A negação da realidade: do PCP ao PS

João Cerqueira

(Escritor)

 

Há algum tempo que venho afirmando que os Socialistas começaram a usar métodos muito semelhantes aos dos Comunistas – e o ‘’acordo’’ a que agora chegaram demonstra-o. Os regimes Comunistas foram – e são, veja-se a Coreia do Norte – responsáveis pela morte de milhões de pessoas – aproximadamente 100 milhões. Mas, não menos grave, os regimes Comunistas impediram que mais de 1 bilião de seres humanos decidisse o destino das suas vidas – por exemplo, emigrar. Para tal, construíram muros e barreiras que transformaram países em gigantescos campos de concentração. Tentar fugir era, e ainda é, um crime pago com a prisão ou até a condenação à morte – em 2003, Cuba executou três homens que assaltaram um ferry-boat para fugir, o que levou o próprio Saramago a romper com o regime.

Ora como é possível apoiar uma ideologia totalitária que despreza desta forma a vida humana? Apenas negando e reescrevendo a realidade. É o que PCP faz através dos seus dirigentes e do Avante, onde se continua a afirmar que havia liberdade nos antigos regimes comunistas, que a Coreia do Norte é uma democracia e que os crimes do Comunismo foram apenas desvios de uma ideologia imaculada. Todos os que se atreverem a discordar desta revisão da História são classificados de provocadores, lacaios do imperialismo e outros epítetos.

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Ainda que o PS tenha em tempos combatido o PCP e impedido Portugal de se tornar um satélite da URSS, já há algum tempo que começou a adoptar métodos semelhantes.

Eis alguns exemplos.

Em 2003, quando Paulo Pedroso foi detido por suspeita de pedofilia – num processo onde Ferro Rodrigues e António Costa foram apanhados em escutas a tentar obstruir a Justiça – vários dirigentes Socialistas, que até então juravam confiar na separação de poderes entre a Justiça e a Política, lançaram a acusação de haver uma campanha contra o PS, a famosa tese da ‘’Cabala’’. Para tentar salvar o camarada de partido, não hesitaram em deturpar a realidade atacando um dos pilares do nosso sistema democrático. E, a partir daí, passou a valer tudo.

Em 2011, Sócrates conseguiu elevar a negação da realidade para níveis próximos do delírio. Quando a iminência da bancarrota era já uma certeza, quando os jornais de todo o mundo davam como certa a vinda da Troika, quando já não havia dinheiro para pagar os salários dos funcionários, ele, um dia antes de anunciar o pedido de socorro, jurava que o país estava excelente e que tudo não passava de conspirações e, novamente, cabalas. O resultado foi o que se sabe, mas a negação da realidade não terminou.

Em vez de assumirem as suas responsabilidades como qualquer governo tem de assumir, os Socialistas sacudiram a água do capote e alinharam, primeiro, nas teses da Extrema-Esquerda de conspiração dos mercados contra Portugal – dantes havia a conspiração dos judeus, agora há a conspiração dos mercados – e, depois, na tese de que, afinal, o responsável pela vinda da Troika era o PSD. Isto daria vontade de rir, se não fosse trágico, e se não houvesse tantos Socialistas que já acreditam piamente nisto.

Tal como o PCP, o PS tem agora uma verdade oficial onde nunca assume a responsabilidade por nada.

E António Costa é o grande mestre da revisão da História e da verdade suprema.

Em directo nas televisões, sem o menor receio do ridículo, afirmou que a vinda da Troika se devia ao PSD. Ou seja, tinha sido Passos que fora ministro de Sócrates, e não ele próprio. E Teixeira dos Santos também nunca dera entrevistas a confessar que Portugal estava falido – não senhor. Mais tarde, após perder as eleições, avançou com o discurso de que, afinal, tinham sido os vencedores a serem derrotados.

Tudo isto é tão patético que nem nos livros de banda desenhada ditadores ridículos como o General Alcazar se atrevem a distorcer assim os factos. O autor, Hergé, sabia que leitores não podem ser tratados como parvos – mas Costa não pensa o mesmo em relação aos cidadãos portugueses.

Continuando na ficção, no romance 1984, George Orwell alertou para o perigo de no futuro as forças totalitárias reescreverem o passado para assim controlarem o presente e o futuro. Mostrou ainda como seria criada uma nova linguagem – a Novilíngua – para confundir e controlar o pensamento dos cidadãos. Assim, na Novilíngua Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força. O que Orwell nunca deve ter imaginado era que no século XXI, num país democrático europeu, um partido do Centro-Esquerda viesse a adoptar estes métodos de distorção da realidade.

O PS, além de apagar o seu passado de responsável por três bancarrotas, acaba de introduzir na Novilíngua de Orwell uma nova expressão:

Derrota é Vitória.

joomcerqueira@gmail.com
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