Lendas e Mitos do Nordeste Brasileiro: O carro caído

O livro “ Lendas e Mitos do Brasil” do Professor Theobaldo Miranda Santos, narra a lenda do Carro Caído.

É a história de um carro de bois que viajara o dia todo e os bois estavam cansados. A noite tinha caído e a lua alumiava o céu. O carreiro , que era um negro chamado João, vinha cochilando. Mas, quando acordava, cutucava a boiada com a vara de ferrão.

Para animar os bois, o negro começou a cantar uma toada triste. Os bois gostaram e começaram a andar depressa. E o carreiro pegou, de novo, no sono. De repente, acordou  e viu que os bois estavam parados. Irritado exclamou: – Diabo ! E deu uma ferroada forte nos bois.

Nisto, uma coruja rasgou mortalha. O carreiro não percebeu que a coruja era um anjo avisando que, naquela hora, conduzindo um sino para a casa de Nosso Senhor, não deveria falar no tinhoso. Pouco depois, João gritou outra vez.

– Diabo ! E nova ferroada nos coitados dos bois.

O maldito gritou então do inferno:

– Quem é que está me chamando ?

Quando ouviu a voz estridente do diabo, o carreiro ficou trêmulo de pavor. Assobiou para enganar o medo. E tornou a cantar a toada triste como que numa despedida.

Os bois começaram a andar. E, com o balanço do carro, João pegou no sono, outra vez.

Súbito acordou. O carro estava parado. O negro ficou furioso e cutucou a boiada, exclamando:

– Diabo !

– Aqui estou eu ! respondeu-lhe ao ouvido, o tinhoso.

E arrastou o carro para dentro da lagoa, com o carreiro, bois, sino e tudo. João nem teve tempo de gritar por Nossa Senhora.

Mas o negro não morreu. Ainda está vivo debaixo d´água, sempre carreando …  Por isso, quem passa pela lagoa, no tempo da Quaresma, ouve, claramente, cantar o carreiro, chiar o carro, gemer os bois, e tocar o sino.

 

LENDAS DE ESTREMOZ

Antiga missão jesuítica, Estremoz tornou-se município em 1760. Foi um dos primeiros núcleos do povoamento no Rio Grande do Norte. O nome – Estremoz, com s – foi dado em homenagem à cidade portuguesa situada na região do Alentejo.

Em 1855, Estremoz perdeu a categoria de sede municipal para Ceará-Mirim, vindo a ser restaurado onze anos depois. Foi extinto em 1858 e restaurado, de novo, em 1963.

É um lugar mágico, de muitas lendas, todas estas remanescentes da era colonial.

O historiador Nestor Lima revelou esse manancial de histórias fantásticas (Conferência publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do RN, Vol. L). Câmara Cascudo também explorou, com engenho e arte, o mesmo veio.

Das inúmeras lendas, destacam-se três mais sugestivas, que bem atestam a presença dos missionários jesuítas, in ilo tempore.

O CARRO CAÍDO

Noite alta, ia um carro de boi pelo caminho de Natal a São Miguel de Guajiru, carregando o sino destinado à igreja da aldeia. Era noite de lua, e o carreiro, a certa altura, adormeceu.

Nas imediações da lagoa, estando o carro sem governo, os bois sentiram sede e encaminharam-se para a beira d’água. Mas, de repente, escorregaram e foram parar nas águas profundas. Aí ficaram sepultados carreiro, bois, carro e sino.

O lugar tornou-se conhecido como “Carro Caído”.

Pois conta-se que, desde então, quando é noite de lua, ouve-se pairando sobre a calma da lagoa, um dobrar de sino, o ranger longínquo do carro e a voz do carreiro, que abóia. (*)

OS MONSTROS DA LAGOA

Em remotas eras, duas imensas cobras, que moravam no fundo da lagoa, vinham pondo em alvoroço a aldeia. Estavam pegando, a cada dia, mais curumins e até gente grande.

Para acabar com o flagelo, um missionário, cujo nome a História não guardou, foi, um dia, benzer as águas da lagoa. Logo no dia seguinte, uma das cobras foi encontrada morta na beira d’água.

O outro monstro veio vindo da lagoa até a igreja, e tal era o seu tamanho que, colocando a cauda na porta principal, deu a volta ao templo, e veio botar a cabeça sobre a ponta da cauda. Ali mesmo morreu.

Esta lenda propagou-se entre os índios da missão, como exemplo do poder do Deus católico e do seu sacerdote.

O TESOURO

Ainda hoje, muita gente crê no “tesouro de Estremoz”, o qual teria sido deixado, ali, pelos jesuítas. Segundo a lenda, constituía-se das imagens dos doze apóstolos em ouro maciço, e está enterrado nas proximidades da antiga igreja, em uma galeria subterrânea.

Há muitos anos, Joaquim Honório, cidadão de Estremoz, sonhou com um frade que lhe indicou o local do tesouro. Honório e familiares cavaram no ponto indicado e deram com alguns sinais revelados no sonho, mas nada de ouro.

Outras pessoas fizeram escavações, em vão. Como o resultado disto, apenas a destruição do que restava do velho templo.

DAS LENDAS E SUAS VERSÕES

(*) Sobre a lenda do “Carro Caído”, há um soneto de Antônio Soares. Clementino Câmara, em História e Geografia do Rio Grande do Norte (1952), que apresenta uma versão, conferindo ao carreiro a condição de preto velho feiticeiro, morador de Estremoz, que, por castigo, teve aquele fim. Henrique Castriciano aproveitou a lenda em um pequeno conto, divulgado por Câmara Cascudo em Folclore do Brasil.

Há também uma versão revelada por Eloy de Souza (transcrita em Leituras Potiguares, de Antônio Fagundes (1933) e Lendas do Brasil, de Gumercindo Saraiva (1984) e três outras, pelo jornalista Elias Souto, constantes do referido Lendas do Brasil.

A de Eloy de Souza encerra-se da seguinte maneira: “De repente, a junta dianteira já não toma pé na profundidade que a surpreende, e arrasta ao abismo igualmente o carro e a sua carga, perdendo-se no vazio da solidão o grito do velho carreiro, despertado daquela madorra para dormir o sono eterno.

“Conta-se que, no mesmo instante, algumas pessoas ouviram no povoado adormecido, as badaladas de um sino cuja sonoridade, vinda de muito alto, a imaginação popular guardou, numa interessante ilusão auditiva. E todos os anos, àquela hora, se repetiram os dobres num convite de prece pela alma do velho carreiro, afogado no pecado mortal.”

 

Empresário lusobrasileiro no Rio de Janeiro

Natural da Freguesia de Geraz do Minho (Minho/Portugal)

Academia Duquecaxiense de Letras e Artes

Associado do Rotary Club Duque de Caxias – Distrito 4571

Membro da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade

Membro da CPA/UNIGRANRIO

Diretor Proprietário da Distribuidora de Material Escolar Caxias Ltda

 

ajccunha40@gmail.com
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