Sócrates: o Marquês de Pombal do presente

Luís Sottomaior Braga

Apaixonado por História acho que gostaria, se tivesse oportunidade, de vir a fazer a biografia histórica de José Sócrates. Um biógrafo não tem de gostar do biografado e deve até evitar simpatias. Se não fosse assim, as biografias dos facínoras da História seriam atos impossíveis.

Já não tenho idade para futuro biógrafo do ex-PM suspeito de corrupção, pois, um trabalho de pesquisa desses, só será feito com qualidade, sem tentações parciais e com rigor histórico, daqui a umas décadas, já há muito, eu não andarei por cá.

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Creio que não me enganarei e Sócrates terá direito a uma razoável polemização histórica sobre a sua vida. Um pouco como acontece com o Marquês de Pombal, ou Sidónio Pais, ou outros governantes, cuja marca negativa corre em paralelo ao bem que tenham feito.

Sim, porque, insuspeito de qualquer simpatia pessoal ou política pela personagem, acho que Sócrates fez várias coisas bem feitas e outras, até, muito bem feitas e que lhe darão lugar na História. Veja-se, por exemplo, ter sido na sua governação que se deu impulso decisivo à reivindicação da Plataforma continental, que tantas perspetivas de desenvolvimento trará ao país.

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E fazer-lhe a biografia será interessante porque, ao lado desses atos políticos relevantes, se situa a atuação mais nebulosa e duvidosa de que um político português alguma vez foi acusado expressamente.

Sócrates gostaria, na sua megalomania despudorada, da comparação que há pouco fiz com o Marquês de Pombal. Mas, a verdade, é que as semelhanças também se encontram nesse outro lado obscuro. Sebastião José de Carvalho e Melo também foi acusado de burlas e falcatruas várias e só se salvou do desterro e de coisas piores, na linha das que ele próprio fizera aos Távoras, por alguma piedade de D. Maria I. 

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A Rainha desterrou-o para umas 20 léguas da corte e deixou-o em relativa paz, acompanhado pela amargura da queda em desgraça, também pensando que a condenação dos seus crimes poderia resultar da condenação da memória do seu pai, D. José, de quem o Marquês fora ministro e em cujo nome atuara.

Assim, a PJ chamar Processo Marquês a uma investigação sobre a alegada corrupção de um primeiro-ministro, se não encerrar largo conhecimento da História, encerra, pelo menos, uma saborosa ironia. Além da Geografia de coincidências (a casa luxuosa de Sócrates ficava a poucos metros da estátua majestosa do Marquês) existe a similitude dos atos imputados.

Sócrates há-de ser julgado pela justiça e muito terá de explicar, a avaliar pessoalmente pelo que circula pelos jornais, mas, além do seu julgamento individual, há outras reflexões coletivas a fazer, que o calor da divisão nos tabloides em “pró-sócrates” e “anti-sócrates” enovoa.

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Talvez só a tal biografia monumental, lá para o ano 2050, resolva muitas das questões, mas seria útil coletivamente pensarmos hoje nelas.

Por exemplo, como foi possível ter tido uma maioria absoluta e ser, nesse tempo, apoiado por tanta gente que o execra hoje, se já era a pessoa e o político que é hoje? E ser reeleito, derrotando gente que anunciava o que se estava a passar, mas foi ignorada por via da eficácia da máquina de propaganda? Como conseguiu dominar um partido democrático de esquerda ao ponto de anular quaisquer críticos e alertas morais e políticos? Porque foi depois escolhido como símbolo da crise por alguns que, no passado, o citaram como exemplo de boa governação, por contraponto a possibilidades mais esquerdistas?

Sócrates e o seu comportamento interpelam-nos a todos como cidadãos e a sua condenação política (já consumada de forma irreversível) e penal (que há-de ainda discutir-se mas que corre o seu curso) será útil ao futuro de Portugal, se acompanhada de alguma reflexão crítica sobre como ele foi um fruto sumarento, produzido na estufa e com adubação extremada da nossa vida democrática. Que é de todos e não só dele.

Nunca gostei pessoal ou politicamente da personagem, cujo valor real me pareceu sempre infundada e excessivamente elogiado, para a realidade verificável. (E posso demonstrá-lo com escritos de 2005 e antes). Na minha parvónia pude verificar, formando opinião segura, a sua visão de legalidade e defesa dos direitos individuais, quando sustentou expropriações sem outra base além da estética.

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Demiti-me do PS por sua causa, no tempo em que era endeusado e vivia a sua maioria absoluta, mas acho que, no meio da novela folhetinesca da sua queda, prisão e futuro julgamento, se está a pessoalizar demais e a debater pouco o quadro social e político que o criou e permitiu.

No fim de semana fez uma conferência sobre política e justiça e teve a falta de vergonha se comparar a Luaty Beirão, ato exibicionista que nem merece qualificativos morais (mesmo que a posteriori um tribunal, por razões materiais ou meramente formais, o venha a absolver). Mas não vi questionamento significativo sobre isso.

De certa forma, estamos a fazer como D. Maria I que não queria ver o Marquês de Pombal à sua frente porque isso lhe lembrava outras coisas. Sócrates faz tudo por ser visto mas aquilo que interessa esconde-se no folclore das noticiadas despesas sumptuárias, das faturas de hotel aos livros próprios comprados por atacado.

E o que interessaria criticamente (fora do processo e da sua lógica autónoma) é refletir sobre como pode a nossa Democracia de 40 anos (e que já tem maturidade para ter juízo) produzir uma personagem daquelas e como pode evitar caso igual futuro?

 

geral@minhodigital.pt
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