Um património e uma vida da Rua e das suas Meias-casas

Rua na actualidade

O passado, o presente e o futuro! Será?

Para muitos em nada será novidade a dualidade existente na vila de Caminha, isto no que diz respeito à «vila» e a «rua». Mais acentuada em tempos idos, mas não esquecida. Expressões como: «eu sou da rua»; «eu vou à vila» ou «isso é lá para a rua» – existiam e, de alguma forma, ainda perduram no tempo.

Agora, a história volta a ser lembrada e, ainda, com o pretexto de salvaguardar um património desta vila, por vezes esquecido, as meias-casas da rua e toda uma vida da classe piscatória.

 Este assunto não ficou por mãos alheias. Renata Monteiro, uma jovem caminhense de 26 anos de idade ao longo do seu percurso de estudante sempre foi uma «apaixonada» pelo património e história da sua vila.

Assim, o seu percurso universitário levou-a à licenciatura e mestrado em Arquitectura e Urbanismo na Escola Superior Gallaecia em Vila Nova de Cerveira. Esta jovem recorda que «ao longo da primária e até ao ensino secundário, tive professores que me cultivaram esse gosto e curiosidade. Já em plena licenciatura e mestrado, descobri como o Património Arquitectónico pode ser importante, como está em risco e como deve ser salvaguardado». E foi durante dois anos que elaborou a sua tese de doutoramento dedicada às meias-casas da rua, ou seja, as residências da comunidade piscatória desta vila.

E porque tudo isto deveria passar do papel para a comunicação, Renata Monteiro, no passado sábado, no Convento de Santa Clara apresentou e demonstrou como a meia-casa é um património de Caminha. Numa sala repleta onde se respirou curiosidade e na qual Renata Monteiro sempre fincou que esta história tem de ser salvaguardada e preservada, pois se assim não fôr a meia-casa tenderá a desaparecer.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Um trabalho que tem tanto de enriquecedor como árduo, e Renata Monteiro confessou que por vezes pensou em desistir. «Ao longo do processo surgiram alguns obstáculos e dificuldades que me fizeram desesperar algumas vezes; por outro lado, quando tais eram superados, a dissertação ganhava mais sentido e o trabalho mais qualidade». Renata Monteiro ao iniciar a sua tese teve por objectivos: o de definir o surgimento, desenvolvimento e evolução urbana e morfológica da Rua no contexto da restante vila de Caminha e o de determinar quais as características singulares das Casas de Pescadores da Rua de Caminha. No entanto, com o avançar do trabalho, também, sentiu a necessidade  e « ao descobrir a Meia-Casa Caminhense e como ela se encontra actualmente ameaçada, passa a ter o objectivo pessoal de consciencializar para a existência, importância e necessidade de salvaguarda deste património». Traçados os objectivos, a investigação tinha de iniciar, mas por vezes obstáculos surgiram, como recorda Renata Monteiro.

«Inicialmente, a maior das dificuldades foi a de encontrar informação directamente relacionada com a Rua; esta era escassa ou de difícil acesso.» Tendo, também, alguma dificuldade em aceder a algumas das meias-casas o que lhe «permitiria uma análise correcta e próxima»; por outro lado, Renata Monteiro, com determinação, tentou a sua pesquisa no «arquivo que se revelou de extrema importância, sendo que as maiores descobertas sobre a Rua, as Meias-Casas e, porque não, sobre a vila de Caminha foram feitas por superar esse obstáculo. Quando me foi possível encontrar proprietários que me deixaram aceder e entrar nas Meias-Casas que analisei, também desenvolvi uma proximidade com essas pessoas que se revelou enriquecedora pelo conhecimento que tinham para transmitir e pela amizade que surgiu». Um trabalho e uma investigação que, meritoriamente, valeram a Renata Monteiro a classificação final de 19 valores.

 

 

História da meia-casa

Inicialmente, Renata Monteiro não sabia que ao investigar sobre a classe piscatória desta vila se iria confrontar. «A maior característica das Casas de Pescadores era que estas são Meias-Casas, uma tipologia singular, diferente e únicas», acrescenta.

Sendo a meia-casa o fruto da vivência e do trabalho da classe piscatória, está comprovado que também são património humano e cultural. E Renata Monteiro salienta: «quantas localidades portuguesas poderão afirmar com tanta certeza que possuem um expressão construída, edificada, de uma comunidade e de uma parte da sua história como o pode fazer Caminha com as Meias-Casas?!» Esta jovem por tudo o que estudou, investigou e conseguiu comprovar arrisca ao afirmar que «a Meia-Casa que encontramos na Rua de Caminha é única ao nível das comunidades costeiras portuguesas. São um exemplar de património marítimo por excelência e uma tipologia singular».

