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Reviver a loiça de Vilar de Mouros

Uma sala cheia de curiosos mas, também, de gente muito orgulhosa pela história da sua terra, Vilar de Mouros. Foi assim no passado domingo, no Resort Prazer da Natureza com a edição do livro ‘A fábrica de loiça de Vilar de Mouros’.

Fotos: António Garrido

O próprio presidente da Junta de Freguesia, Carlos Alves, salientou o imenso orgulho na história e no trabalho das gentes desta freguesia. Por sua vez, Miguel Alves, presidente do município caminhense, reforçou o esforço efectuado na cultura, mas essencialmente na história de um concelho.

Minho Digital esteve presente nesta edição e entrevistou Paulo Bento sobre este livro mas, também, sobre o Grupo de Estudo do Património de Vilamourense.

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Minho Digital (MD) – Primeiro, Profº Paulo Bento, quem são as pessoas que compõem o GEPPAV?

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

O Grupo de Estudo e Preservação do Património Vilarmourense foi fundado em 2004 como secção autónoma do Centro de Instrução e Recreio Vilarmourense (CIRV) e a sua constituição tem variado desde então. Neste momento, estão ativos no trabalho regular Joaquim Aldeia Gonçalves, Plácido Souto, Basílio Barrocas e eu próprio. Contudo, outras pessoas têm vindo a colaborar connosco, de acordo com as diferentes pesquisas em que estamos envolvidos.

MD – A nova edição do GEPPAV quando começou a ser delineada? Qual foi o tempo de trabalho?

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Este livro “A Fábrica de Louça de Vilar de Mouros” teve um tempo de preparação de cerca de dois anos, desde o início de 2014, mas para a sua elaboração recuperámos informações por nós recolhidas com  mais de uma década, como depoimentos de vilarmourenses idosos entrevistados no início de 2004, infelizmente entretanto falecidos.

MD – Porquê um estudo sobre a cerâmica de Vilar de Mouros?

Conhecia-se a existência desta fábrica e de algumas peças ali feitas mas pouco mais se sabia sobre a história, operários, produção e importância no contexto regional e nacional da produção de faiança.

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MD – Quais foram as grandes dificuldades que encontraram no estudo realizado?

As dificuldades maiores foram a quase ausência de documentação oficial relativa a esta fábrica, pelo menos nos arquivos da região. Também a dificuldade de identificação com fiabilidade das peças efectivamente ali produzidas, dada a raridade das peças marcadas, o que nos obrigou a ter muito cuidado na sua selecção para este livro.

MD – Brevemente, onde podemos localizar no tempo a fábrica de cerâmica de Vilar de Mouros?

A fábrica de louça de Vilar de Mouros foi fundada em 1855 imediatamente a seguir ao encerramento da fábrica de louça de Viana, localizada em Darque. Dois operários que ficaram desempregados, os irmãos Bento e José Maria Alvarinhas, eram oriundos de Vilar de Mouros e, com o capital e o terreno de um outro vilarmourense, Domingos Luís de Chelo, decidiram abrir uma fábrica de louça fina na sua freguesia. A fábrica teve um percurso algo atribulado, com altos e baixos, mas terá laborado até cerca de 1920, tendo sido durante quase setenta anos a única fábrica de faiança do Alto Minho e, cremos, mesmo de todo Minho.

MD – E sabemos porque ela foi criada?

A ideia seria explorar os mercados regional e galego com louça branca e fina utilitária de alguma qualidade. Com o fim da fábrica de Viana e o posterior encerramento de Sargadelos, na Galiza, em 1875, abriu-se uma oportunidade de mercado aproveitada, primeiro, pelos fundadores da fábrica vilarmourense e, posteriormente, pelo seu proprietário e grande esteio até ao final, José Manuel da Cruz.

MD – Quais eram as principais peças elaboradas por essa fábrica?

A maioria das peças era de natureza utilitária, para uso comum na cozinha e sala de jantar, como infusas, garrafões, malgas, terrinas, bules, pratos, etc. Também havia algumas peças de natureza devocional, como jarras para igrejas, e outras ainda para diversos tipos de uso, como tinteiros, areeiros, frascos, caixas pequenas, castiçais, etc.

MD – Sabemos por que fechou a sua produção?

