«O meu objectivo é defraudar o mínimo de pessoas», confidencia-nos Ana São João, Vereadora em Caminha

Isabel Varela entrevista Ana São João

Uma mulher jovem, idealista mas não política. No entanto, entrou para a política por ser uma ‘ferramenta’ que poderia utilizar para ajudar mais e melhor as pessoas e famílias desestruturadas.

Ana São João, vereadora da Câmara Municipal de Caminha acredita que sempre se pode fazer mais e melhor. Num pelouro que muitos consideram apetecível, ela simplesmente abraçou com positivismo, afinco e com o objectivo de melhorar o que tem de ser melhorado em prol do bem-estar das famílias.

A educação e a área social fazem brilhar os seus olhos, é com orgulho que fala do que já conseguiu implementar e, também, do que pretende ainda concretizar.

Ana  São João agarra-se com afinco no que acredita e no que é possível fazer para diminuir ambientes desestruturantes ou diferenciados.

Fomos ao seu encontro e percebemos o quanto encantada fica em trabalhar em prol dos outros.

Minho Digital (MD) – Na sua vereação tem a seu cargo, além de outras áreas, a educação e a área social. Sabemos que as duas são muito queridas para si. Porquê

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

No fundo aquilo que me cativa nas duas dimensões é a possibilidade de contribuir para projectos de vida e para projectos de índole social, assim como por alguns valores que se pautam pela igualdade, redistribuição de recursos. No fundo, para a contribuição de um bem colectivo. A educação é, talvez, a dimensão na vida do ser humano que lhe pode permitir aceder a certos recursos normativos permitindo assim alcançar competências e tarefas que lhe estão designadas, e aceder a algumas formas que lhe poderão permitir uma melhor qualidade de vida.  Para além disso, julgo que a acção social, na sua versão mais pura e na introdução da justiça redistribuitiva, e também pela minha própria formação, trazem o que no fundo é um ideal  e bandeiras que politicamente eu jugo seria importante desempenhar.

 MD – No respeitante à Educação o que compete à sua vereação garantir?

A área da Educação tem várias dimensões em termos do que hoje em dia é a delegação de competências pelo próprio Governo central numa gestão partilhada no ensino pré-escolar e 1º ciclo com o agrupamento de escolas Sidónio Pais. Nesse sentido, o que nos é adstrito: o fornecimento das refeições para o pré-escolar e 1º ciclo, assegurar o transporte, gerir os recursos humanos respeitantes a estas valências do ensino e, numa vertente mais alargada, conciliarmos com diversos parceiros no território educativo para termos a nível municipal um projecto na área da Educação.

MD – Quando chegou à vereação, no tocante a esta área, estávamos bem? Que trabalho é necessário fazer e que sinergias devem ser criadas?

Eu não arriscaria em fazer um corte tão abrupto entre o passado e a actualidade. No fundo, eu vejo isto como um fio condutor que se vai construindo todos os anos. Existiam certas sinergias criadas  – e bem –  e que julgo que as ampliei. Outras não estavam diagnosticadas…

MD – Como por exemplo?

A mudança que se introduziu em relação às pausas educativas, ou seja, o período de pausa do calendário escolar que é seguido pelas actividades lúdicas que não são mais do que um conjunto de actividades promovidas nessas pausas e para que as famílias possam conciliar a sua vida profissional  e a vida familiar, e não tendo rectaguarda, precisam que os filhos frequentem um espaço de actividades.  À data que iniciámos o nosso mandato não funcionava os 12 meses do ano, e neste momento funciona. E também alargámos o horário de funcionamento, existem equipamentos no nosso concelho a abrirem às 7.00 horas e a fecharem às 19 horas. Este alargamento também permite às famílias outra restruturação e com tranquilidade.

Mas não é só aumentar o funcionamento deste sector, pois é necessário requalificar com actividades que sejam enriquecedoras sob o ponto de vista educativo, mas também de outro tipo de competências, pessoais e sociais. Houve um grande investimento em actividades estruturadas e ricas permitindo às crianças uma aprendizagem mais elevada consoante as áreas, como seja no teatro, cultura, e ambiente. E onde existe o meu cunho de formação de base é no respeitante às questões de cidadania, voluntariado e outras competências sociais que julgo que são fundamentais que sejam introduzidas nesta fase da vida.

