Editorial

Imersos pensamentos

Joaquim Letria

Joaquim Letria

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letria@minhodigital.pt

Eu diria que as ideias e sentimentos mais profundos me assaltam durante um banho de imersão.

Durante boa parte da minha vida não me apartava da imersão nocturna nem prescindia do duche matinal.

Quando entrei na adolescência a minha santa avó passava a vida a dizer-me “lava o corpo mas não te entretenhas com nenhuma parte dele”, ao que o meu avô acrescentava, como se fosse um ámen, “de outro modo podes ficar ceguinho”. E ria-se, sem eu perceber porquê.

Certamente que para eu me entreter sem ser com as minhas partes, os meus avós substituíram na banheira os patinhos de  baquelite da minha infância por dois garbosos navios de madeira mais apropriados a um adolescente, um navio almirante e um couraçado, com os quais travei temerosas batalhas contra inimigos que me atacavam por entre “icebergs” de espuma Badedas.

Hoje, sem idade nem partes sensíveis, brinco com a esponja, fugindo nela de perigosos e letais submarinos que me perseguem como loucos. Não os vejo, mas sei que estão lá… por isso me desvio dos seus torpedos. Dantes, não desanimava até a água ficar fria de mais para uma última de mão engelhada com o sabonete Lux, aquele que era usado por nove em cada dez estrelas de cinema.

Depois dum banho destes não há melhor do que um velho malte da Escócia a acompanhar um chá bem quente, bebidos com um a entrecortar o outro, como os alemães fazem, alternando a cerveja com um “schnaps”.

Com a idade fui perdendo o prazer do banho de imersão e, pior ainda, ganhei-lhe medo. Antes de mais, porque posso escorregar na banheira e partir-me todo com o trambolhão, se por acaso não bater com a nuca no rebordo, indo desta para melhor. Depois, porque algum ente querido pode erradicar-me, ou seja eliminar-me de vez, jogando o secador ligado para a água de murcha espuma, onde entre pétalas bem cheirosas flutuam estes desencantados pensamentos.

letria@minhodigital.pt

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