Não possuímos a informação toda, nem mesmo do momento certo do encerramento, mas todos os dados que recolhemos apontam para o início dos anos 20 do século XX, com a conjugação de factores adversos como a Grande Guerra, a Gripe Pneumónica e a dificuldade na exportação para a Galiza. Contudo, após deixar de se fabricar faiança, ainda se produziu num novo forno entretanto construído perto do forno primitivo, louça de barro comum para venda no mercado local. Mais tarde, nos anos 40, com uma nova geração da família Cruz, esse segundo forno ainda serviria para fabricar tijolo com a marca “Cerâmica Vilarmourense”.

MD – Actualmente, que valor pode ter a cerâmica de Vilar de Mouros?

Há o valor histórico, para nós o mais importante, que é imenso. As peças de faiança feitas nesta fábrica que chegaram até ao nosso tempo são o melhor símbolo da verdadeira Aldeia Industrial que Vilar de Mouros foi durante muitas décadas. Também do trabalho e da criatividade dos vilarmourenses, que merecem ocupar o lugar a que têm direito na história da faiança nacional, que é riquíssima. Há depois um valor de colecção , que sabemos ser elevado, tanto pela qualidade das peças como pela sua raridade, mas esse tem sobretudo a ver com o mercado de coleccionadores e antiquários.

MD – São muitas as pessoas que ainda são possuidoras desta cerâmica?

Neste livro agora editado, o primeiro estudo e catálogo da faiança de Vilar de Mouros, estão fotografias de peças de dezasseis proprietários particulares, identificados ou não, de acordo com a vontade de cada um. Certamente que haverá outras peças que agora surgirão, umas porque não sabíamos da sua existência, outras porque nem os seus proprietários saberiam que possuíam peças com essa origem. De qualquer forma, pela ausência de marcação da esmagadora maioria das peças, nunca será fácil uma identificação segura, como aliás sucede com grande parte da faiança produzida nas fábricas portuguesas.

MD – Para a publicação deste livro o GEPAV teve de elaborar várias parcerias. Porquê?

Estando nós habilitados, pelo trabalho que entretanto fomos desenvolvendo na freguesia, para estudar a história da fábrica, precisámos de especialistas em cerâmica e faiança para proceder ao seu estudo e catalogação. A ajuda da Doutora Isabel Fernandes (directora do Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães), que prefacia o livro, e da Drª. Cláudia Milhazes (Diretora do Museu de Olaria, em Barcelos), conduziu-nos até à Drª. Patrícia Moscoso, museóloga com experiência e currículo nesta área, que se encarregou do estudo e da catalogação das peças. Também contámos com a preciosa colaboração dos nossos amigos António Garrido, para a fotografia, e de Carlos da Torre, para o design gráfico.

Depois, para a edição com qualidade do trabalho, recorremos ao apoio da Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, que sempre nos tem apoiado, da Direcção Regional de Cultura do Norte e, sobretudo, da Câmara Municipal de Caminha, que coedita o livro com o CIRV-GEPPAV e garantiu parte substancial do investimento necessário.

MD – Sabemos por que fechou a sua produção?

Não possuímos a informação toda, nem mesmo do momento certo do encerramento, mas todos os dados que recolhemos apontam para o início dos anos 20 do século XX, com a conjugação de factores adversos como a Grande Guerra, a Gripe Pneumónica e a dificuldade na exportação para a Galiza. Contudo, após deixar de se fabricar faiança, ainda se produziu num novo forno entretanto construído perto do forno primitivo, louça de barro comum para venda no mercado local. Mais tarde, nos anos 40, com uma nova geração da família Cruz, esse segundo forno ainda serviria para fabricar tijolo com a marca “Cerâmica Vilarmourense”.

MD – Actualmente, que valor pode ter a cerâmica de Vilar de Mouros?

Há o valor histórico, para nós o mais importante, que é imenso. As peças de faiança feitas nesta fábrica que chegaram até ao nosso tempo são o melhor símbolo da verdadeira Aldeia Industrial que Vilar de Mouros foi durante muitas décadas. Também do trabalho e da criatividade dos vilarmourenses, que merecem ocupar o lugar a que têm direito na história da faiança nacional, que é riquíssima. Há depois um valor de colecção , que sabemos ser elevado, tanto pela qualidade das peças como pela sua raridade, mas esse tem sobretudo a ver com o mercado de coleccionadores e antiquários.

MD – São muitas as pessoas que ainda são possuidoras desta cerâmica?

