Joaquim Vasconcelos
(Engenheiro e Ambientalista)
Há vários anos que técnicos florestais e ambientalistas referem que a falta de ordenamento florestal em Portugal está a destruir o equilíbrio dos ecossistemas e que as consequências serão imprevisíveis.
Os responsáveis não se preocuparam, continuando a esquecer-se que a Natureza não se vende e as asneiras vêm ao de cima, quando menos se espera. Se não mudarem a sua atitude, os habitats irão desaparecendo e as doenças irão agravar a qualidade de vida, e a democracia não passará de mais uma filosofia política que serviu para “engordar os espertos”, em detrimento do resto da sociedade. Recordo Miguel Torga: «a politica é para eles (políticos), e para mim uma aflição»!…
Os habitantes da Serra d’ Arga só queriam que os ribeiros fossem limpos e melhorados os muitos caminhos rurais para trabalharem uma difícil agricultura de montanha.
Em vez disso, gastaram-se milhões de euros na execução de quilómetros de ciclovias litorais, havendo situações que até a duplicaram (vila Praia de Âncora- Moledo), só para se gastar dinheiro.
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Aproveitaram estas obras para destruir uma área considerável da rede Natura. Nestes casos, não têm sido os particulares quem tem destruído o litoral, não respeitando a legislação nacional, nem comunitária. Enquanto isso sucedia, os responsáveis não tomaram as providências necessárias para minimizar os efeitos dos incêndios que, sem contemplações, varreram zonas serranas que quer o governo central quer o poder local voltaram a esquecer ao não fazer a prevenção. O actual cenário dos fogos florestais assumiu contornos sem precedentes, tendo varrido a Serra d’ Arga e colocado os habitantes locais atemorizados pelas proximidades em que aquele esteve das suas casas.
De facto, é uma realidade a desertificação de zonas interiores ou serranas!
Em vez de se promover um trabalho de prevenção, procura criar condições mais atraentes no litoral, pois é aí que vão buscar mais votos.
Já ninguém duvida que a falta de ordenamento florestal originou o maior flagelo nacional (os incêndios), embora os responsáveis, como acontece a maioria das vezes neste país, tentem sacudir responsabilidades, referindo que o problema se deve à falta de limpeza das matas, esquecendo-se que o mais grave tem a ver com:
– A falta de ordenamento florestal;
– A falta de fiscalização e do acompanhamento que era dado todo o ano pelos guardas florestais no local.
Conclui-se que devido à irresponsabilidade e desconhecimento dos responsáveis, o planeamento é só prometido, mas nunca implementado.
PUBAgora que a Serra d’ Arga foi queimada, seria bom que as autoridades eliminassem as acácias e outras infestantes, implementando uma florestação de folhosas que ajudaria a reposição dos lençóis freáticos, reduzindo naturalmente o número de incêndios.
Se implementarem o ordenamento florestal, o fogo não será totalmente eliminado, mas reduzirá a área ardida.
Para se trabalhar com objectivos precisos, será bom que avancem com um cuidadoso planeamento em que predominem as folhosas.
É fundamental que as entidades responsáveis pela gestão deste país estejam conscientes de que :
1 – para fixar a população serrana, deve ser feito um planeamento florestal;
2- presentemente é impossível fazer-se uma limpeza, da floresta, por particulares;
3 – seria importante que durante o Verão as forças militares fossem espalhadas pela floresta em acções de vigilância permanente. (pelo contrário, o que tem acontecido são acções pontuais de vigilância e combate às chamas);
4 – deviam ser alteradas e agravadas as penas dos crimes de fogo posto e punir efectivamente os infractores;
5 – proibir rigorosamente todas as construções em zona ardida durante os anos previstos na lei;
6 – incentivar a limpeza de matas, promovendo a valorização dos resíduos, mato e lenha, criando centrais térmicas adaptadas ao uso deste tipo de combustível;
Salta aos olhos que o país está a arder porque alguém quer que ele arda. Ou melhor: porque “muita gente” quer que ele arda! Há uma verdadeira indústria dos incêndios em Portugal e muita gente a beneficiar, directa ou indirectamente, da terra queimada. A prevenção e o planeamento parece que são desconhecidas em Portugal; parece que aqui tem muito mais interesse o combate aos incêndios, sendo muito mais caro e perigoso para os bombeiros.
Os milhares ou milhões gastos nas ciclovias deviam ser utilizados em estudos de planeamento florestal, essencialmente na prevenção, de forma a garantir a fixação dos habitantes desses povoados.