O Presidente quer reparar o quê? (4)

Entretanto, os capitães continuavam com o movimento, sem que o regime nada fizesse, nem para os apaziguar nem para os reprimir.

Na remodelação de outubro de 1973, o novo ministro da Defesa, para surpresa de toda a gente, é o Silva Cunha, imposto pelo Américo Tomás. É nessa altura que Marcello diz a Joaquim Pinto que a questão dos capitães era muito mais profunda do que ele pensava. Entretanto, dá-se a denúncia sobre o massacre de Wiriamu (atrocidades cometidas pelo exército português na província de Tete, Moçambique) e Marcello entra em negação: “Não é possível, isso seria a desonra das Forças Armadas!”. Marcello recebe, alarmado, o Costa Gomes e o Spínola que, para choque dele, lhe aparecem fardados e lhe oferecem, a ele, a condução de um golpe de Estado! Para neutralizar os ultras e o Tomás. Marcello responde que não é homem para alinhar nisso. E, sem ouvir ninguém, comete um erro fatal: vai ter com o Tomás e conta-lhe tudo. E o Tomás, que era tudo menos estúpido, apesar dos seus maus discursos, diz-lhe: “Muito obrigado, senhor Presidente do Conselho. O problema que me traz passou a ser meu. Tenho de lhe pedir que continue a liderar um governo de gestão”. E Marcello sai de Belém em gestão! Sem poder algum! Baltasar Rebelo de Sousa, quando o soube, ficou verde! Na fase final, Marcello reaproxima-se do Costa Gomes e é o Costa Gomes que o manda ir para o Carmo (quartel-general da GNR, onde o Presidente do Conselho se refugiou, na madrugada do 25 de Abril).

Anos mais tarde, o António Guterres reabilitou outro ex-ministro de Marcello Caetano, chamando para o governo, Veiga Simão.

Baltasar tinha um grande orgulho no seu filho Marcelo. Mas um dia disse a José Pinto: “O senhor não sabe o susto permanente em que eu vivo, a pensar no que o meu filho Marcelo vai fazer no dia seguinte”. Quando Baltazar foi para governador de Moçambique, levou os filhos mais novos, mas o Marcelo, que estava na faculdade, ficou em Lisboa. E o Caetano disse ao Baltasar: “Não se preocupe, que desse rapaz cuido eu, como se fosse meu filho.” Aos sábados, o Marcello Caetano reunia a família e ele largava os filhos e ia para a sala falar de política com o Marcelo Rebelo de Sousa. Depois, sentiu-se traído, por causa de artigos que o rapaz escreveu e por causa de informações secretas que terá passado cá para fora. Recusou ir ao casamento dele, dizendo, cruelmente, ao pai Baltasar: “Eu não vou aos casamentos de safados”.

Mais de 100 mil civis tinham morrido na guerra colonial, e falecido cerca de 10 mil militares portugueses e mais de 15.000 mil ficariam inválidos. Cerca de 90% da população jovem masculina de Portugal foi mobilizada. Do lado dos movimentos de libertação de Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde houve cerca de 10.000 mortes.

Quando o MPLA alcançou a vitória em 2002, mais de 500 mil pessoas morreram e mais de um milhão foram deslocadas internamente. A guerra civil angolana foi um conflito armado interno, que começou em 1975 e continuou, com interlúdios, até 2002. O conflito foi uma luta de poder entre dois ex-movimentos de guerrilha anticolonial, o comunista Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a anticomunista União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).

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Durante o conflito moçambicano, cerca de um milhão de pessoas morreram em combates e por conta de crises de fome. Além disso, cinco milhões de civis foram deslocados e muitos sofreram amputações por minas terrestres, um legado da guerra que continua a assolar o país. A guerra civil moçambicana foi um conflito civil que começou em 1977, dois anos após o fim da guerra de independência de Moçambique, e que foi semelhante à guerra civil angolana. Os ideais do partido no poder, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), bem como os das forças armadas moçambicanas eram violentamente opostos aos da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), que recebia financiamento da Rodésia e, mais tarde, da África do Sul. O conflito apenas terminou em 1992 com a assinatura do Acordo Geral de Paz pelo então presidente da república Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama, então presidente da Renamo.

A guerra civil na Guiné-Bissau, também conhecida como Guerra de 7 de Junho, foi um conflito desencadeado por um golpe de Estado contra o Presidente João Bernardo “Nino” Vieira, liderado pelo general de brigada Ansumane Mané a 7 de Junho de 1998, prolongando-se até 10 de Maio de 1999. As forças governamentais, apoiadas pelos Estados vizinhos, confrontaram os líderes do golpe militar que rapidamente haviam conquistado controlo quase total sobre as forças armadas do país. O conflito causou a morte de centenas, possivelmente milhares de pessoas, e a deslocação forçada de centenas de milhar.

 

(continua na próxima edição)

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