Neste livro agora editado, o primeiro estudo e catálogo da faiança de Vilar de Mouros, estão fotografias de peças de dezasseis proprietários particulares, identificados ou não, de acordo com a vontade de cada um. Certamente que haverá outras peças que agora surgirão, umas porque não sabíamos da sua existência, outras porque nem os seus proprietários saberiam que possuíam peças com essa origem. De qualquer forma, pela ausência de marcação da esmagadora maioria das peças, nunca será fácil uma identificação segura, como aliás sucede com grande parte da faiança produzida nas fábricas portuguesas.

MD – Para a publicação deste livro o GEPAV teve de elaborar várias parcerias. Porquê?

Estando nós habilitados, pelo trabalho que entretanto fomos desenvolvendo na freguesia, para estudar a história da fábrica, precisámos de especialistas em cerâmica e faiança para proceder ao seu estudo e catalogação. A ajuda da Doutora Isabel Fernandes (directora do Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães), que prefacia o livro, e da Drª. Cláudia Milhazes (Diretora do Museu de Olaria, em Barcelos), conduziu-nos até à Drª. Patrícia Moscoso, museóloga com experiência e currículo nesta área, que se encarregou do estudo e da catalogação das peças. Também contámos com a preciosa colaboração dos nossos amigos António Garrido, para a fotografia, e de Carlos da Torre, para o design gráfico.

Depois, para a edição com qualidade do trabalho, recorremos ao apoio da Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, que sempre nos tem apoiado, da Direcção Regional de Cultura do Norte e, sobretudo, da Câmara Municipal de Caminha, que coedita o livro com o CIRV-GEPPAV e garantiu parte substancial do investimento necessário.

MD – Foi referido aquando da apresentação do livro como seria importante fazer uma exposição com estas peças. Poderá acontecer?

Nunca foi feita uma exposição conjunta da faiança produzida no concelho de Caminha. Com a colaboração de todos, principalmente dos proprietários das peças, esperemos que em breve isso seja possível, de preferência num renovado Museu Municipal de Caminha.

MP – Quais são os objectivos quanto a esta edição?

O grande propósito desta edição é divulgar o nome de Vilar de Mouros e da sua faiança, agora pela primeira vez estudada e catalogada, entre os especialistas e o público em geral.

MP – Profº Paulo Bento, iremos conhecer um pouco mais do grupo a que pertence. Quando e com que objectivo surge o GEPPAV?

Como disse atrás, o GEPPAV surgiu em 2004 com os objetivos essenciais de estudar a história de Vilar de Mouros, ajudar a defender e preservar o seu património e memória dos seus habitantes e ainda de divulgar o nome da freguesia no contexto regional e nacional.

MP – Já editaram outros livros. Fale-me um pouco deles?

Ao longo dos doze anos da nossa existência editámos cinco sínteses do nosso trabalho, desde “Ferreiros e serralheiros vilarmourenses” (2008), “Dos caiadores aos estucadores e maquetistas vilarmourenses” (2009), “Álbum de Memórias do Centro de Instrução e Recreio Vilarmourense” (2010), “Minas e mineiros em Vilar de Mouros” (2013) e agora este “A Fábrica de Louça de Vilar de Mouros”.

MD – Sabemos que foi lançado um desafio ao GEPPAV para o estudo de outras fábricas do concelho. Em que consiste?

Para além da fábrica vilarmourense, houve outras duas fábricas de faiança no concelho de Caminha no século XIX, a da Cabana e a da Retorta, ambas com uma curta vida mas com peças de elevada qualidade, muito apreciadas pelos especialistas e coleccionadores . Infelizmente, tal como até agora sucedia com a fábrica de Vilar de Mouros, pouco se sabe sobre a sua existência e produção, daí a necessidade de ser estudada a sua história e catalogadas as suas peças. Se pudermos contar com a colaboração dos proprietários das peças marcadas ou reconhecidas, se beneficiarmos da mesma parceria com especialistas em cerâmica e dos mesmos apoios que tivemos para este trabalho sobre a fábrica vilarmourense, seria interessante empreender essa tarefa para completarmos o estudo da produção de faiança no concelho de Caminha.

MP – Como definiria a cultura e o património do concelho de Caminha?

Numa só frase, riquíssima na diversidade das suas freguesias, de Âncora a Lanhelas, sem esquecer a Serra de Arga, de acordo com a história secular de um território de fronteira, atravessado e vivido por gentes oriundas de muitos lugares e origens, de pescadores, mareantes ou comerciantes a militares, viajantes ou veraneantes.

 

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