Ciência – “Desencantamento” ou “Iluminismo” do Mundo” (Parte 2).
Que a ciência e a fé nem sempre viveram em paz conta a história da humanidade. A Inquisição e seus severos tribunais procuravam ao defender a fé impedir a evolução. Porém – a racionalidade está sempre presente, seja em segredo ou em voz alta, mesmo as chamas do fogo das fogueiras ditatoriais não conseguiram impedir o iluminismo revelar os resultados da racionalidade. As palavras de Galileu Galilei não conseguiram ser destruídas, porque a verdade, pode ser ocultada, mas não dissolvida. A condenação do visionário cientista revela a pergunta: “Quanto vale a verdade?” Muitos pagaram a verdade com as suas vidas, mas o saber ficou. No entanto até se chegar ao verídico saber, existe o caminho das ciências, que comprovam ou refutam uma tese. Difícil é a comprovação de uma tesa na esfera da fé. Como comprovar o que não ou ainda não se vê / não se consegue explicar? Muitas perguntas continuam sem resposta. Sobre o princípio do mundo encontram-se estantes sem fim com livros repletos de teorias, que procuram desvendar o enigma. Encontrar a resposta seria conseguir responder à pergunta: “Referente ao destino de cada ser humano, o que está em poder secular e o que depende de Deus?” – Será que a vida seria mais fácil ou mais complicada?
Que as novas tecnologias facilitam a vida está fora de questão. Da fascinação dos livros até à fascinação das ciências é um pequeno passo. Ficamos fascinantes ao contemplar os navios, autênticas cidades, não afundarem, e admiramos os gigantescos “pássaros” prateados a não caírem no chão. A ciência desvendou seus segredos, mas até ao presente momento ainda não todos. Eis a razão para a fascinação para com livros, que procuram oferecer novo saber para questões, que continuam enigmáticas.
Um dos descritos livros foi apresentado no dia 22 de setembro:
“Deus e a Ciência – Diálogos para a Salvação do Mundo” da autoria do físico e Professor Carlos Fiolhais.
BIOGRAFIA#
CARLOS FIOLHAIS (1956) é físico e um dos mais reconhecidos divulgadores de ciência em Portugal. Professor catedrático emérito da Universidade de Coimbra, doutorou-se em Física Teórica pela Universidade Goethe, em Frankfurt. Em 2005, recebeu o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência da SIC e foi distinguido pelo Presidente da República com a Ordem do Infante D. Henrique, grau de Grande-Oficial. Autor de dezenas de livros de divulgação científica, publica pela primeira vez na Dom Quixote com Deus e a Ciência. Serão Deus e ciência inconciliáveis? O físico português Carlos Fiolhais dá a sua opinião sobre esta questão controversa que está em debate há vários séculos.
A Dom Quixote editou na terça-feira, 22 de setembro, “Deus e a Ciência – Diálogos para a Salvação do Mundo”, do físico Carlos Fiolhais, que analisa disputas religiosas na história da ciência e o papel da Igreja na história da ciência em Portugal, da revolução científica do padre António Vieira ao Papa Português, passando pela expulsão dos Jesuítas até ao “milagre do sol”. Será a ciência capaz de dizer a última palavra sobre Deus? E fará sentido procurar Deus nas equações, no ADN, no Big Bang ou nas partículas elementares? Ou estaremos perante domínios diferentes, com perguntas distintas e linguagens independentes?
Carlos Fiolhais conduz, pois, o leitor através de uma das mais decisivas inquietações da condição humana: como articular o que a ciência revela sobre o mundo com a dimensão transcendente da nossa existência. Com a clareza de um grande divulgador e a autoridade de um dos mais respeitados físicos portugueses, convoca Darwin, Einstein, Hawking e muitos outros para iluminar um debate onde se cruzam cosmologia, biologia, filosofia e religião.
Combinando rigor histórico, precisão científica e grande capacidade de comunicação, oferece ao leitor um percurso exigente, mas acessível, em que cada capítulo abre novas perguntas e convida a rever certezas. Um livro para quem não se contenta com respostas fáceis e quer pensar o que significa ser humano num Universo que a ciência procura explicar.
Fiolhais tem mantido, ao longo de décadas, diálogos públicos com crentes e não crentes, incluindo figuras centrais da Igreja Católica como os cardeais Tolentino Mendonça e D. Manuel Clemente. Esses encontros, em que ciência, fé e cultura se cruzam, estão na origem de muitas das perguntas que animam Deus e a Ciência.
«Há quem pergunte com inteira legitimidade: o que existia antes do instante inicial do Big Bang? O que havia antes de haver partículas de energia e de matéria no espaço-tempo? Será que existia Deus, como defendia Santo Agostinho, fora do espaço e antes do tempo? Para muitas pessoas é necessário um Deus Criador. Acreditam num Deus que tudo possibilitou. Para outras bastam, a respeito do mundo material, as respostas que a ciência consegue dar. É lícito perguntar, mas não podemos saber. No início do mundo, estamos no fim da nossa física.»