MD – A fatia financeira que cabe a esta área da Educação é a suficiente?

Bem, eu como vereadora vou sempre dizer que não é suficiente!… Tenho, também, de fazer a minha pressão interna…

Mas do ponto de vista do que é a Educação, já havia um investimento. No entanto, a ‘menina dos meus olhos’ foi poder alargar o transporte escolar ao nível da escolaridade obrigatória que era até ao 9º ano e hoje é até ao 12º.

Existiam pais que tinham filhos no pré-escolar, 1º ciclo e concomitantemente também no secundário, e é neste último que o esforço financeiro dos pais é mais elevado tanto pelos manuais, transportes e com outras actividades. Era um esforço, para quem tem mais de um filho, mais acentuado. O facto de nós comparticiparmos a 100% os transportes  escolares foi um investimento financeiro da Câmara Municipal em prol das famílias e, também, em prol da Educação. No fundo, garantir a acessibilidade e diminuir os custos para a família e garantir o acesso a todos da escolaridade.

Inicialmente, a medida iniciou-se somente para as crianças do agrupamento de escolas do sistema público e depois, e como forma de conseguir uma igualdade do território educativo, alargou-se à Ancorensis – Cooperativa de Ensino e à ETAP.

Num momento em que a Câmara passa – e esperemos que ultrapasse – as dificuldades financeiras que tem, julgo que não me posso queixar nesse sentido.

Conseguimos, também, alargar algum apoio da área social escolar no que se refere aos lanches, não só no tempo lectivo mas também ao ATL. Julgo que fizemos um bom investimento no respeitante à oferta cultural, tentando colocar a cultura ao acesso de todos.

Seria injusta com os meus parceiros de Executivo dizer  que o orçamento, e numa altura de emagrecimento, não chegou. Foi atendida essa necessidade e foi atendido o esforço das famílias.

 

«Nos transportes temos um esforço muito e muito elevado»

MD – A maior fatia do seu orçamento é para os transportes?

Sim, é para os transportes escolares. Estamos a falar dos contratos que temos com as transportadoras e do que a Câmara Municipal garante nos territórios que não são concessionados às empresas. Por exemplo, existem circuitos internos entre Seixas e Caminha, Argela e Caminha, em que nós, Câmara, temos de fazer esse investimento. Não contabilizando esse, que é gasto interno, nós estamos a falar de valores que são sempre de 400 mil euros. Ou seja, num orçamento que rondará os 700 mil e 800 mil euros – esperando que este ano suba um pouco – estamos a falar de uma fatia que são as refeições e transporte escolar. É uma gestão que assegura as pessoas uma garantia de acesso ao que lhes pertence.

Eu tinha muitos projectos na minha mente.  Como percebeu, eu  sou uma idealista por natureza, mas houve alturas em que o agrupamento de escolas e a Ancorensis me trouxeram necessidades internas e eu prefiro abdicar de um projecto municipal e permitir a quem opera no campo a alcançar as suas metas. E é nessa dialéctica que vamos conseguindo produzir novas sinergias.

MD – Consta que a Escola de Seixas irá encerrar. Isso corresponde à realidade?

Não tenho nenhuma comunicação a nível da DGEST ou do Governo com essa leitura. Há dois anos atrás, numa reunião formal, foram identificadas algumas escolas que devido à sua expressão demográfica poderiam correr esse risco. O que me foi diagnosticado na altura era a Escola de Venade, Jardim de Infância, em que me propuseram transferir os meninos para o Jardim de Moledo. E aquilo que conseguimos com o compromisso da Câmara era efectuar obras na escola do 1º ciclo e – aí sim – acolher os meninos do pré-escolar para que não houvesse um desenraizamento daquela freguesia.  E, como é sabido, a Escola de Riba de Âncora que foi extinta, sendo o projecto do Governo levar as crianças para a escola de Dém.  Conseguimos que viessem para territórios mais próximos da freguesia de origem. Relativamente, a Seixas nós sabemos que tem sempre poucas crianças matriculadas. O que posso dizer é que pode correr esse risco de encerramento. Se temos alguma comunicação oficial? Não, não temos … mas, como este equipamento, outros podem correr o mesmo risco por questões demográficas. Temos de estar atentos nesse sentido. A Escola de Seixas é boa e onde investimos na reestruturação de recursos humanos  e rentabilização ao máximo nas pessoas que lá estão.

