Editorial

Relógio
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Joaquim Letria

Com cara de lua cheia enrugada num sorriso inocente, Francisco Relógio ganhava a vida curvado sobre um estirador da CP, quando esta era uma casa de bem.

Hoje, talvez ninguém lá saiba que este artista de primeira água foi ali, anos a fio, um  modesto e cumpridor desenhador, desenhando projectos em papel vegetal, com os seus casacos deformados de “tweed” sobre camisas azuis Oxford engalanadas por uma perene gravata de malha preta que formavam o seu uniforme de sempre.

Aposto que nas escadinhas do Duque, ao lado da Estação do Rossio, não se encontra sequer uma daquelas fichas amarelecidas pelo tempo, preenchidas a cursivo francês de aparo fino, geralmente ostentando uma fotografia “à la minute” com uma cara patibular, comprovando que o grande pintor Francisco Relógio fora ali um apagado desenhador das 9 às 5 para viver.

As noites de Francisco Relógio eram também sempre iguais. Fazia parte duma mesa saudosa da antiga pastelaria Ritz, um pouco mais acima do Hotel do mesmo nome na Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa.

Desse grupo só resto eu e o Hermes Palma, pois o Manuel Antunes, o José Manuel Palminha e o Francisco Relógio foram desta para melhor muito mais cedo do que deveriam ir. O Luis Mendes foi à Suécia ver uma namorada e nunca mais voltou.

Ninguém imaginava a gravidade da nossa agenda de trabalhos, cumprida por entre livros e cadernos abertos, chávenas de café e de cariocas de limão. Naquela mesa “resolvemos” Dien bem-Phu, a Guerra da Coreia, o paralelo 38, a Batalha de Argel, a conspiração da OAS contra De Gaulle, as eleições de Humberto Delgado, relemos a “Seara de Vento” do Manuel da Fonseca, discutimos a dor e a tortura  segundo Henri Alleg. Só uma morena carnuda e pestanuda, de sorriso de mel, mulher dum juiz de má catadura,  nos distraía  da nossa ordem de trabalhos, digna dum Conselho de Segurança da ONU. Meu Deus, como era linda, sensual e discretamente provocante aquela mulher que com o marido a ler o jornal ao lado se tornava ainda mais excitante!!

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O Francisco Relógio era uma voz indispensável e um dia fomos com ele a Vila Verde de Ficalho, sua terra, para conhecer o Manuel Sapateiro, que aprendera a ler sozinho e tanto leu que se transformou em bibliotecário da Gulbenkian, ao volante duma Citroen de chapa ondulada que serviam de bibliotecas itinerantes, carregadas de livros que o Manel lia um a um desde que fugira das sovelas de remendão a que a fome da família o destinara.

Invariavelmente, Relógio puxava dum porta-minas, ou lapiseira, como preferirem, e o papel da toalha da nossa mesa enchia-se de labirintos e de cabeças de mulheres de mãos e pernas grossas. Também invariavelmente o empregado de mesa levantava a loiça e sem um protesto ou queixume da nossa parte, fazia uma bola gigante com os desenhos do Francisco  e jogava-os  no lixo.

Anos mais tarde, no Maputo, passei horas desfrutando o mural gigante do Francisco Relógio na fachada do antigo Banco Nacional Ultramarino de Lourenço Marques e desde a independência sede do Banco Nacional de Moçambique. Aquele mural, que os moçambicanos cuidam e respeitam, é tudo: painel Inca, Maya,  Azteca, mexicano moderno, melhor do que muitos do Rivera  – tão discutido no nosso grupo quanto era Portinari. Aquela obra do Francisco Relógio que também podia ser Maconde, é uma síntese de civilizações, uma sinfonia de cores, dor, sofrimento, alegria e paz.

Quando me casei, o Francisco ofereceu-me um óleo. Mais tarde pediu-mo emprestado para o mostrar em Madrid, numa exposição para que lhe enviaram um convite súbito. Nunca mais vi o óleo e nunca falámos nisso. Quando os nossos passos se cruzavam era para recordarmos conversas, coisas boas e amigos inocentes.

Tudo o que o Francisco Relógio fez, pertença a quem pertencer, deveria ser património da terra ressequida de Vila Verde de Ficalho, Baixo Alentejo, sob cujos torrões as cigarras cantam um monumental Te Deum pelo meu amigo Francisco. As cigarras reconhecem os homens bons e admiram as suas coisas eternas. Por isso cantam como cantam.

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