Vamos à história… A comunidade piscatória caminhense existe desde a época de surgimento da povoação caminhense. Inicialmente terão tido a sua localização na zona da Fonte da Vila, tendo-se posteriormente fixado no interior da Muralha Medieval.

Apesar de vários autores referirem que a Rua é arrabalde da Vila e portanto terá surgido pelo século XIII, a pesquisa de arquivo que Renata Monteiro levou a cabo revelou a existência de uma carta de 1506 do Duque de Caminha a dar autorização aos pescadores da vila para poderem fixar-se fora das muralhas para que estas não se tivessem de abrir durante e noite quando saíssem para a pesca, colocando em risco a defesa da praça-forte. A partir desta data é certo que a comunidade se terá desenvolvido ao longo da Rua.

Meia casa é um volume estreito (15 palmos medievais aproximadamente, correspondentes a meio-chão), térreo com uma distribuição funcional linear e padrão, igual em todos os exemplares: entrada/sala-quarto-quarto-cozinha. Possuem uma postura autoportante em pedra e paredes interiores em tabique ou tijolo. Surgem alinhadas ao longo da Rua, possuindo apenas uma água nas coberturas em telha.

Das características mais singulares das Meias-Casas podem destacar-se as fachadas rectangulares que escondem a cobertura, de pequenas dimensões, com uma pequena porta e ou brancas ou coloridas ao longo da Rua. Também o estreito e longo corredor que acompanham toda a extensão da habitação e a existência da divisão chamada pelos da Rua de Torre.

Esta divisão era a de mais altura da Meia-Casa e possuía antes a única janela da habitação, com vista directa ao Rio Minho; era a divisão mais romântica da Meia-Casa de Pescadores caminhenses.

Actualmente, podem ser identificadas 34 meias-casas. Mas, o pior é que «seja por se encontrarem abandonadas ou por estarem a ser alvo de obras que as descaracterizam completamente, cerca de metade das Meias-Casas encontram-se em risco», salienta Renata Monteiro.

 

 

Como salvaguardar este património?

Renata Monteiro deixa o recado a todos: «O primeiro passo é consciencializar para a importância das Meias-Casas como Património Caminhense, para a necessidade de salvaguarda e de medidas de protecção. Essas acções de consciencialização devem ser levadas a cabo, obviamente, pelos poderes locais, mas também por todos nós, por todos os que conhecem as Meias-Casas e se importam com elas. Vamos falar das Meias-Casas, divulgá-las, dar a conhecer da existência deste património».

Posteriormente «devem ser tomadas medidas efectivas no que toca à intervenção e actuação nos exemplares e deve ser feito um trabalho de valorização, recuperação e preservação deste património construído». Conclusão? Podemos afirmar que este «surgimento e primeiros desenvolvimentos deste arrumamento são de origem Medieval, atribuindo-lhe uma antiguidade próxima a outras ruas de Caminha, como a Corredoura a do Meio». Com tristeza, Renata Monteiro lamenta  que actualmente «já não podemos referir-nos à Rua como um Conjunto de Interesse Patrimonial, uma vez que as edificações dissonantes – e são bastantes – e as actuações das ultimas décadas levaram a uma lenta descaracterização do local da comunidade piscatória Caminhense».

Presentes neste evento estiveram autoridades concelhias, que além de mostrarem satisfação pelo trabalho efectuado em prol de Caminha, assumiram alguns desafios. Miguel Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Caminha e Vilarelho, optou por salientar que uma meia-casa poderia ser o mote para homenagear o pescador construindo um museu. Por sua vez, Miguel Alves, presidente da Câmara Municipal de Caminha, lançou o desafio para que nas próximas Jornadas do Património se elabore um programa dedicado à meia-casa. Só resta aguardar. Já Renata Monteiro promete continuar a falar da meia-casa e salienta que o «poder local possui a capacidade de comunicação e de divulgação por excelência da existência da Meia-Casa, do seu interesse, da sua importância, da sua história e das suas características. Que as pessoas se interessem e preocupem por estes exemplares está nas mãos de todos, especialmente nas das pessoas da Rua. No entanto, o Município possui ferramentas e meios únicos para possibilitar que a informação chegue muito mais longe e com mais eficácia».

 

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Nuvem do Minho
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