Sonetos Escolhidos 1

Sonetos escolhidos  pelo autor.

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Desamor

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Mulher que me rendeste aos teus caprichos
Preso nas malhas de um amor insano
Funéreo dia em que esse amor profano
Me deixou subjugado aos teus enguiços.

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Das cinzas desse amor o céu me prive
Que o meu peito renega essa pendência
E a razão mais me avisa ser demência
Insistir na desordem que em mim vive.

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Pugno pela vontade que me falta
Para expulsar, quem dera, o teu feitiço
Mas neste palco ainda és a ribalta.

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E assim, é nesse fogo em que me atiço
– Ardendo em chama cada vez mais alta –
 Que me consumo, sempre mais comisso.

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Mea culpa

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Ah, se esta contrição tornasse leve

As culpas de te haver ignorado

Mas sabes tu, mulher, é este o fado

De quem despreza o bem,  e a quem o deve.

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Chamas-te tola porque idealizaste

O que se pode querer de quem se ama;

O fulgor do desejo, aquela chama

Que, como é justo, tu sempre sonhaste.

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Mas nada foi secreto e eu senti

Que perdera – imbecil – todos os créditos

Ao ler no teu olhar tudo o que li.

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E se hoje já não ouves os meus éditos

Não posso censurar-te,  pois eu vi

A desistência, nos teus ombros trépidos.

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Livrai-nos deles, Senhor

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Oh Deus do mundo, Senhor do universo

Desce os Teus olhos aos míseros terrenos

Mostra de Ti o sacrossanto anverso

Às ímpias almas que em Ti crêem menos;

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Aqueles pra quem só conta o que é perecível

Os que condenam débeis e indefesos

Ao despotismo vil, à fúria incrível

Que lhes servem interesses sempre acesos.

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Piores pecados que a Teus olhem fulgem

Sem expiação possível, sem perdão,

Nem o indulto pio da própria Virgem.

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Molda essas almas, Deus, e só então

Merecerão retornar à sua origem

Mas deste mundo não tenham fruição.

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Alma imortal

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Quando esburgada desta pele que a cobre

A minha alma ao etéreo se elevar

Nas cerúleas alturas alguém há de mandar

Que outra vida eu cumpra, vil ou nobre

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E este mundo de novo me terá

De bom ou mau vestido, a acobertar

Uma alma dormente que a penar

Outro provável corpo buscará

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Ninguém voltou do Além memorizado

Daquilo que o Pai nos tem já reservado

Que pudesse contar seguramente

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Mas manda o nosso cerne acreditar

Que nesta terra há muito a caminhar

E que esta chama viverá pra sempre

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Amar é tudo

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Não há sentir maior que nos preencha

Nem há na vida nada que se iguale

A esta sensação de bem querença

De só de amor viver logo se instale

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E se sabemos que ao contentamento

Corresponde outro tanto em desencanto

Cremos também ser do amor sustento

Depois de um beijo ver brotar um pranto

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É pois feito de grandes controvérsias

Este amar tão declarado humano

Vencedor de procelas e inércias

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E se este sentimento for de engano

E transformar em mágoa o que era festa

Nunca é irreparável esse dano

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As dobras do tempo

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Verga-se-nos a vontade, a energia

A alguns momentos que o tempo suspende

O amor e a morte exercem tal magia

Que o tempo pára, e a eles se rende.

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Somos obra de Deus e a Ele se deve

– Como o exemplo que nos deu Jesus –

Que o nosso tempo seja intenso e breve

Feliz às vezes, outras uma cruz.

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É o destino que todos carregamos

Neste deambular por que passamos

Qual asserção a que há que aquiescer;

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Experimentando venturas, se amamos

Ou sofrendo atrozmente, se matamos

As mil razões que temos pra viver.

meugesa1@gmail.com
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