Sonetos Escolhidos – 3

Sonetos escolhidos.

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NO AMOR, O QUE MAIS QUERE

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No amor o mais querer por melhor sorte

Que alguém que ama pode auspiciar

√Č ver o ser amado al√ßar-se forte

De volta à vida, a se regenerar

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Assim se apoucam preocupa√ß√Ķes

Assim se aplaca a dor que nos doeu

Assim nos voltam gratas ora√ß√Ķes

Assim se louva o que se recebeu

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Ceguemo-nos ao mal que nos afronta

Quando outro mal ao outro mais molesta

Porque essa dor é sempre a que mais conta

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E submissos ao que n√£o se contesta;

O princípio de amar e o que ele aponta

Façamos do bem querer a nossa gesta!

 

( morte na aldeia)

TRISTE MORRER

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Com um ruído de bengala gasta

P’la calçada se arrasta o velhinho

Move-o a morte que lhe foi madrasta

Ao levar deste mundo o seu vizinho

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Porque no abandono pelos seus

Mais lhe n√£o resta que amar os amigos

E os lembrar chorando os apogeus

Que como os seus se v√£o quedar esquecidos

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Vela o velhinho e chora o companheiro

Que ali cumpre j√° frio preceito antigo

Até que o dia nasça soalheiro;

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E à terra torne que em pó o tornará

Como destro√ßo in√ļtil desta vida

Porque valor n√£o tem quem c√° n√£o est√°!

 

Desconfie-se dos auto-proclamados ‚Äėeruditos‚Äô.

Por norma, o seu espírito não excede os limites

da banalidade e as restritas aspira√ß√Ķes do acess√≥rio.

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A REJEIÇÃO DO IMPERFEITO

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O teu saber,  e o meu; ambos restritos

– Que do saber, da fama n√£o me fio –

Se ¬†de ‚Äėeruditos‚Äô est√° cheio o vazio

Que me preencham¬†sedes d’infinito!

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E assim, postulo a causa da poesia

– que¬†ao douto¬†n√£o deve explica√ß√£o –

Como valor maior da exaltação

Que o espírito liberta, em extasia.

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Essa poesia que canta o amor,

Que, solid√°ria, ampara cada dor,

Esse encanto que vem do coração.

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Que os ‚Äėeruditos‚Äô falem dela a eito,

Alucinados em tornar perfeito

O que imperfeito é, pla rejeição!

 

DOLOROSA INTIMIDADE

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Quem n√£o se tenta perante o magnetismo

De um encontro com a sua solid√£o?

Quem pode resistir à tentação

De desvendar o seu próprio hermetismo?

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Passamos toda a vida a distrair-nos

Tudo é pretexto pra não estarmos sós

Porque há receios, há pavores em nós

Do que possamos ser se o descobrirmos

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Mas um dia quebramos os tabus;

Seja o que Deus quiser! – e decidimos

Despir as protec√ß√Ķes e ficar nus

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E aberto o nosso cerne então surgimos

Perante todas as dores da nossa cruz;

As que, mesmo escondidas, mais sentimos!

 

ESPERANÇOSA MORTE

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Alma de mim metade, onde vós estais

Sabei-me nesta terra um penitente

Pois só por vós e para vós somente

Eu vivo das memórias que lembrais

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Aí, ao pé de Deus, estais abrigada

Dos males desta vida de tormentos

E por meu mal vazio estou d’alentos

C’o a esperança de a mim vos ver chegada

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Vos peço que por isso prepareis

Um cantinho no céu ao vosso lado

E assim chegada a hora sabereis;

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Que nessa esperança durmo sossegado

Por saber que a certeza em vós poreis

Que o nosso amor ser√° perpetuado!

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DITOS DE CIRCUNST√āNCIA

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No velório de um cidadão qualquer,

Mesmo que em vida ele haja sido um traste,

Sempre se ouve – baixinho –¬†algu√©m dizer:

Que perda irrepar√°vel, que desastre!

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Mas, pós três badaladas e uma pá de cal,

No alisar das rugas que imitam o chorar,

Algu√©m dir√°¬†– baixinho –¬†que fulano tal;

Bruto, arrogante e mau, “as foi pagar”!

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Coitado, outros dir√£o, l√° foi pra Deus…

S√£o os que n√£o tiveram que aturar

Aquele que foi o demo para os seus!

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Faltou-lhe conhecer que o verbo amar

– Mesmo pra quem¬†√© laico ou √© ateu¬†–

√Č o¬†que mais importa¬†conjugar!

meugesa1@gmail.com
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