Havemos de chegar a Santiago de Compostela

José Rodrigues Lima

Antropólogo

 

Na cidade compostelana, granítica, artística, mística, mágica, mítica, histórica e congregadora dos povos, sentem-se as ressonâncias seculares de reis, de eclesiásticos, de nobres, de burgueses, de artistas, de camponeses, de éticos, de estetas e aventureiros que aí experimentaram emoções, percorrendo caminhos íntimos que ficaram materializados nas diversas manifestações artísticas que devem contemplar-se com os olhares da alma.

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Os sons da eternidade, a música dos povos, os rituais, os símbolos, as preces profundas, as ansiedades sentidas, os gestos e as palavras misturadas com o aroma do botafumeiro, são completados com o espanto bíblico na admiração do Pórtico da Glória.

Havemos de lá chegar…

Sim, havemos de chegar a Compostela depois de termos percorrido muitos caminhos, calçadas, veredas, pontes, campos, aldeias e povoações isoladas, conversando com camponeses e artistas, gente jovem ou idosa, com sabedoria ou letrada…

Depois de termos contemplado testemunhos de arte antiga nos castros, vias da romanização e escutando do fundo da história “o verdadeiro e o lendário”

Depois de sentirmos a amálgama dos “laços antigos” do Noroeste Peninsular, trazidos pelas vozes dos antepassados. “No fundo dos tempos/ os velhos sabiam ouvir as vozes do mundo a falar,/ onde o segredo é saber calar”

Depois das emoções sentidas ao ler os catecismos de pedra, ou fruto do silêncio no claustro da grande abadia…

Havemos de chegar após conversas dum tempo sem tempo, ou fora do tempo, tendo como sons o murmúrio das águas no ribeiro ou o canto da passarada no vidoeiro ou amieiro.

Após sentir os sons diferentes do ciclo anual e os tons das várzeas e das montanhas.

Depois de receber os aromas das flores silvestres e das ervas medicinais, e os paladares dos alimentos crus ou cozidos em potes de ferro, ou em louça de barro escuro.

E não será mentira nenhuma se afirmarmos que o caminho foi “trilhado” em dias de neve, vento, chuva ou frio, e de sol quente, ou em dias amenos e agasalhadores, de rosas.

Os livros ajudaram-nos a compreender melhor a memória dos homens e das coisas, e a sabedoria das pessoas idosas transmitiram-nos o “outro lado” da vida.

Recordaremos o início dos “laços antigos-conversas de hoje” em que saboreamos os poemas dos escritores de Celanova e a “Longa Noite de Pedra”, e conhecermos as figuras míticas do carnaval de Xinzo de Limia, ou a luta do “cristiano” e do “mouro” no território sacro do antigo mosteiro cisterciense da Franqueira.

Lembraremos a “mulher bíblica” de Ribadavia e os seus doces hebraicos, e de modo especial o seu encanto da visão multicultural, falando com as as mãos esbranquiçadas com farinha finíssima.

Recordaremos novamente Xoan de Cangas Mendinõ, Martin Codax, Charinho, Rosalia, Cabanillas, para em Hio homenagear todos os artistas da pedra…

Serão em grande número aqueles que nos acompanharão ouvindo o “Coro dos Peregrinos” de Wagner, ou os “Sons do Pórtico da Glória” do grupo musical “In Itinere”.

Ao avistar as torres da catedral o gozo será sentido e a boca pronunciar: “Ultreia! Deus adjuva-nos!”.

No nosso imaginário eram muitos os que nos acompanhavam, e entre eles figuravam as personagens históricas do bispo Nausto de Coimbra, Afonso III, o Magno, e o artista português Mateus Lopes com obras no Mosteiro de São Martinho do Pinário e no antigo colégio de São Gerónimo, actualmente reitoria da prestigiada Universidade de Santiago.

A Rainha Santa Isabel e o Rei D. Manuel decalcaram o caminho…

Do centro da irrepetível Praça do Obradoiro contemplamos a catedral, e o fascínio do barroco arrebatou-nos “os olhares artísticos e místicos”…ouvindo sons musicais e o bronze das torres seculares.

Relemos de Valle-Inclán o texto narrado na obra “La Lampara Maravillosa”: “De todas as formosas cidades espanholas a que parece mais imobilizada num sonho granítico, imutável e eterno, é Santiago de Compostela…”

Não parece antiga, mas eterna…

Mas Compostela imobilizada no êxtase dos peregrinos, junta todas as suas pedras numa só povoação… “Ali, as horas são uma mesma hora, eternamente repetida debaixo do céu chuvoso”.

Não resistimos, e lemos de F. Bouza Brey: “Olha como a cidade sabia e santa por tua/ se adovia c’os tímidos abalorios da lúa;/ e de cada recanto fai xurdir, mistirosas,/ as milhentas figuras das lendas mais fermosas”.

Cumprimos os rituais da tradição jacobeia no Pórtico da Glória, não esquecendo os “croques” junto do mestre Mateo.

Fomos subindo até ao Alto-Mor e fizemos o que recomenda o poema de Miguel Torga: “E o peregrino vem/ Reza devotamente,/ Põe no altar o que tem,/ E regressa mais livre e mais contente…/ Assim faço também!”

A boca pronunciou preces, o coração vibrou, “e a alma sentiu o gozo do eterno e a verdade incomensurável…” Formulámos o pedido: “DESEJAMOS UM MUNDO SEM MEDOS… PARA TODOS”.

Abraçámos o apóstolo e venerámos as relíquias, que são “o centro da mística jacobeia” e marcaram a história do ocidente.

Sentados num banco de granito escurecido pelo tempo, lemos de Rosalia de Castro o poema “Na catedral”:

 

“Estarán vivos? Serán de pedra

Aqués sembrantes tan verdadeiros,

Aquelas túnicas maravillosas,

Aqueles ollos de vida cheos?”

(…)

 

Recordámos de Payo Gomez Charinho a cantiga: “Ai Sant’iago, padrón sabido”

jrodlima@hotmail.com
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