Primícias Literárias: A bala

A Pousada numa mesa no meio do nada, um revólver jazia, enferrujado pelo tempo.

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Esse meio do nada era um espaço árido, que no olhar humano parecia existir e existir e nunca ser diferente. 

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A arma, em cima de uma mesa e virada na direção do Sol, que permanecia muito alto no meio das nuvens esparsas e finas, não fazia qualquer som, embora essa sua posição fosse curiosa e, ao mesmo tempo, estranha.

Seria esse o seu destino, ficar assim parada no meio do nada, a acompanhar o tempo e o Sol. Sem poder ouvir, sem poder sentir, sem poder cheirar, somente ver através do cano de onde voam as balas.

Mas o vento não gostou do rumo da história da arma sem destino, e logo fez força suficiente para ela deslizar pela mesa e cair na terra seca e dura. A arma, devido ao impacto, disparou uma bala.

Esta bala passou a ser a sucessora da arma, a protagonista do seu rumo. Não sabia, porém, que o seu rumo era completamente indefinido, sem qualquer trajetória pensada ou planeada. Felizmente, ela voou numa linha horizontal na direção do Sol.

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Quanto mais voava, mais longe o chão ficava. A poeira visível que o vento levava pelo solo e a secura das plantas dispersas naquele sítio chegaram a um ponto em que eram mais pequenas que a própria bala.

O Sol estava muito perto. Já tinha passado as nuvens. Pena que as balas não consigam voar infinitamente, senão teria a certeza de que esta tocaria o Sol. Portanto, começou a abrandar e parou num momento na calma do azul, perto do Sol.

Parou e, com a mesma pressa que trazia, recuou no tempo. Aliás, bastou um piscar de olhos para ela já estar perto do chão de sempre.

A bala, que parecia sólida e veloz, estava agora suja com a poeira do chão e encolhida com o impacto.

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O vento, que levava poeiras e lixo, reparou na bala imóvel. Com a mesma força que fez a arma deslizar, arremessou a bala para o seu antigo local.

Ela voou no vazio de sempre. Podia estar torta e desformada, mas o vento deu-lhe uma trajetória que lhe dava sentido.

Pouco demorou até embater na mesa e a furar com ímpeto, deixando um buraco na madeira podre. Ao lado, o revólver permanecia quieto, virado para o Sol.

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Curioso, o vento observava o reencontro da bala perdida e do revólver usado por uma última vez e decidiu que todas as trajetórias de impulsos voltariam no mesmo momento ao ponto de partida.

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O Sol já se punha. Ao longe, um outro vento criava uma outra história em torno da Lua.

leitordanieljorge@gmail.com
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