Boa Leitura!

ENTREVISTA A CARLOS FIOLHAIS#
MINHO DIGITAL (MD) – Qual foi a origem, a inspiração, para conjugar fé e ciência, atendendo que, como a História conta, nem sempre se encontravam/ encontram do mesmo lado?CARLOS FIOLHAIS (CF) –
Tendo em repetidas ocasiões sido convidado a falar sobre as relações entre fé e ciência, fui aprofundando a minha reflexão sobre o assunto. As minhas conclusões estão no livro que agora veio a lume na Dom Quixote.
As duas são dimensões distintas do ser humano, que serão compatíveis se cada uma souber respeitar o domínio da outra. A ciência responde, usando o seu método, a muitas perguntas, mas não responde a outras. Isto é, há mistérios para os quais o método da ciência (observação, experimentação, raciocínio lógico) não se aplica. Muita gente, a maior parte das pessoas até à escala global, tem crenças religiosas, que respondem a questões fora do foro científico, como a de saber se Deus existe.
A existência ou inexistência de Deus não pode ser provada pela ciência. Mas podemos dizer que Deus existe, mesmo não sendo crentes religiosos, no sentido em que muitas pessoas, de diferentes culturas, precisam d’Ele. A fé ultrapassa a ciência. A ciência pode dizer umas coisas sobre ela, mas sente-se impotente para a descrever. No passado houve fortes confrontos entre religião e ciência – por exemplo, os casos de Galileu e de Darwin- mas hoje o panorama é de convivência pacífica, apesar de ainda haver aqui e ali alguns atritos.
MD – Max Weber fala de “Desmistificação / Desencantamento do Mundo”. Não é um anular de todo o mistério da fé, apesar de ainda existirem muitos enigmas, para quais a ciência continua a procurar respostas?
CF – Sim, Max Weber, nascido num ambiente protestante, foi um sociólogo alemão, agnóstico tal como eu (dizia que «não tinha ouvido para a religião») que falou do «desencantamento do mundo» operado pelos avanços na ciência.
Mas ele interessava-se genuinamente pelo fenómeno religioso, em especial pelo papel da religião, cristã ou não, na economia e na sociedade. O mundo continua hoje, com a aplicação do método da ciência, a ser «desencantado».
Mas eu diria que há uma parte do mundo que será sempre encantada. Por muito que a ciência progrida, não anula as crenças religiosas. Estou em crer – e uso esta palavra num sentido laico – que a Humanidade, ou melhor uma parte substancial da Humanidade, precisará sempre de Deus.
Portanto, a ciência não pode ser totalitária: tem de se remeter ao seu domínio.
MD – “Nos tempos de hoje precisamos de mais iluminismo, precisamos da luz da razão.” – Como pode a ciência contribuir para a confirmação do Saber a nível nacional, assim como no estrangeiro?
CF – A ciência não tem fronteiras: a sua aplicação é universal. Os cientistas acreditam que as leis do Universo que a ciência descobre são as mesmas em todos os lugares da Terra e em todos os lugares do Cosmos.
O mundo tem uma unidade, que se «deixa» compreender. Einstein falava, mais do que de unidade, de uma «harmonia do mundo». Compreendemos o mundo usando a razão.
Podemos, portanto, dizer que o mundo é racional. O iluminismo corresponde precisamente ao «império da razão». No século XVIII, o «século das luzes», houve quem julgasse que tudo se poderia compreender e resolver pelo exercício da razão.
Mas, no início do século XIX, o romantismo veio contrariar essa opinião. E, de facto, nem tudo é racional. O ser humano tem uma parte racional e outra irracional. Precisamos
nos tempos de hoje de mais iluminismo, não apenas no sentido de que precisamos de manter a atividade científica, mas também porque, olhando para a sociedade contemporânea, vemos manifestações perigosas de irracionalidade.
A racionalidade, que é imprescindível na ciência, ultrapassa-a largamente: é uma trave-mestra da filosofia e devia ter um papel maior na política. Já agora, no fenómeno religioso, também há uma parte racional.
MD – Qual mensagem, que gostava de transmitir a futuras gerações referente à fé e à racionalidade?
CF – A minha tese, que expresso no livro, é que o diálogo entre religião e ciência é não só possível como desejável. Para enfrentar os grandes desafios da humanidade – como as alterações climáticas, a inteligência artificial e as tecnologias da saúde, só para nomear os que considero maiores — as duas podem cooperar. A ética – que nos permite distinguir o certo do errado no comportamento humano, com base nas noções humanas do bem e do mal – está para além da ciência e a religião pode contribuir para a ética. A religião não tem de ser a única fonte da ética, mas tem decerto um papel a desempenhar em sociedades muito marcadas por crenças religiosas na formação de consensos.
NOTÍCIA RELACIONADA COM O TEMA (Parte 1):
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