Quem governa?

Ricardo Arieira

(Relações Internacionais)

 

Quem governa? Bruxelas, Berlim, os mercados, as Elites políticas, o povo? A resposta não é fácil, pois não? Faz sentido pensarmos que somos uma democracia?

O sistema não está feito para o povo governar. Em toda a parte, os governos estão reservado às Elites. Sejam regimes totalitários, autoritários, ou democráticos. Mas ao contrário dos outros, que são fechados, nos regimes democráticos o sistema funciona com um circuito semiaberto. E é-o o suficiente para não causar uma esclerose no sistema, evitando o seu colapsar. Foi assim, por exemplo, com o Antigo Regime. Os circuitos fechados de governação amiúde precipitam sublevações. Em Portugal também foi assim com a ditadura do Estado Novo, mas tratou-se de um golpe militar, e não de uma revolução do povo, como gostamos de pensar. Eram as Elites (militares) que estavam descontentes. E o povo também, claro! Mas esse aguenta-se sempre!

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Ao contrário dos regimes não democráticos, que são declaradamente elitistas, as democracias também o são, mas têm a virtude de serem ilusórias. Dão-nos a sensação de que decidimos. Eis a grande vitória para as Elites: o povo pensar que decide, mas quem manda são as Elites. E, no final do dia, todos ficamos muito satisfeitos com isso. Todos ganhamos o suficiente para continuarmos interessados em perpetuar o melhor dos sistemas até agora experimentados. É claro que a abstenção já vem demonstrando que há gente que não vai na cantiga do sufrágio universal. Gaetano Mosca, cientista político italiano, dizia que “a participação popular através do voto não significa que o povo esteja dirigindo seus eleitos, ao contrário, ele escolhe da Elite uma Elite de escolhidos.” No fundo, quem conduz a sociedade é a Elite política. Ao povo cabe pensar que decide alguma coisa. E isso é o que conta.

Por pernicioso que este facto seja, talvez não haja outro jeito, pelo menos, por enquanto. Temos que nos fazer “animais políticos”, como dizia Aristóteles. Não podemos achar que quarenta anos de Democracia bastam para sermos adultos nestas andanças. É claro que estou a ignorar os cerca de noventa anos de Monarquia Constitucional, onde se viram uns laivos de parlamentarismo, com separação de poderes e tal… umas luzes do que seria uma cultura política de participação… mas, infelizmente, a 1ª República foi um desastre conducente ao atraso do Estado Novo, e – claro! – quase cinquenta anos de ditadura obliteraram um possível percurso democrático, e, talvez hoje tudo fosse diferente!

De qualquer forma, quem adivinharia que a 2ª Guerra Mundial iria levar à necessidade premente do projecto europeu e que em 1986 estaríamos a delegar soberania a Bruxelas? Há fatalidades que não têm como se evitar. Afinal, o que adiantaria termos uma cultura cívica altamente desenvolvida na subcultura de participação, para hoje estarmos subordinados às imposições supranacionais?

Somos um país periférico quando a nossa referência é a Europa. Perdemos a capacidade de poder repor o nosso equilíbrio territorial com a descolonização. Resta-nos explorar o nosso atlantismo por forma a repormos algum equilíbrio do nosso posicionamento no quadro da União Europeia.

Bem visto, tantos anos de ditadura serviram-nos, ao menos, para agora sermos tidos por bons alunos, e não nos custar tanto bajular as Elites internacionais.

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