PRIMÍCIAS LITERÁRIAS: Chuva

A chuva é desvalorizada e desprezada pela maioria, mas poucos entendem o seu verdadeiro valor.

Claro, quem gostaria de ficar com as roupas molhadas, desconfortáveis e sentir-se vulnerável ao frio ar de janeiro?

Gostaria de elogiar, em primeiro lugar, a determinação e transparência que fazem da chuva um elemento da natureza objetivo e louvado por todos os outros elementos. Pergunto, seres que não são a chuva, se vocês têm a capacidade de ser completamente transparentes e objetivos, sem se deixarem levar por outros caminhos alheios ao vosso dever? Compreendo, porém, se mudarem ligeiramente de direção devido ao vento, um elemento natural que atrapalha qualquer um, mesmo que não seja por mal, pois, afinal, ele não tem culpa de ter de causar a confusão enquanto voa. Não se enganem neste pormenor, pois o vento tem a capacidade de ter uma total liberdade de movimentos que o podem deixar seguir qualquer caminho e qualquer direção para chegar ao seu objetivo. Já a chuva, a gloriosa chuva, esta, mais tarde ou mais cedo terá sempre o fim de cair.

Gostaria também de louvar o som da chuva. O som pode ou não ser intenso, mas cada gota de água faz parte de uma orquestra que pode demorar horas e horas. Não acham esta consistência e ambição tão bonita? E mais, esta melodia só pode ser completada em conjunto com milhares de gotas das nuvens, o que significa que a chuva não trabalha sozinha, nem ganha sozinha, é o exemplo perfeito de harmonia e solidariedade. Ainda estou à espera de encontrar o humano que não mostre qualquer sinal de egoísmo ou individualismo…

Passo agora às ditas críticas negativas da chuva que, ainda que seja um ser de qualidade, tem os seus defeitos. Para quê molhar tudo ao cair? Não sabe distinguir o que é importante e cair somente onde é necessária?! Não digo que a tal ambição não seja necessária, mas uma ambição em demasia torna-se uma ganância cega que afeta qualquer um que esteja no seu caminho.

Posso ter elogiado o tempo da melodia e a consistência da chuva, mas será esta permanência sempre necessária? Não se torna um exagero cair continuamente durante um longo período de tempo? Não se torna desnecessário e quase doentio pingar sem parar? Enfim, pelo menos a chuva não faz mais do que molhar e cair, ao contrário de alguns humanos que não têm a capacidade de molhar, mas têm outras capacidades que obrigam indefesos a cair e cometem atrocidades. Por isso a chuva cai, é a sua forma de chorar o mundo que vê… e imagino que se continuarmos neste caminho ela, a chuva, vai ter a capacidade de tudo inundar, não para lavar a terra, mas pela dor que as gotas sentem ao ver o mundo.

Mas, hoje, deixem-me aqui permanecer, atrás de uma janela que me protege, a olhar a chuva a cair torrencialmente e a sorrir daqueles que correm e tentam fugir dela, sempre sem sucesso. E o malvado do vento está a ajudar!

leitordanieljorge@gmail.com
  Partilhar este artigo

5 comentários

  1. Interessante Daniel.
    A chuva, tal como a vês, tem o lado bom e o menos bom…mas humanizaste a chuva, falaste com ela…gostei muito!

  2. A chuva, tal como a vês, tem o lado bom e o menos bom…mas humanizaste a chuva, falaste com ela…gostei muito!
    O prazer de a descrever é muito interessante e…de ficar atrás da janela a vê-la cair.
    Parabéns.

  3. Gostei muito! És maravilhoso! Admiro-te cada vez mais e manifesto aqui o orgulho que os teus pais sentem em ti! Continua, Daniel, a ser sempre tu, simples, magnífico e talentoso! Beijinho grande. ??

  4. AMIGO,

    Sinto-me como teu professor e amo-te como meu aluno, mas sou AP, apoSentado, pelo que não corres o risco de ser aluno de, mim, professor.
    Teus pais que se sintam felizes e que te apoiem, mas, apenas, e só, o preciso, para te deixarem, Crêscer.
    Vive, cuida-te, come, bebe, estuda, pensa… escreve-nos.
    Pés no chão, cabeça entre os ombros, olha em frente …

  5. Brilhante! Gosto da escrita é super realista.
    Parabéns! E continua a escrever! Quero ler mais! Beijinhos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Opinião  
  Partilhar este artigo