Editorial

Sonhos
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Joaquim Letria

O meu querido e saudoso amigo José Fialho Gouveia apresentava um programa na RTP chamado “Sonhos de Adolescência”. Ele perguntava por esses sonhos a duas famílias concorrentes.

Cada família desunhava-se a dar respostas que as pudessem levar à vitória: “Ser médico”, “Ser enfermeiro”, “Ser professor”, “Ser bombeiro”, “Casar”. Ambas as famílias se enganavam nas respostas com que pretendiam alcançar a vitória, e esta só era atingida quando alguma das famílias acertava nas respostas previamente dadas numa sondagem que só o público em casa conhecia.

Do programa que recordo, as respostas eram:

1.- “Ser Rico”:

2.- “Ser famoso”;

3.-“Viajar muito”.

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Recordo-me que até ao fim daquele popular concurso de televisão não houve uma resposta que desse a ideia duma educação equilibrada, dum crescimento acompanhado e do que aquela fase da vida representava. Numa palavra, não havia, em nenhuma parte, o sonho.

Lembro-me que ao ver aquele concurso não consegui deixar de reflectir sobre outras situações e da sua importância para o que vai dentro da cabeça das pessoas.

Em primeiro lugar, ainda conservo até hoje o sorriso lindo e feliz dum menino de Luanda a quem a RTP, na véspera dum Natal, perguntou o que era que ele gostava que o menino Jesus lhe desse.Com esse sorriso sem fim, do tamanho do mundo, com os olhos a rir de sonho, ele disse, envergonhado:

– Eu era muito feliz se me dessem uma gasosa.

Depois, não esqueço a alegria e a algazarra de centenas de meninas e meninos enquanto esperavam a entrada na Escola Politécnica para verem a exposição  de dinossáurios com que o nosso querido professor Galopim de Carvalho encheu de sonhos a velha Faculdade de Ciências.

As ruas de Lisboa e de Luanda ainda hoje continuam pejadas de sonhos. São milhares aqueles que por ali os deixam cair, na lama e na poeira e que podemos encontrar no rasto dos pés pesados que percorrem de castigo as nossas ruas e calçadas.

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