Policialmente falando: Futebol e Claques (violência-parte 1)!

Vitor Bandeira

(Inspector-chefe aposentado da Polícia Judiciária)

O tema desta nossa coluna de hoje, vem a propósito dos incidentes ocorridos na semana transacta com elementos da claque do SLB no Estádio do Atlético de Madrid, tentando abordá-lo em forma de estudo do fenómeno em si mesmo e não sob o prisma da notícia sensacionalista. Por motivos de espaço editorial vamos dividir este tema em duas partes, sendo a segunda reservada a elementos das claques ouvidos sobre este tema, em estudo realizado.

 As claques são um dos símbolos da violência no desporto. A grande maioria dos casos relacionados com violência em recintos desportivos. Estas, muitas vezes movidas pela paixão cega ao seu clube e pela vontade de apoiá-lo incondicionalmente, têm atitudes que em nada beneficiam os espectáculos.

As claques, nos últimos anos, têm sido o expoente máximo da violência. Casos ocorridos ultimamente com o arremesso consecutivo de tochas contra os adeptos do clube adversário ou para o recinto de jogo, distúrbios nas comemorações de vitórias e títulos, com confronto com as forças policiais. Casos como estes têm acontecido vezes sem conta tanto em Portugal como noutros países. Países como Argentina, Itália, Holanda estão na liderança desta estatística negativa, relacionada com a violência.

Os elementos das claques muitas vezes aproveitam os jogos das suas equipas para de certa forma transporem cá para fora todos os problemas, angústias, medos, ou seja, as claques são uma espécie de escape de todas as emoções contidas durante uma semana de trabalho. As pessoas basicamente  funcionam como um balão, vão enchendo, enchendo… Este é, a meu ver, o grande problema da violência nas claques, enquanto as pessoas virem no futebol um escape das suas emoções e vingarem nos adeptos das outras equipas todas as suas frustrações.

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A violência nas claques está presente tanto a nível físico, com todos os exemplos que já atrás falei. Mas também está presente através da violência psicológica, todas aquelas frases, injúrias, provocações, entre outras são uma espécie de violência psicológica.

O futebol é o jogo de todo o ano, de todos os anos e a televisão transformou-o no mais global de todos os espectáculos globais. À sua volta pululam interesses que não consigo sequer imaginar , os agentes reservam uma fatia substancial dos proventos da circulação internacional de jogadores e treinadores. Quando há muito dinheiro em jogo, o intermediário aparece. Por outro lado, o fenómeno das claques teve no passado uma relação nítida com o neo-nazismo, os skinheads e outros grupos de violência extremista de direita, organizada ou gratuita. A sigla NN da claque do Benfica No Name Boys não deixava dúvidas sobre estas assustadoras relações. Mas não há nisto nenhum grande clube sem telhados de vidro, embora um dos lados do problema os possa ter ultrapassado: a claque tornou-se o lugar da pulsão adolescente e da expulsão de violência suburbana das metrópoles ocidentais. O fenómeno do hooliganismo, agora relativamente diminuído, teve o seu expoente máximo na Inglaterra e na Holanda.

Durante os anos 70 e 80, o hooliganismo, o alcoolismo e violência de alguns adeptos de futebol (especialmente ingleses) começaram a sujar a reputação do futebol, assim como a levar cada vez menos pessoas aos recintos desportivos.

Os Hooligans surgiram na Grã-Bretanha e rápido se alastraram a outros países. São na maior parte das vezes grupos ligados a ideais neo-nazis, e que vêm no futebol uma forma de expressarem esses seus ideais. Os Hooligans encontram-se hoje em dia ligados de uma forma inequívoca a grupos neo-nazis. As bandeiras destes grupos são facilmente encontradas um pouco por todo o mundo nos estádios de futebol. Estes grupos, mais do que apoiar a sua equipa, procuram de certa forma impor a sua imagem de força neste mundo. Existem casos como na Holanda em que são organizadas autênticas batalhas campais, entre grupos rivais, para disputarem a liderança entre os mais fortes, e o respeito dos outros. Se pensarmos bem, é o instinto animal ao mais alto nível, senão vejamos: no reino animal quem sobrevive são os mais fortes; os animais mais fortes obtêm o respeito dos outros assim como a liderança de suas manadas. No século XXI e quando devíamos evoluir e não regredir, parece que cada vez mais acontecem situações que nos aproximam dos nossos antepassados animais.

Desde os anos 70, têm sido desenvolvidos vários estudos em diversas áreas do saber sobre o fenómeno da violência entre adeptos nos jogos de futebol, mas poucos relacionam este fenómeno com a Criminologia.

A conduta desordeira e o comportamento destrutivo daqueles que assistem aos jogos de futebol, especialmente na Europa, tem vindo, nos últimos 30 anos, a receber uma maior atenção da parte dos órgãos de comunicação social e, por conseguinte, merecem uma maior atenção por parte da Criminologia. O Hooliganismo, no futebol, é considerado uma actividade criminal. É, no entanto, única, tendo em consideração a sua natureza e a sua especificidade. Ocorre quase sempre nas localidades e/ou nas proximidades dos estádios de futebol.

Na generalidade as pessoas consideram os elementos que fazem parte das claques como sendo indivíduos “selvagens” e sem capacidade de julgar o que está certo ou errado. Mas a verdade é que alguns deles são pais de família, inseridos na sociedade, pertencentes à classe média/alta, que confessam ver no futebol uma forma de aliviar o stress do dia-a-dia.

O problema surge quando “esse” aliviar provoca confrontos fiscos entre indivíduos. Urge tentar perceber o que leva estes sujeitos a não conseguir controlar os seus impulsos agressivos, pois muitos deles, assim que saem daquele ambiente transformam-se, voltando a ser o que normalmente são, isto é, indivíduos respeitadores e respeitáveis.

vitorbandeira.minhodigital@gmail.com
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