A recusa (2)

[…] Era domingo, manhã odorífica com fragâncias do deleitável orvalho da noite, os ramalhetes da terra gratulavam a respiração da aragem pulmonar, unção da vida, impulsada pelo céu azul reluzente, infinitamente cândido!

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O dia, como habitualmente nascia gélido, em quanto o chilrear dos pássaros acalmavam o espírito dos vivos e dos mortos, principalmente a rola, companheira trivial de todas as alvoradas da janela da casa de Ulrich virada para nascente, oferecia um pictórico quadro de (VIII): Mikhail Avilov [O Realismo Socialista]. Pintura, quadro exposto na parede, entre os adereços decorativos da sala de estar da vivenda telúrica de Ulrich.

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A paisagem serpenteada pela penumbre do corpo celeste, vermelho íris nascer do sol, prometia ser uma jornada luxuriante, igual a tantas outras que a natureza naquele longínquo sítio contemplava o sossego extasiado, filiado na cidade de Irkutsk, inconfundivelmente, harmoniosa e bela!

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Enquanto a manhã tranquilamente se espreguiçava, um estranho e violento bater na porta principal da entrada de casa sobrevinha, trus trus trus…!

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Ulrich está sozinho, pergunta: – Quem é!?

A resposta é dada com o mesmo som, trus trus trus, mais intenso… De seguida Ulrich, vem à porta e abre. Sem tempo nem modo para respirar! Todavia, não ficou surpreendido, nem espantado, dizia-lhe a prévia consciência, já adivinhava esta ocorrência, sem argumentos…

– O senhor está preso, acompanhe-nos. Ordena o militar graduado. Sem mais dilações, os três homens militares fardados, um graduado e dois imberbes soldados, entram de rompante pela casa dentro, arrancam das algemas…

– Que mal fiz eu para estar preso, um velho como eu!?

– O senhor está preso.

– Posso me despedir da minha mulher, ela não demora, foi aqui perto, à padaria comprar pão. Por favor, não sei se volto a vê-la mais, esperem um pouquinho, quero me despedir da minha mulher, por favor… Sem resposta, os soldados dirigem-se ao Ulrich com as algemas nas mãos. – Por favor, esperem um pouco mais, a minha mulher não demora.

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Enquanto isto, o oficial olha o tabuleiro de xadrez, as peças em cristal, observa por uns instantes a disposição das peças, enquanto os soldados cercam Ulrich, o tabuleiro de xadrez estava conforme o jogo realizado com o vizinho Valentin Ivanov a noite anterior que terminou cerca das 02h00 da manhã com um empate.

A observação do oficial sobre o tabuleiro de xadrez chamou à atenção de Ulrich…

РO senhor gosta de jogar xadrez? Interpela Ulrich. O oficial ṇo responde.

– É um dos meus passatempos, embora não seja grande jogador, jogo com um amigo meu vizinho, que é mais ou menos do mesmo nível que eu…

O oficial mantém-se em pausa e em silêncio, talvez para dar tempo que chegasse a mulher. A ser verdade estava a substituir a rigorosidade da farda pela compaixão…

O silêncio mantém-se, talvez por dois ou três minutos, até que, com voz de poder e força, o oficial dá a ordem: Vamos.

– Por favor, por favor, a minha mulher, a minha mulher está a chegar, mais um pouco… tenham compaixão, deem-me mais uns minutos… suplica Ulrich.

– Vamos. Ordena o oficial.

– Posso escrever duas palavrinhas para a minha mulher? O silêncio mantém-se como que a dizer podes… Num ápice emocional, nervoso e perturbado agarra no primeiro papel que está à mão, caneta não sabe, não aparece, não tem…

– Desculpe senhor oficial, tem uma caneta que me possa emprestar?

O oficial com um sentido generoso vai ao bolso do blusão, empresta-lhe a caneta!

Ulrich, tremia, os olhos lacrimejavam, as palavras não saíam, estava bloqueado, porem, escreve sem saber o que escreve, mas escreve:

Meu amor, os militares levaram-me! Amo-te, espera por mim, eu volto, eu volto meu amor, amo-te muito, o meu coração voa sem destino, para todos, meus queridos filhos e meus queridos netos, saudades, muitas saudades, volto meu amor. Ulr.

– Vamos. Diz perentoriamente o oficial.

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Ulrich algemado entre os dois soldados é levado para dentro dum jeep do exército de caixa fechada, ao entrar repara extraordinariamente surpreendido pela presença do seu amigo Valentin Ivanov, vizinho, companheiro íntimo dos jogos de xadrez, e das sociáveis conversas incansáveis, também agrilhoado.

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No veículo, ao volante vai o soldado, ao lado segue o oficial e no banco de atrás entre o Ulrich e o Ivanov está o soldado. Os amigos olham-se estupefactos!

Sem tempo nem demora o soldado interpela: Р̩ proibido conversar, caluda.

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(Continua próximo capítulo)

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nevesdavila@minhodigital.pt
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