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Armando Loureiro: a fibra de um Campeão de Remo!

Armando Loureiro

A memória não pode ser curta ou apagar-se perante pessoas que se dedicam de alma e coração a uma causa, ou neste caso ao remo. É no tempo que recuamos, concretamente 50 anos para falar de Armando Loureiro, um ex-atleta do remo com provas dadas na modalidade, não só como desportista, mas também como técnico e dirigente.

Muitas histórias para contar, até alguma caricata, como por exemplo: uma não ida aos Jogos Olímpicos por falta de equipamento à sua medida. Tempos que passam pela Mocidade Portuguesa e que nos trazem factos esquecidos ou que se tentam que não se saiba ou, quem sabe, guardados no baú.

Armando Loureiro tem, também, uma visão muito própria dos dirigentes de hoje e faz acusações. Minho Digital falhou com esta ‘glória viva’ e fomos lembrados a descobrir histórias de outros tempos.

 Minho Digital (MD) – Porquê a modalidade do remo?

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No tempo em que eu era adolescente e com idade para praticar desporto, não havia muito por onde escolher. Não havia clubes, e os que havia não dispunham de poder financeiro para se darem ao luxo de sustentar muitos atletas a praticar as poucas modalidades desportivas existentes numa cidade como Viana do Castelo. Assim, os jovens tinham que recorrer ao campo d’Agonia no caso do futebol ou à Mocidade Portuguesa (MP) no caso do remo. Nessa altura, o Clube Náutico de Viana do Castelo coabitava as mesmas instalações da MP e beneficiava dos atletas ali formados, permitindo-lhe não despender de dinheiro na formação. Nessa altura eu trabalhava nos Estaleiros Navais (E.N.V.C.) de dia e estudava à noite na Escola Comercial e Industrial. Praticava o remo aos fins de semana e quando tinha disponibilidade de tempo.

MD -Em que clubes foi remador?

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Como referi, iniciei-me no remo em Outubro de 1962 no Centro de Remo nº3 da Mocidade Portuguesa, tendo sido campeão nacional em Junho de 1963. Nesse mesmo ano fui filiado pelo Clube Náutico na Federação Portuguesa de Remo tendo representado este clube nas regatas em que participou no resto da época.

Armando Loureiro (1963) com o Troféu do Campeonato Nacional da Mocidade Portuguesa em yolle 8 no Rio Tejo em Lisboa

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Equipa de yolle 8 do Centro de Remo nº3 da Mocidade Portuguesa de Viana do Castelo (1063)

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Tripulação de Shell de 2 com timoneiro que venceu os campeonatos regionais e nacionais de principiantes juniores e seniores. Aveiro em 1965.

MD- Dos títulos que conquistou ao longo da sua carreira qual ou quais os que tem mais orgulho?

De um modo geral eu fiz parte, quase sempre, de equipas ganhadoras. Naquela altura havia poucas competições, mas havia os campeonatos regionais e os nacionais.

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Ganhei quase todos os títulos regionais nas regatas em que participei em 1963 e 1964, quer nos yolles quer em shell, mas só ganhei dois ou três títulos nacionais. No mesmo período, em 1965, fiz parte de uma tripulação de shell de dois com timoneiro que ganhou todas as regatas em que participou. Ganhámos três títulos regionais, três títulos nacionais e vencemos o Troféu Celta e o Torneio Ibérico, em Espanha, entre outras regatas de índole particular e regional. Em 1966, fazendo parte de outras tripulações, ganhei dois títulos regionais e um nacional e vencemos o Torneio Celta em Vigo entre outras regatas particulares que vencemos. Em 1967/1968 e 1969 interrompi por causa do serviço militar, regressando em 1970 para fazer o skiff. Neste tipo de barco venci todas as regatas em que participei, cá e em Espanha, querendo destacar o campeonato nacional sénior, integrado nas Comemorações do 50º aniversário da Federação Portuguesa de Remo, no rio novo do Príncipe, em Cacia, Aveiro. Depois disso, remei mais dois anos em competição, tendo ganho quatro títulos regionais e dois nacionais e umas quantas regatas particulares, incluindo em Espanha, onde bati o melhor tempo de acesso aos Jogos Olímpicos na Península Ibérica, em skiff. Naquele ano, eram as Olimpíadas e, sendo eu um dos três melhores remadores nacionais, não fui seleccionado para ir a Munique porque –  disseram eles – «não tinham fato feito à minha medida para o desfile protocolar»… Em 1973, tendo havido um conflito generalizado no Clube Náutico e Mocidade Portuguesa, suspendi a prática desportiva e tornei-me no treinador da Mocidade Portuguesa que abandonei logo a seguir por incompatibilidades com o director que, no âmbito da MP, queria que eu coordenasse outras actividades que não as do remo propriamente dito.

