O meu bloco de notas

Anda muita agente silenciosamente,

devagarinho a morrer sentados!

A bombordo ao mar, como um navio, particularmente aos fins de semana, semelhante a qualquer outra aragem, nomeadamente à de Espinho, as pessoas num vai e vem descontraído, autómatas, que se lhes perguntasse porquê o sítio ali escolhido, talvez não soubessem responder, apesar da sensação não ter resposta, o mar e a praia de Espinho não se explicam, sentem-se…e por se sentirem, as pessoas fazem do mar e da praia de Espinho uma peregrinação. Contudo, não me dou lá muito bem com as multidões, uma multidão à deriva é um deslizamento de terras…

Porém, em estado de emergência pandémica, um dia de manhã entre as 11 e as 12 horas senti vontade de fazer parte da aragem do mar, momento para pensar nas contas da vida e com ela por contar, à causa da ordem por decreto lei: “fica em casa”! Enquanto naturalmente passeava, subitamente surgiu-me ao espírito, estapafúrdias imagens, quando elas me acontecem não as devo fazer esperar, devem ser logo anotadas no meu bloco de notas e para o fazer resolvi sentar-me no muro junto à praia do passeio andante. Enquanto escrevia, ouvia uns berros em modos toscos: – hei, ó do muro, hei… Como não era comigo, demais a mais não estava a pensar em mais nada senão nas minhas imagens, supus eu, continuei com o meu pensamento sentado.  E ininterruptamente os urros continuavam… – Hei aí ó do muro, não pode estar aí sentado, toca a andar…. Alto, isto é para mim, pensei eu! Olhei na direcção do som e num gesto de resposta, com o dedo indicador no ar, como a querer dizer é para mim?

–  Sim, é para si, ponha-se a andar daí…. Levantei-me, calmamente, dirigi-me a ele, oficial superior, dentro da carrinha, à janela da “Ford transit” de nove lugares cheia de agentes da polícia, com o braço de fora apoiado, como se estivesse em passeio turístico… junto a ele, de frente, perguntei-lhe:

– do que é que o senhor me acusa? Sem resposta saíram em simultâneo todos quantos dentro da viatura se encontravam para a rua, mais pareciam assanhados por um ataque de abelhas asiáticas… de improviso, um por cada lado no terreno a interrogar estrategicamente pessoa a pessoa, tendo às minhas costas um gorila de pernas em forqueta, mão no “colt buntline” a intimidar-me como se eu fosse um malfeitor ou um acto de terrorismo tivesse ali acontecido!?

– O senhor não pode estar ali sentado, existe um surto epidémico muito forte nesta zona, aconselho a regresse a casa a bem da sua saúde. – Propôs-me inflexível o agente oficial.

– Desculpe, estou em pleno uso das minhas faculdades mentais, aliás, que eu saiba, embora sinta que me querem roubar a minha liberdade, o certo é que ainda penso que sou institucionalmente livre…

– Cumpro ordens, o senhor sabe que o Presidente da República decretou uma lei para que as pessoas fiquem em casa. Retorquiu o oficial sacudindo os galões…

– Interessante, os senhores estão em rotineira viagem, nada me proibiu utilizar este espaço, se vim para aqui é porque estava livre, como vê, aqui está cheio de gente, o senhor está a mandar-me regressar a casa, que tenho eu de mal a mais que os outros?

Estamos conversados, o senhor está a desobedecer à autoridade, dê-me o seu cartão de cidadão.

Para culminar com o imbróglio caricato, recebo em mão o “auto – aviso”, ordenando-me imediatamente o regresso a casa.

Tomar um café, era a minha principal vontade, há mais de dois meses que me foi proibido sair de casa e tomar café.

Por que era humano ou desumano, estava sozinho sem recursos financeiros a imaginar como resolver as despesas de casa, alimentação, água, luz e gás, estava com medo de mim próprio… psiquicamente a ficar mirrado, doido, cansado, decrépito e estupido!

Depois do imbróglio, regresso a casa, obstinado, que o desejo já fumegava, no caminho fui tomar um café ao “postigo”, que coisa aberrante, tomar um café ao “postigo”!  Quando surpreendentemente o oficial superior da polícia que me processou, dá-me um toque com a mão nas costas e diz: tome o café e regresse a casa.

nevesdavila@minhodigital.pt
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