a que muitos proprietários particulares iniciassem plantações de eucalipto para assim tirarem vantagem das suas terras. Como a nossa floresta é maioritariamente privada (82,2% de área florestal), entende-se assim a razão do eucalipto ser a árvore mais difundida em Portugal.

Vamos aos contras. Embora o eucalipto tenha todas estas qualidades, existem consequências para o meio onde está inserido. O primeiro fator reconhecido é a monocultura originada, ou seja, onde se plantem e/ou desenvolvam eucaliptos, a quantidade de espécies aí presente é bastante reduzida, acabando por diminuir a biodiversidade, principalmente das espécies autóctones. O rápido desenvolvimento dos eucaliptos, em altura e área, faz com que estas consigam captar mais luz, desfavorecendo as restantes árvores, com crescimento mais lento, como por exemplo o carvalho. Também são conhecidos por absorverem grandes quantidades de água, mas apenas à superfície, pois as suas raízes não ultrapassam os 2,5m de profundidade. No entanto, não deixa de ser um fator de competição, assim como os nutrientes.

Em conclusão, praticamente somos nós, como produtores particulares, que decidimos o destino das nossas florestas, se aderimos ou não à moda do eucalipto. A questão que nos temos de colocar é se realmente compensa o lucro obtido em troca de uma floresta cada vez mais pobre. Não nos podemos esquecer que tudo isto funciona de forma isolada, mas sim num processo dinâmico de comunicação. Todo o ecossistema em si é afetado.

Se quer ajudar no controlo do eucalipto, ou até de outras espécies, existe uma plataforma de registo, desenvolvida especificamente para esta temática, e que pode consultar através da página “Plantas Invasoras de Portugal” (http://invasoras.pt/), onde pode conseguir muita mais informação sobre as espécies invasoras da nossa flora, em Portugal, assim como do projeto desenvolvido. Para facilitar os registos no momento do avistamento, existe ainda uma útil aplicação com o nome “Plantas Invasoras”, de fácil utilização, com possibilidade de adicionar fotografia e coordenadas de GPS.

Ana Lages, Mestre em Ecologia

analagesminhodigital@outlook.pt
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