Armando Loureiro (1970) sagrou-se Campeão Nacional de Remo skiff integrado no Cinquentenário da FPR (Federação Portuguesa de Remo)

Em 1970 no seguimento da vitória no Campeonato Nacional numa homenagem a Armando Loureiro

Em 1971 em Bouzas, Vigo (Galiza), no Liceu Marítimo de Bouzas onde em skiff ganhou o Trofeo Ibérico Celta

«HÁ DIRIGENTES DESPORTIVOS QUE CAÍRAM DE PARAQUEDAS POR VARIADAS RAZÕES»

MD- O remo de antes e de agora tem muitas diferenças?

Na minha opinião, remar, rema-se da mesma maneira, aqui e ali com pequenas diferenças no gesto ou na postura do remador na embarcação. A grande diferença está na metodologia do treino, nos elementos científicos do treino e na alta tecnologia do material (embarcações e remos, como nos elementos complementares do treino). Estas são as grandes diferenças que eu encontro entre o remo praticado hoje e o que se praticava há 50 anos. Porque é esta a distância a que nos estamos a referir.

MD- Que nomes do remo destacava?

Ao Longo da minha actividade ligada ao remo destacava dois nomes: Carlos Seixo, assassinado por um vizinho; e a lenda com que adjectivo o maior remador de todos os tempos, HENRIQUE BAIXINHO. Este ainda em plena actividade, representando o Remo de Caminha e do nosso país de uma forma exemplar que ficará na história do remo nacional. O meu bem-haja a esse grande exemplo e que o Minho Digital – de que sou um leitor ‘ferrinho’ – recordou numa entrevista há 3 semanas.

MD- Sabemos que chegou a criar um clube de remo. Qual foi e que sucedeu?

Não foi propriamente um clube. Como atrás referi, nos finais de 1973 abandonei o cargo de treinador do Centro de Remo da Mocidade Portuguesa. Quatro meses depois deu-se o 25 de Abril e a consequente extinção da MP e outras instituições do anterior regime político. Tomando consciência do que estava a acontecer, voltei à escola de remo que estava a formar no âmbito da MP e, dirigindo-me ao então Batalhão de Caçadores 9 onde funcionava o COPCON em Viana do Castelo, assumi perante os Comandantes da unidade militar, majores Oliveira Santos e Portela, a responsabilidade de ser o fiel depositário do material desportivo da ex-MP com a condição de manter e desenvolver a actividade da modalidade do remo através de uma escola que constituí. Isso prolongou-se até ao primeiro governo de Mário Soares que a extinguiu ‘A bem do Desporto Nacional’…  

Nessa escola nasceram dezenas de atletas de topo que representaram o Clube Náutico, o Sporting Clube Caminhense e mais tarde o ARCO que entretanto surgiu, em Viana do Castelo, através de um grupo de atletas e treinadores dissidentes do Caminhense, entre os quais se contava o já referido Carlos Seixo. Nesta altura não deixei de apoiar o aparecimento do ARCO, que foi uma solução para a absorção dos atletas formados na agora escola da DGD, uma vez que, entretanto, a delegação de Viana do Castelo da Direcção Geral dos Desportos tinha assumido a responsabilidade política da escola.

MD- Que nota daria ao remo em Portugal?

Trofeo Ibérico (1970). Sala de Festas do Clube de Desportos Náuticos de Vigo (1970). Venceu em skiff e bateu o melhor tempo ibérico.

Escola de Remo da Direcção Geral dos Desportos dirigida por Armando Loureiro em Viana do Castelo

No cais em frente ao posto náutico da ex-Mocidade Portuguesa

 

O remo em Portugal, como em todas as coisas que acontecem neste país, tem altos e baixos. Isso depende sempre do factor humano e sobre tudo da classe dirigente. Há muito dirigente a cair de paraquedas na modalidade que de desporto nada sabem. Nem o ‘carolo’ jogaram! (ri-se). Mas ‘arvoram-se’ em dirigentes desportivos não para servir o desporto, mas para se servirem do desporto, para os mais variados fins e promoção pessoal, empresarial, político-partidária, etc. Com gente desta o desporto em geral e o remo em particular não progride. No entanto, eu considero que actualmente o remo nacional merece nota positiva, principalmente pelos resultados obtidos pela dupla Mendes e Fraga.

MD- O cume máximo de um atleta é chegar aos Jogos Olímpicos. Considera esta uma lacuna no seu currículo como atleta?

Não! Como atrás expliquei, não foi por falta de valor, trabalho e qualidade para lá ter ido. Mas por que quem mandava na altura, levava quem queria e não os melhores. Não era como agora. Apesar de tudo, agora é bastante mais justa a forma de selecção.

MD – Se lhe pedisse para fazer um incentivo aos jovens para a prática do remo que diria?

Não é fácil saber o que dizer a uma criança de dez anos ou que pratique remo. Em geral, quando iniciam uma actividade desportiva, quer os pais quer eles, querem ser campeões no dia seguinte. Até serem campeões têm muito que trabalhar, têm que dispensar muita dedicação e sofrer muito. Contudo não deixaria de lhes dizer que o remo é uma das modalidades mais completas, senão a mais completa.

 

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