Eu sou uma clara defensora das escolas pequenas e sou pelas relações primárias. Demograficamente, não sei se isso será possível. Mas acho que temos de lutar por uma política de natalidade que permita às famílias projectar os seus próprios projectos familiares.

MD – Na área social, e na qual tem dado provas do seu trabalho, em Caminha temos ambientes desestruturantes?

Sim, sim! Conhecendo eu bem o distrito de Viana do Castelo, e fazendo algum paralelismo, julgo que no concelho de Caminha as problemáticas sociais emergentes são aquelas que acompanham um pouco todo o distrito.

O que é que nós temos é uma população envelhecida , mas também problemáticas de alcoolismo e algumas dinâmicas familiares relacionadas com a violência doméstica.

A questão do envelhecimento é aquela que mais nos pode mais angustiar, se bem que tenho a clara noção de que em Caminha temos instituições particulares de Solidariedade Social com muitos anos no terreno que permitem à população dependente ter diferentes respostas.

Para aquelas pessoas que têm por motivação pessoal ou por necessidades de desestruturação familiar  de recorrer a um Lar, existem vagas nos Lares do concelho de Caminha e estamos bem servidos no tocante à rede de acolhimento de idosos. No entanto, aqueles idosos que necessitem de cuidados ao domicílio têm, também aqui, a rede fortelecida.

Temos é uma linha de trabalho no que diz respeito àquelas pessoas que não querem passar para um Lar e não faz parte do projecto de envelhecimento. Querem manter-se em casa e há alguma ausência de uma rede forte de cuidadores nocturnos ao domícilio. Eu sempre disse, e continuo a fazer, que é uma das nossas lacunas no concelho. Para a questão das estruturas de centro de noite, nós temos dois a três equipamentos no distrito, e as experiências ainda são pioneiras o que não nos permite perceber como a população recebe esta estrutura; mas acima de tudo as pessoas verbalizam que não se importavam de ter uma companhia nocturna por determinados períodos. Nesse sentido, nós ainda precisamos de investir nesta rede de cuidadores nocturnos ao domicílio. Neste momento, eu lancei o desafio às instituições sociais, e isto porque estas já tem saber acumulado nestas matérias, e que seria lançarem um novo serviço para estes cuidadores nocturnos ao domicílio que podem pontualmente pernoitar ou passar duas ou três vezes durante a noite em casa das pessoas.

Estamos a falar de uma experiência pioneira que nunca foi testada, que não sabemos se funciona, mas estamos em rede social com as instituições sociais que mostraram abertura para este projecto e apresentámos uma candidatura conjunta à Fundação do IKEA, e assim tentaremos requalificar as respostas das ditas instituições com esta nova resposta. Claro, que isto significará também um investimento financeiro por parte da Câmara Municipal, pois as instituições não terão capacidade de suportar sozinhas. Ainda é algo muito recente mas que todos identificamos como prioritário e necessário a avançar.

MD – Ainda na área social, existe algum projecto que gostasse de implementar?

Julgo que no concelho de Caminha aquilo que debilita mais as pessoas ecomicamente por muitos apoios financeiros que se possam dar, tem a ver com o facto do arrendamento no concelho ser bastante caro. Nós temos pouca estrutura de bairro social e não está previsto construção, e na minha opinião também não é a melhor medida para estruturação social. Pelo facto de as rendas serem elevadas e não existir nada no âmbito social, pretendemos cativar algum número de senhorios que conseguissem baixar as rendas para famílias referenciadas pelos serviços sociais. Isto iria permitir retirar muitas famílias do lumiar da pobreza

MD – Para terminar, e em poucas palavras, quando terminar o seu mandato como gostava que as pessoas a identificassem em relação ao seu trabalho?

(sorri) Pergunta difícil!… Nunca pensei nessa óptica. Mas gostaria de defraudar o número mínimo de pessoas que necessitaram do meu apoio pessoal ou institucional enquanto vereadora…

 

 

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Nuvem do Minho
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